sábado, 20 de outubro de 2012

Deniz Cruz: O Livro Amargo


Um homem chamado Guilherme Miller disse que Jesus voltaria em 1844. Muitas pessoas acreditaram nele, inclusive um jovem chamado Jerryl McNolan. O Livro Amargo conta justamente a história de Jerryl.

  Apaixonado pela jovem Allice, ele não consegue entender os motivos de os pais dela não lhe permitirem a corte. Apenas depois de conhecer a mensagem milerita, finalmente os pais de Allice permitem o namoro.

  No entanto, o jovem casal enfrenta uma amarga decepção. O que era doce torna-se uma dura batalha na vida de Jerryl e Allice. Será que a sua fé poderia resistir a esse acontecimento? Porém, há mais, muito mais, na história deles.

  Experimente o suspense e a emoção deste livro. Você também vai descobrir que sempre há o mais pelo que viver.

 Capítulo 1 - Olhando Para O Alto

 O velho homem olhava para o céu e o seu coração era agraciado com um sentimento reconfortante: a esperança.

  Sentado na cadeira de balanço da varanda na rústica casa de madeira sem pintura, ele olhou para o portão, por onde quatro jovens entravam.

  - Boa tarde, Sr. Jordan - disse o rapaz de camisa xadrez e calça jeans, que se chamava Sam.

  - Boa tarde, amigos - respondeu o homem, alargando um sorriso.

- Vamos, entrem.

- Meu pai mandou batatas - disse uma das moças que acompanhava os jovens.

- Que ótimo! Adoro batatas.- O velho esticou-se, pegou o saco com os tubérculos e o colocou ao seu lado. Olhou para os quatro jovens à sua frente, com estampado ar de inquietude (um olhava para o outro, como se dissessem: " Vamos, fale!", " Não, fale você!"). Como ninguém iria dizer nada, ele mesmo puxou o assunto:

- Mas vocês não vieram trazer apenas as batatas, não é?

- Não senhor! - falou Sam - Viemos pelas histórias.

O homem deu uma grande risada. Recostou-se na cadeira e balançou duas vezes.

- Está bem. Sentem-se.

 Os quatro sorriram satisfeitos, olhando uns para os outros. Sam puxou um banco. Vane e Jill assentaram-se no chão com o garoto mais novo, Matheus (este tinha os cabelos vermelhos e o rosto cheio de sardas; as duas moças usavam vestidos de algodão, longos e de um azul bem discreto, comuns nas pequenas cidades daquele início do século 19).

- Jill, coloque as batatas para cozinhar. Será uma longa história; por isso, é bom termos algo para comer mais tarde - falou o homem.

- Eu sei fazer purê - disse Vane.

- Seus pais sabem que vocês poderão demorar aqui? - perguntou o Sr. Jordan.

- Sim - respondeu Sam. - Avisamos que iríamos pedir que o senhor contasse  uma história. Se demorarmos, saberão que estamos aqui.

- As batatas estão cozinhando - disse Jill. - Coloquei mais dois pedaços de madeira no fogo, e, por falar nisso, sua lenha cortada está no fim.

- Eu posso cortar a lenha mais tarde, ou amanhã, se o senhor quiser - disse Sam.

- Falaremos disso depois - respondeu o homem. - Mas já adianto que seria de grande ajuda. Podemos começar?

 A resposta estava no olhar dos quatro jovens, que se ajeitaram da melhor forma possível. Então, o Sr. Jordan iniciou:

 - Um homem chamado Guilherme Miller disse que Jesus voltaria em 1844. Muitas pessoas acreditaram nele, entre elas, um jovem chamado Jerryl McNolan. É a história dele que vou contar para vocês agora...

-----------------------------------------------------------------------------------

 Jerry McNolan saiu da ferraria. Olhou para o alto e viu o sol do Verão de 1842. Sentia um calor intenso, pois acabara de sair da frente da fornalha, onde batia uma barra de ferro para seu pai, o Sr. Nolan McNolan.

 Enxugou o suor com o punho da camisa e alisou o avental de couro surrado. Por mais quente que fosse a roupa, ela era uma proteção contra o fogo e suas faíscas.

- Ei, filho! - gritou o Sr. Nolan de dentro do galpão da ferraria. - Está com calor hoje? - Deu uma risada com seu gracejo.

- Aqui fora está mais fresco - sorriu o filho. - Quer água? Acho que vou buscar um balde no poço.

- Quero. Aproveite e jogue um na cabeça, para esfriar a cuca. Temos três arados para terminar.

 Jerryl encaminhou-se para os fundos. Jogou o balde no poço e o puxou com a manivela de madeira, com seu peculiar e rítmico "clanc, clanc". Bebeu a água fresca em uma caneca de metal, feita pelo próprio pai.

 Quando entrou no galpão, viu Nolan parado na grande porta dupla. À frente dele estava um homem bem vestido, que dizia:

 - Você me deve um cavalo, McNolan.

 Jerryl o reconheceu imediatamente. Era Zachary Brat, um dos burgueses do Condado Novo, no estado de Nova York. Um encrenqueiro com roupas finas e um sobrenome desejado pela maioria das moças das outras famílias.

 - Não devo nada para você, Sr. Brat - disse o senhor McNolan enquanto Jerryl se aproximava deles.

 - Meu cavalo quebrou uma das patas depois que você colocou ferraduras nele, ferreiro - disse Zachary, com tom arrogante. Arrumou o chapéu fino na cabeça e alisou o bigode sobre um sorriso cínico. - Tive que sacrificar o animal por sua culpa.

- Se seu cavalo quebrou a pata, não foi em razão das ferraduras novas que coloquei.

- Cuidado com o tom, ferreiro. - Ao dizer isto, dois capangas se colocaram ao lado de Zachary e as mãos de ambos se apoiaram no cabo de revólveres que traziam à cintura.

 Jerryl repetiu o gesto, ficando ao lado do pai, mas não tinha arma para impor presença maior que os comparsas de Brat.

 - Vá para casa, Jerryl - disse Nolan. Mas o filho não obedeceu.

 - Pague o que me deve, McNolan, ou vou quebrar uma das suas pernas - ameaçou o burguês.

 - Não me venha com ameaças, Sr. Brat - disse o ferreiro com um tom de indignação- , ou levo nosso caso para o xerife Brautigan.

 O homem deu um passo em direção a Nolan, ficando a menos de um palmo de seu nariz. Falou com o mesmo tom ameaçador:

 - Nada aqui será resolvido na presença do xerife. Vamos fazer da maneira antiga, McNolan. Como homens de verdade.

 Como covardes de verdade, pensou Jerryl, olhando para os homens armados, mas preferiu não falar nada, ou iria piorar a cena.

 - Seu avô jamais aprovaria isto! - argumentou Nolan.

 - Meu falecido avô não tem nada a ver com nossos negócios - disse o burguês apoiando a mão direita no trabalhado cabo de um florete que trazia na cinta. A espada fora feita pelo próprio McNolan e dada de presente a um de seus melhores amigos do Condado Novo, o Sr. Gustaph Brat, o patriarca daquela família. - Trinta dias, ferreiro. Esse é o prazo que eu dou para você me indenizar meu prejuízo. - Ele se virou e saiu para a rua poeirenta do condado, com seus dois homens mal encarados no encalço.

 O ferreiro tirou o chapéu surrado e coçou o calvo cocuruto, um gesto que sempre repetia quando estava preocupado com algo. Jerryl bem sabia.

 - O que foi isso, pai?

 - Maluquice desse homem, Jerryl. Ele culpa minhas ferraduras novas pela queda de seu cavalo e quer que eu o indenize pela perda do animal.

 - E o senhor vai pagar?

 - E como eu poderia pagar o valor do appaloosa do Brat?

 Sem perceber, Jerryl repetiu o gesto nervoso do pai, coçando a própria cabeça.

 - Vamos voltar ao trabalho - disse o Sr. McNolan.

 O jovem atravessou a bagunçada ferraria, cheia de metais pendurados e peças escoradas por todos os lados. Foi até à fornalha e remexeu numa placa de metal mergulhada na brasa. Com um fole, soprou as brasas que ficaram ainda mais vermelhas. Puxou com um alicate o metal e o colocou sobre a bigorna, modelando sua forma com pancadas de martelo. A cada batida, uma miríade de faíscas cintilava e morria no chão terroso.

 Appaloosa é uma raça de cavalo também conhecida como cavalo-pintado.

 Capítulo 2 - O Viajante
  No dia seguinte, a pedido da mãe, Jerryl foi até o armazém do Sr. Fearnot comprar alguns mantimentos. A meio caminho de seu destino, o jovem viu um garoto em frente a um outro armazém que vendia guloseimas.

 - Joe! - chamou ele. O menino respondeu com um imenso sorriso.

 - Jerryl! - disse o garoto depois de atravessar a rua. - Tudo bem com você?

 -Sim. Estou ótimo! - disse Jerryl, mas olhava por sobre os ombros de Joe, como se procurasse mais alguma coisa. - Você está sozinho?

 - Não. Vim com meu pai e com minhas irmã. Olhe! - ele tirou do bolso uma pequena faca, com cabo metálico. - Eu a trouxe comigo. Tem sido muito útil.

 Jerryl pegou a faca na mão e conferiu o fio, vendo que estava bem afiada.

 - É otima para descascar frutas e realizar outras tarefas emergenciais na fazenda - disse Joe.

 Um mês antes, o jovem ferreiro, aproveitando a visita do pai daquele garoto na ferraria para fazer a encomenda de um arado, o presenteou com uma faca ( ferramenta muito útil para uma pessoa da área rural). A partir daí, Joe o considerava um grande amigo.

 - E não é melhor você estar junto de seu pai? - disse Jerryl, sem tentar mostrar muito interesse.

 - Ele está no armazém do Sr. Fearnot - disse o garoto. - Já estou indo lá.

 Jerryl estremeceu e começou a caminhar ao lado de Joe, conversando aleatoriamente até chegarem à venda. Subiram os três degraus de madeira e atravessaram a portinhola.

 Duas pessoas estavam sendo atendidas no balcão de madeira amarronzada pela poeira e outras duas andavam por entre rústicas prateleiras. Os cheiros do ambiente se misturavam, mas o aroma de carnes ressecadas e defumadas predominava.

 Entre uma das prateleiras, Jerryl viu uma moça com vestido longo e discreto, num tom pérola, olhando uma peça de tecido. Era Allice, irmã de Joe. A pele branca combinava perfeitamente com o tom loiro de seus cabelos lisos.

 - Oi, Allice - disse ele aproximando-se e tentando controlar o descompasso emocional ao ver a garota.

 - Oi Jerryl - respondeu ela com um sorriso. Joe se aproximou, alternando o olhar entre os dois. - Eu vi a faca que você fez para meu irmão. Ele gostou muito.

 - Eu...eu... - gaguejou McNolan. - Eu fiz algo para você também. Ele enfiou a mão no bolso interno do paletó surrado. Mas, antes de tirar, o Sr. Gerald Norton gritou do outro lado do armazém:

 - Allice!? Já encontrou o que procurava?

 - Não, pai - respondeu a moça, afastando-se, inconscientemente, um passo de Jerryl.

 - Então deixe para outra vez - gritou o homem num tom severo, batendo impacientemente a ponta da botina negra ao ver que a filha não foi até ele. Entendendo o gesto, Allice abaixou a cabeça, pegou Joe pela mão e saiu pela porta. O menino disse apenas: - Tchau, Jerryl!

 - Sr. Norton - chamou o jovem ferreiro quando o homem também se virou para ir embora.

 Gerald parou sob o umbral da porta. Jerryl se aproximou e disse:

 - Acho que o senhor me conhece, sou...

 - O filho de McNolan, o ferreiro. Sim, eu o conheço.

 - Senhor, caso não se importe, eu gostaria de ir até sua fazenda para...

 - Não quero você na minha fazenda - interrompeu Norton, secamente.

 - Mas...

 - Olha garoto, sei muito bem quais são suas intenções. Saiba que não estamos procurando um namorado para nossa Allice. Não aprovo sua corte e não me faça ser mais claro do que isto. - Ele se virou sem dar oportunidade para qualquer outra palavra.

 Jerryl ficou ali, engasgado com o complexo conjunto de argumentos previamente ensaiados. " Sou de uma família conhecida na cidade", " já tenho uma profissão e minhas próprias ferramentas para exercê-la", "frequentamos a mesma igreja aos domingos", e aí por diante.

 Recostou-se no balcão e empurrou a lista de compra para o Sr. Fearnot, que a pegou com sua carranca mal-humorada de sempre.

 - Não se preocupe com essas coisas pequenas, garoto - disse um homem de barba branca e espessa recostando-se ao seu lado. - Jesus vai voltar muito em breve.

 O olhar que Jerryl direcionou para o homem foi de franca surpresa. Não pela frase que ele usou, mas por ter visto e compreendido toda a cena que se desenrolou entre ele e o Sr. Norton. Outras pessoas também perceberam?, pensou o jovem.

 - Lá vem você, Ted, com essa história de Jesus voltando - disse Fearnot, colocando uma pilha de sacos no balcão.

 - Você acredita na Bíblia, Fearnot? - perguntou Ted.

 - Claro, sou metodista, como você.

 - Então, meu caro. A Bíblia diz que Jesus vai voltar até 21 de março de 1844.

 - Onde está escrito isso, Ted? - desafiou o dono do armazém.

 - Não está escrito em nenhum lugar, velho maluco. Tem que interpretar.

 - Maluco é você - disse Fearnot, fazendo um gesto com a mão. Parecia que estava espantando uma mosca, e voltou para pegar outros itens da lista dos McNolan.

 - Como é isso? - interessou-se Jerryl.

 - Já ouviu falar de Guilherme Miller?

 - Acho que sim.

 - Eu o conheci, há uns dez anos, num barco, enquanto viajava pelo rio Hudson - disse Ted. - Quer ouvir minha história?

 Jerryl olhou para o dono do armazém e viu que demoraria um pouco para completar a lista. Meneou afirmativamente a cabeça e Ted começou:

- Bem, garoto, sou um viajante. Ando por aí vendendo minhas tralhas desde que me entendo por gente. Em 1833, eu estava num barco, viajando pelo rio Hudson. Eu discutia com outros viajantes sobre os avanços que vemos ultimamente. Essas maravilhas todas, você sabe bem: luzes de gás, máquinas de extrair caroços de algodão, comidas em latas, fotografia, colheitadeiras, trens a vapor, essas coisas. O próprio barco em que estávamos era a vapor, soltando sua fumaça negra sobre nossas cabeças e deslizando numa velocidade sem igual. Num certo momento da conversa, um dos homens chegou a dizer que as coisas não podiam continuar daquele jeito, ou em trinta anos o homem se tornaria mais que humano.

 Ted fez uma pausa e continuou:

 - Nesse momento, outro homem se aproximou de nós. Disse que seu nome era Guilherme Miller e citou com suas palavras Daniel 12:4: " Nos últimos dias, muitos correrão de um lado para o outro e a ciência se multiplicará." Achamos interessante a visão daquele homem e esperamos que ele continuasse a falar. E continuou. Miller começou a contar sobre as profecias do livro de Daniel, exatamente nos capítulos 11 e 12, dando uma síntese sobre a história do mundo. Ficamos todos boquiabertos com o que ele falava, até que finalmente ele se desculpou, dizendo que não queria ter tomado tanto do nosso tempo. Na verdade, nem notamos que havia passado tanto tempo assim. Durante a viagem, continuamos no encalço dele e ouvimos coisas interessantíssimas sobre o livro de Daniel, incluindo uma profecia sobre 2.300 tardes e manhãs que, segundo Miller, prediz o retorno de Jesus para muito em breve, aproximadamente em 1843.*

 - E como é essa profecia? - perguntou Jerryl.

 - Ah, garoto. Eu tinha alguns panfletos que, na época, peguei com Miller. Também achei outros impressos por aí, falando do assunto, mas já distribuí tudo.

 - É tudo balela - disse Fearnot. - Esses mileritas são todos uns desocupados. Estão é torcendo para que o mundo acabe. Sinceramente, espero que não apareçam aqui na nossa cidade com essa história.

 - Lamento desapontá-lo - disse Ted com um sorriso. - Mas o pastor Anatoli convidou um pregador milerita para explicar a tese das 2.300 tardes e manhãs, na sua congregação, meu caro amigo.

 Fearnot soltou os sacos sobre o balcão com violência. Fechou ainda mais a carranca e voltou para outra seção de produtos.

 * Dados extraídos de C. Mervyn Maxwell, História do Adventíssimo ( Santo André, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1982), p. 22, 23.

Capítulo 3 - A Rosa


    Jerryl voltou para casa pensando tanto na postura do Sr.Norton em não permitir sua aproximação de Allice quanto nas palavras de Ted.
   Andava pelas ruas do Condado Novo puxando uma carrocinha cheia de provisões para o mês e, quando chegou a casa, situada mais aos fundos da ferraria,
na extremidade norte da pequena vila, ajudou a mãe, Sra. Marta, a descarregar e guardar a compra.
  - Está preocupado com alguma coisa, jerryl? - perguntou a mãe, motando a expressão do filho.
O jovem sorriu desconcertado, pois não esperava deixar marcada nas feições sua atual condição.
 - Ainda não sei se é algo para preocupação - disse ele, evasivo. - Mas prometo que contarei se realmente merecer atenção.
  Nesse momento, chegaram à despensa os dois irmãos mais novos, Ralph e Palmer, evitando a continuidade da cena.
- Trouxe doces? - perguntou Palmer do vão da porta.
- Não! - respondeu Marta. - Seu pai mandou que comprasse na mercearia do Sr. Fearnot.
- Se ele vendesse doces, tenho certeza de que teria uma cara menos amarga - resmungou Ralph, enquanto Jerryl lhe despenteava o cabelo.
- Papai vai me dar uma parte dos lucros de algumas ferramentas que fiz. Prometo levar vocês na Azul Celeste e comprar balas - disse Jerryl.
    A resposta veio num sonoro "Ebaaaa!" dos irmãos, que foi ouvido lá dentro da ferraria onde, logo depois, o jovem McNolan entrou para começar suas atividades de ajudante.
 - Por favor, aqueça a fornalha, Jerryl! - gritou Nolan, carregando algumas peças de metal.
   O filho obedeceu imediatamente, indo para a boca incandescente do grande forno. Jogou madeira dentro dele e, com o fole, o abrasou ainda mais. Alguns minutos depois, a fornalha estava no ponto.
- Tudo certo com Fearnot? - perguntou o pai, parando ao lado de Jerryl e assistindo a revitalização do fogo.
- Sim. Ele tinha tudo da lista, mas os meninos reclamaram por eu não ter trazido doce.
  Ambos riram e ficaram em silêncio, ouvindo o estalar da madeira queimando.
 - Pai, o senhor tem alguma inimizade com o Sr. Norton? - perguntou Jerryl, quebrando o silêncio.
 - Não. Pelo contrário, sempre nos demos muito bem. Já fiz muito serviço para ele, em troca de boa madeira que sua fazenda nos fornece. Mas, por que a pergunta?
 - Coisa boba, acho - disse o jovem encabulado. - Creio que ele não gostou de eu estar conversando com a filha dele, a Allice.
 - Ah, Jerry, você está querendo cortejá-la? - perguntou Nolan. A resposta foi apenas o coçar de cabeça do filho. O homem riu e deu um tapa no ombro do garoto. - Às vezes, esqueço que meu pequeno McNolan já é um homem. Venha, vamos nos afastar da fornalha. Não precisamos ficar aqui queimando os pelos se não estivermos trabalhando nela.
  Foram para o outro lado do galpão e, enquanto Jerryl vestia o avental de couro, Nolan serviu-se de um copo de água. Então, disse:
 - Gerald tem uma superprotecção com essa filha. Foi sempre assim e já teve épocas de ficarmos meses sem vê-la na cidade ou na igreja do condado.
 - E o senhor sabe o motivo?
 - Não exatamente. Mas há boatos a respeito. Dizem que ela é dedicada a Deus, com voto de castidade. Se este for o caso, não poderá se casar; portanto, pode desistir da corte.
  Mais uma vez, Jerryl repetiu o gesto de preocupação e o pai emendou dizendo:
 - Agora vamos ao trabalho. Temos encomendas para terminar.
  E voltaram à lida.
  Jerryl ficou os dias seguintes cuidando do movimento da rua, esperando ver alguém da família Norton na cidade. Nenhum deles passou por ali.
 No domingo, logo que a noite caiu, os McNolan arrumaram-se com as melhores roupas e foram caminhando juntos para a Igreja Metodista, situada no centro do condado.
 Havia um considerável movimento de pessoas chegando, a pé, a cavalo ou famílias inteiras em charretes. Entravam no pátio da igreja, cercada com balaústres pintados em branco. A própria igreja, toda de madeira, era branca, e, sobre o hall de entrada, havia uma pequena tirre da qual pendia um sino e sobre a qual havia uma cruz.
 Os moradores da cidade e das fazendas ao redor vinham para assistir ao culto de domingo.
 Quando Jerryl estava para entrar, Joe o puxou pelo braço e o conduziu para a lateral da igreja.
 - Tenho um recado da minha irmã - disse o garoto, num tom baixinho. - Ela pediu que eu perguntasse o que você fabricou para ela.
 De imediato, Jerryl se lembrou de que, no armazém do Sr. Fearnot, tentou entregar o presente para Allice, mas o Sr. Norton o interrompeu. Colocou a mão dentro do paletó enquanto pensava se queria entregar o objecto para Joe ou preferia fazê-lo pessoalmente. Na verdade, ensaiou uma série de vezes a cena; a maioria delas era encerrada, em seus sonhos, com um beijo de agradecimento da amada.
 Porém, ele não contava com a oposição do Sr. Norton. E, se de fato queria entregar o objecto, teria que usar o pequeno mensageiro à sua frente.
 - É isto - disse Jerryl, tirando do bolso uma rosa com haste, uma folha e pétalas de metal prateado e polido. - Eu mesmo fiz.
 - Uau! - exclamou Joe, olhando para o objecto que media cerca de um palmo - É perfeita. Vou levar para ela.
 - Espere, Joe - disse McNolan, segurando o garoto pelo ombro assim que ele se virou. - Por que seu pai não gostou quando me viu falando com Allice?
 O menino não respondeu e apenas abaixou a cabeça.
 - Ela não pode ser cortejada? - insistiu Jerryl.
 - Não tenho permissão para falar sobre esse assunto - disse Joe, sem levantar o rosto.
 Por um momento Jerryl ficou olhando para o garoto à sua frente. Achava que tinha mais ou menos a idade de Joe quando se apaixonou pela menina Allice. Conversou pucas vezes com sua amada, mas foi suficiente para aumentar ainda mais o que sentia. Seu sonho adolescente se tornou, com o tempo, a determinação de um homem. Mas agora tinha essa novidade. A proibição em cortejar a moça poderia destruir todos os seus planos de um futuro em comum.
 - Não tem problema, amiguinho - disse Jerryl, colocando a mão sobre o ombro do garoto. - Apenas entregue a rosa para Allice e você já estará fazendo o que está ao seu alcance.
 Joe levantou o semblante com um sorriso encabulado. Virou-se, entrou na igreja e foi logo seguido pelo amigo ferreiro.
 Como estava sentado nos últimos bancos, Jerryl pôde ver quando o menino entregou  furtivamente o artesanato para a irmã. Sorriu, quando viu o fino traço dos lábios alegres de Allice; porém, o que ele queria contemplar eram os olhos azuis da jovem.
 - Boa-noite, irmãos! - disse o pastor Anatoli, assumindo o púlpito e dando início à liturgia metodista.
 Os membros daquela igreja cantaram e depois oraram juntos. Em seguida, o pastor apresentou o pregador:
 - Este é o pastor Ulric. Ele irá nos esclarecer melhor o que temos lido  em panfletos e revistas assinadas por Guilherme Miller, sobre a breve vinda de Jesus.
 Ulric, um sujeito magro e de sorriso carismático, que trajava um terno cinza e discreta camisa branca, adornada com uma gravata no mesmo tom do terno, levantou-se, cumprimentou a todos e deu início à mensagem:
 - Até o dia 21 de março de 1844, Jesus voltará para buscar Seus fiéis neste planeta. É o que a Bíblia diz e eu vou mostrar para vocês nesta noite.

 Capítulo 4 - A Profecia
  A congregação de irmãos metodistas entreolhou-se. Do púlpito, o pastor Ulric disse claramente uma data de previsão para o retorno de Jesus e mencionou que iria provar.
  - No livro de Daniel, capítulo 8, versículo 14, está escrito: "Ele me disse: Isso tudo levará duas mil e trezentas tardes e manhãs; então o santuário será reconsagrado [purificado]. " Esse verso encerra uma visão que Daniel teve e que está descrita no capítulo 8. A explicação parcial da visão está no verso 20 em diante. Mas o que interessa para nós são esses 2.300 dias, que ocorrerão, segundo a própria Bíblia, no fim da história do mundo (Dn 8:17). Esse santuário a ser reconsagrado (purificado) é a própria Terra. Jesus voltará e purificará nosso mundo, dando a verdadeira vitória para os crentes no fim das 2.300 tardes e manhãs. Mas como calcular essa data? Como entender essa profecia?
 A congregação murmurou. Do meio dela, levantou Fearnot e vociferou:
 - Guilherme Miller é um charlatão e o senhor é um de seus arautos de mentira.
 Uma onda de indignação pela interrupção inundou a pequena e lotada igreja. Fearnot encarou cada um que o olhava.
 - Não sejam tolos! - gritou ele - Esse homem é um enganador.
 No púlpito, o pastor Anatoli levantou-se e disse amavelmente:
 - Irmão, haverá o momento oportuno para perguntas e discordâncias. Por enquanto, vamos ouvir o que o pastor Ulric tem a dizer e, depois, cada um poderá tirar suas próprias conclusões.
 Fearnot fechou o cenho, inundando-o com uma expressão comum aos intolerantes. Pegou  sua Bíblia sobre o banco e saiu com sonoras batidas de pé no chão de madeira.
 Ao sinal de Anatoli, Ulric pigarreou e retomou a exposição como se não tivesse sido interrompido:
 - Guilherme Miller passou dias e noites em oração e estudos para chegar à conclusão que vou expor aqui hoje, meus irmãos. Ele não queria sair para pregar, pois sabia que iria receber críticas de tal natureza. Mas quando se tem a visão dessa magnitude, não se pode calar. Não se pode ficar inerte diante de tamanha revelação e não alertar pessoas que estejam dispostas a fazer uma real entrega ao nosso Deus. Antes de mais nada, precisamos entender que, em profecias, um dia equivale a um ano, conforme está no livro de Números 14:34* e Ezequiel 4:6, 7.** Então, para traçarmos quando termina a profecia, temos que entender quando ela começa. Observem que quando Daniel recebeu a profecia também lhe foi dada uma advertência.
 Ele abriu a Bíblia e leu partes de Daniel 8:26,27:
 - "A visão das tardes e das manhãs, que você recebeu, é verdadeira; sele, porém, a visão, pois refere-se ao futuro distante. Eu, Daniel, fiquei exausto e doente por vários dias. [...] Fiquei assustado com a visão; estava além da compreensão humana."
 Então prosseguiu:
 - Daniel continuou em oração, clamando para que Deus lhe revelasse o significado dessa profecia, até que um anjo lhe apareceu e disse o que podemos ler no capítulo 9, versos 23-27: " Assim que você começou a orar, houve uma resposta, que eu lhe trouxe porque você é muito amado. Por isso, preste atenção à mensagem para entender a visão: ' [...] Saiba e entenda que, a partir da promulgação do decreto que manda restaurar e reconstruir Jerusalém até que o Ungido, o Líder, venha, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas. [...] Com muitos Ele fará uma aliança que durará uma semana. No meio da semana Ele dará fim ao sacrifício e à oferta. '''
 Enquanto os irmãos daquela igreja conferiam os textos na Bíblia, Anatoli e Ulric arrastaram um quadro de giz para o centro da plataforma. Ali o orador fez as primeiras anotações do que seria um diagrama:

I
Início
457 a. C.

Então, o pastor Ulric continuou:
 - Nos textos de Daniel 9:25, *** Esdras 7:7, 11, 21, 22 **** está claro que o período profético dos 2.300 anos começa a partir da ordem para restaurar e edificar Jerusalém. Isso aconteceu em 457 a.C. Portanto, essa é a data de início do período que estamos estudando. Reparem que a profecia relata que, do ano 457 a.C. "até que o Ungido, o Líder", e isso quer dizer o batismo de Jesus, haveria "sete semanas e sessenta e duas semanas". Somando, isso dá um total de 69 semanas, ***** o que, em linguagém profética, equivale a 483 anos, pois cada semana tem sete dias.****** Agora, observem de novo.
 Ulric virou-se para o quadro de giz e traçou as seguintes anotações:

                            69 semanas
                            485 anos

 7 semanas                                        62 semanas
  49 anos                                            434 anos

Início                          408 a. C                             27 d.C
457 a. C                                                               Ungido
                                                                             princípe

                                                                             Batismo de Jesus

  Olhem. Chegamos ao momento em que o Príncipe foi ungido pelo batismo, o que, historicamente, aconteceu em 27 d.C. Vale lembrar que no ano 408 a.C. ocorreu a reconstrução de Jerusalém e a restauração do estado judeu. Portanto, até aqui a profecia cumpriu-se fielmente. Pois bem, depois de ungido o Príncipe, ou seja, após o batismo ocorrido em 27 d.C., a profecia fala de mais uma semana, o que significa sete dias, ou seja, sete anos. Isso nos conduz ao ano de 34 d.C.******* Foi justamente nesse ano que o apóstolo Estêvão foi apedrejado pelo povo judeu, cumprindo a profecia de Daniel 9:24: "Sessenta semanas estão decretadas para o seu povo." Observem que foram sete semanas no primeiro período - ele apontou no quadro a linha que ia até o ano de 408 a.C. - Depois de 62 semanas até o Ungido e, depois, mais uma semana para acabar com o tempo de Israel após o apedrejamento do primeiro mártir.********
 Mais uma vez o pastor Ulric completou seu diagrama, anotando as 70 semanas completas e a semana (sete anos) adicionada após o ano 27 d.C., o que culminava em 34 d.C. com a morte de Estêvão.
 Então, Ulric também desenhou uma cruz no meio da última semana e colocou um 3 1/2 em cada lado dessa cruz. O diagrama agora ficou assim:
 

70 semanas
                 490 anos

                 69 semanas
                 485 anos

7 semanas                          62 semanas                1 semana
49 anos                               434 anos                    3 1/2    3 1/2

Início               408 a.C.                                  27 d.C.           34 d.C.                                   
457 a.C.                                                     
                                                                     Ungido           Apedrejamento
                                                                     príncipe            de Estêvão

                                                                     Batismo
                                                                     de Jesus

- Continuando, irmãos, a profecia diz que na metade desta última semana, compreendida entre os anos 27 e 34 d.C., "fará cessar o sacrifício". Isto quer dizer que Jesus morreria na metade entre esses anos, ou seja, no ano 31 d.C., o que historicamente ocorreu. No plano espiritual, a partir do sacríficio do Messias, não eram mais necessários os sacrifícios simbólicos de animais que Israel realizava. Notaram como tudo se cumpriu com exactidão? Viram quando iniciam as profecias das setenta semanas (490 anos) e das 2.300 tardes e manhãs? Até aqui a Bíblia disse a verdade. Até aqui tudo se cumpriu, desde a restauração de Jerusalém até o batismo e morte de Jesus, incluindo o assassinato do primeiro mártir, Estêvão, dando um basta na era de Israel. Agora vem o mais importante e algo tão verdadeiro quanto as profecias que acabei de mostrar.
 Ulric traçou uma grande linha no quadro, anotou 2.300 anos e, no fim, 21/3/1844.


2300 anos

70 semanas
                 490 anos

                 69 semanas
                 485 anos

7 semanas                          62 semanas                1 semana                                   1.810 anos             
49 anos                               434 anos                    3 1/2    3 1/2                           
                                                                                                                
Início               408 a.C.                                  27 d.C.           34 d.C.               21/03/1844                         
457 a.C.                                                     
                                                                     Ungido           Apedrejamento         Volta de Jesus
                                                                     príncipe                 de Estêvão

                                                                     Batismo
                                                                     de Jesus
                               
 - Este mundo não passará de 21 de março de 1844. Até essa data, Jesus voltará para purificar a Terra.

* Números 14:34: " Durante quarenta anos vocês sofrerão a consequência dos seus pecados e experiementarão a Minha rejeição; cada ano corresponderá a cada um dos quarenta dias em que vocês observaram a terra."
** Ezequiel 4:6, 7: "Terminado esse prazo, deite-se sobre o seu lado direito, e carregue a iniquidade da nação de Judá, durante quarenta dias, tempo que Eu determinei para você, um dia para cada ano. Olhe para o cerco de Jerusalém e, com o braço desnudo, profetize contra ela."
*** Daniel 9:25: "Saiba e entenda que, a partir da promulgação do decreto que manda restaurar e reconstruir Jerusalém até que o Ungido, o Líder, venha, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas. Ela será reconstruída com ruas e muros, mas em tempos difíceis."
**** Esdras 7:7, 11, 21, 22 : "Alguns dos israelitas, inclusive sacerdotes, levitas, cantores, porteiros e servidores do templo, também foram para Jerusalém no sétimo ano do reinado de Artaxerxes. [...] Esta é uma cópia da carta que o rei Artaxerxes entregou ao sacerdote e escriba Esdras, conhecedor dos mandamentos e decretos do Senhor para Israel: [...] 'Agora eu, o rei Artaxexes, ordeno a todos os tesoureiros do território situado a oeste do Eufrates que forneçam tudo o que lhes solicitar o sacerdote Esdras, escriba da Lei do Deus dos Céus, até três toneladas e meia de prata, cem tóneis de trigo, dez barris de vinho, dez barris de azeite de oliva, e sal à vontade.'''
*****    62 + 70 = 69 semanas
******   69 x 7 dias = 483 dias. E se cada dia é igual a um ano, isso quer dizer 483 anos.
*******  27 + 7 = 34
******** Atos 7:59: "Enquanto apedrejavam Estêvão, este orava: "Senhor Jesus, recebe o meu espírito'."

Capítulo 5 - Pensando no Assunto



Jerryl olhou para seu pai sentado ao lado. O mestre ferreiro olhava para a Bíblia  e fazia anotações.
  - É incrível - sussurrou Nolan.
  Do púlpito, o pastor Ulric fazia o fechamento.
  - Segundo Miller, o ano bíblico de 457 a.C., ou seja, o ano de início de contagem da profecia, começa na primavera, o que equivale a 21 de março de 457 a.C. Assim, somados 2.300 anos, chegamos à data de 21 de março de 1844. Essa é a data para a purificação deste santuário, a Terra. Nós, os mileritas, acreditamos que Jesus voltará entre 21 de março de 1843 e 21 de março de 1844. E nosso coração se enche de esperança com esse pensamento. Amém, amém e amém! - Ele foi dando passos para trás, a cada "amém" que pronunciava, até assentar-se novamente em sua poltrona, ao lado do pastor Anatoli.
 Murmúrios de comentários encheram imediatamente a igreja. Os membros conversavam uns com os outros. Uns perguntando alguns detalhes, outros explicando. Para alguns, era tudo muito claro. Mas uma boa parte ainda carecia de mais explicações, pois não conseguiu acompanhar o raciocínio.
- Silêncio, meus irmãos, silêncio - disse Anatoli tomando a tribuna. - O pastor Ulric estará conosco durante uma semana, fazendo estudos e explicando individualmente para quem se interessar. Eu mesmo tenho várias perguntas para ele. Agora vamos encerrar nossa reunião.
 Cantaram e oraram. Na saída, os membros se reuniram em grupos e muitos ficaram conversando até altas horas sobre a profecia de Daniel.
 No meio da confusão de pessoas, o olhar de Jerryl encontrou o de Allice. Ela sorriu encabulada e seus lábios se movimentaram formando uma palavra: "Obrigada!" Foi o suficiente para encerrar a noite da melhor forma possível.
 Já no caminho para casa, andando ao lado de Nolan e da família, Jerryl perguntou para o pai:
 - O que o senhor achou da mensagem?
 - É surpreendente - respondeu McNolan. - Mas quero estudar mais.
 - Posso estudar junto?
 - Claro - concordou o pai, e chegaram em casa.
  No dia seguinte, pai e filho trabalhavam juntos. Fizeram algumas armações metálicas encomendadas pelo prefeito, para o festival que seria realizado no próximo fim de semana, reunindo produtores da região. Era uma espécie de exposição de produtos e concursos do tipo: maior abóbora, melhor cavalo, melhor galinha e coisas do tipo. Havia vários tipos de competições e diversões para todas as idades.
 À noite, foram à igreja, onde um grupo se reuniu com os pastores Anatoli e Ulric, estudando as profecias de Daniel e compreendendo ainda mais a exposição do dia anterior. Entre os presentes, estava o Sr. Gerald Norton e sua esposa, Lea. Jerryl os cumprimentou educadamente.
 No fim da reunião, Nolan disse para o filho ir para casa e ficou um pouco mais na igreja.
 O mestre ferreiro se sentou no último banco e, quando Norton passou por ele, pediu alguns minutos de sua atenção. O fazendeiro sentou ao lado do amigo e depositou o chapéu no rústico banco de madeira.
 - Gerald, quero falar com você sobre nossos filhos - iniciou McNolan. - Jerryl mencionou que está interessado em cortejar sua filha, Allice, mas você, ao que parece, não mostrou interesse em permitir que se encontrassem.
 - Sim. Falamos brevemente no armazém de Fearnot, num dia desses.
 - Meu garoto é uma boa pessoa e se ele não merecesse qualquer defesa eu não estaria aqui para falar em nome dele. Aliás, Jerryl nem sabe que eu iria conversar com você. Escute, Gerald, ele tem um ofício, tem suas próprias ferramentas e logo poderá sustentar a própria família. Não somos ricos, você sabe, mas nosso ofício garante uma vida digna. Eduquei meus garotos na Palavra de Deus e tanto minha família como a sua O servem na mesma religião. A princípio, não vejo motivos para não permitir que se conheçam melhor.
 Gerald pegou o chapéu e o colocou no colo, roçando as abas com as mãos calejadas.
 - Sei que Jerryl é um ótimo rapaz, Nolan - disse finalmente. - Não quero que você pense que tenho algo contra ele ou contra sua família. Não é isto. - Ele fez novo silêncio, alisando o couro surrado do chapéu. - Allice ainda não está preparada para se casar.
 - Eu sei como deve ser difícil dar em casamento a filha mais nova, meu amigo, mas você deve ter em mente que ela já alcançou a idade em que as donzelas se casam. Não convém segurarmos muito.
 - Eu também sei que é difícil entender nossa decisão, Nolan. Mas, por enquanto, é isso.
 Foi a vez de o ferreiro fazer silêncio. Mas, quando Gerald se levantou, McNolan disse em tom amável:
 - Meu amigo, há algo mais nessa história? Algo que você queira compartilhar comigo? Talvez eu possa ajudar.
 O Sr. Norton depositou a mão direita no ombro do amigo e falou:
 - Quem sabe outra hora conversamos a respeito. Esta semana será bem tumultuada. Vamos nos concentrar nos estudos do pastor Ulric e no festival anual. Prometo que na próxima semana irei procurar você e dar minha resposta definitiva sobre permitir ou não a corte de Jerryl a Allice.
 Nolan retornou para casa e encontrou o filho sentado no fundo do quintal. Ao lado dele, sentados numa cadeira, estavam os jovens Ralph e Palmer. Todos olhavam para as estrelas.
 - Não vão dormir, meninos? - perguntou o pai, assentando-se com eles.
 - Estávamos falando da volta de Jesus - disse Palmer. - É verdade que Ele voltará?
 A pergunta trouxe à baila a conversa que seguiu naquela noite. Conversaram por mais uma hora, falando a respeito das promessas bíblicas feitas por Jesis de que iria voltar. Nolan, iluminado pela luz alaranjada de uma lamparina, abriu sua Bíblia em João 14:3 e leu: "E se Eu for e lhes preparar lugar, voltarei e os levarei para Mim, para que vocês estejam onde Eu estiver."
 Depois de refletirem um pouco mais, os dois garotos mais novos foram dormir, ficando apenas o mestre ferreiro e seu aprendiz.
 - Falei com Gerald hoje à noite - disse o pai.
 - Sobre o que falaram?
 - Sobre seu desejo de cortejar Allice.
  Jerryl mexeu-se na cadeira, como se tivesse sido ferroado por uma abelha.
 - Ele disse que dará uma resposta na próxima semana - concluiu Nolan.
 - Pai, obrigado, mas não precisava interferir. Eu...
 - Você é um ótimo rapaz e os Norton são excelentes pessoas. Seria bom tê-los como parentes.
  Levantou-se com um suspiro cansado. Afagou o ombro do filho e disse:
 - Boa noite. E não se demore a dormir. Preciso de todas as suas energias na ferraria amanhã.
  No dia seguinte, quando Jerryl entrou na ferraria, Nolan já estava martelando uma haste metálica na bigorna.
 - É um florete? - perguntou o jovem.
 - Sim - respondeu, dando mais duas marteladas e estendendo o metal diante dos olhos. - É para a exposição do fim de semana. Mais tarde mexo com ela. Agora aproveite o calor da fornalha e mãos à obra.
 O trabalho na ferraria era exaustivo. O calor intenso derrubaria qualquer um menos preparado. A luz avermelhada debruçava-se sobre os músculos fortes e pele corada de Jerryl, delineando cada um de seus contornos.
 Ao meio-dia, pararam para "abastecer a fornalha", como dizia o Sr. McNolan, referindo-se à hora da refeição. Foram para a casa aos fundos, onde Marta trazia uma panela com guisado de batata e Ralph depositava sobre a mesa uma bacia com hortaliças cruas - cenouras, tomates e folhas verdes - colhidas da horta da família.
 - Vamos precisar plantar capim, Marta - disse Nolan, dando um beijo no rosto da esposa. - Só assim vamos conseguir alimentar estes três cavalos.

Capítulo 6- Dia de Festival
A cidade tinha nova vida na semana que antecedia o festival anual. Pessoas do campo vinham em peso para o Condado Novo. Compravam roupas e acessórios vendidos nas lojas dos vilarejo ou alguns ingredientes para os pratos do dia do festival.
 Mesmo diante de intensas actividades, muitas pessoas continuaram assistindo às palestras do pastor Ulric. A Igreja Metodista recebeu membros não só de seu credo, mas de outras igrejas protestantes. Até pessoas que sequer eram cristãs, no fim daquela semana, acabaram aceitando a mensagem do advento, tornando-se assíduas frequentadoras da igreja, reavaliando a própria vida, a fim de estarem prontas para a profetizada vinda de Jesus, segundo a interpretação de Guilherme Miller.
 No domingo de festival, a cidade estava em polvorosa. Tendas e mais tendas foram montadas na rua principal, indo até sua extremidade, onde havia outros locais de exposição.
 Jerryl e os irmãos carregavam várias espadas e as entregaram no balcão improvisado por Nolan, onde, no letreiro, lia-se: "FERREIROS MCNOLAN". Penduradas no mural estavam expostas as espadas ornamentais, a maioria floretes, feitas pelo Sr. McNolan, uma arte herdada de seu pai.
 Quando o ferreiro virou-se e pôs a mão no balcão, pegando o cabo de uma das espadas, outra grande e pesada mão debruçou-se sobre a dele.
 - Vim pegar um adiantamento do que você me deve, McNolan - disse Zachary Brat com os olhos escondidos na sombra do chapéu de aba negra.
 Nolan fechou os dedos no cabo do florete e disse:
 - Não lhe devo nada, Sr. Brat.
 - Você deve meu appaloosa e esta espada servirá de singelo bônus, por ter matado meu cavalo com sua ferradura mal colocada.
 Aos poucos, Nolan afroxou a mão e a tirou do balcão. Zachary empunhou a espada com satisfação e apontou para o coração do ferreiro, à distância de pouco mais de dois palmos.
 - Parece excelente - disse o homem.
 - E é - concordou McNolan, sem modéstia. - E se você levá-la sem pagar por ela, registrarei ocorrência junto ao xerife.
 Brat deu um passo à frente e a espada quase encostou no peito de Nolan, que enrijeceu diante da iminência de um golpe.
 - Algum problema por aqui? - disse uma voz grossa vindo do lado esquerdo de Zachary.
 Os homens olharam e a figura de barriga protuberante ergueu o cinto onde duas pistolas pendiam. Ali, nas armas niqueladas e com cabos de marfim, onde estava desenhado em relevo um cavalo, descansou as mãos. O homem, que parecia um urso de tão grande, deu um sorriso desenhado pelo bigode farto e um cavanhaque negro e repetiu a pergunta.
 - Algum problema?
 - Não, xerife Brautigan - respondeu Brat, voltando o passo e afastando a espada do coração de McNolan. - Estamos apenas negociando.
 - Já disse que não tenho negócios com você, Sr. Brat - respondeu secamente o ferreiro, tomando a espada das mãos do oponente e colocando-a no mural. - E ainda não coloquei os preços nas minhas peças.
 Zachary cuspiu no chão, pois mascava fumo. Tocou a aba do chapéu em cumprimento ao xerife e saiu dali.
 - É impressão minha ou você estava com algum problema aqui, meu amigo? - perguntou Brautigan pegando uma das flanelas no balcão que o ferreiro usava para limpar espadas e poliu a estrela de xerife no peito.
 - Você continua astuto como uma raposa, Jim - disse Nolan, chamando o velho conhecido pelo primeiro nome. - Vamos aproveitar o festival. Na próxima semana procuro você, pois creio que de outra forma não irei me livrar de Zachary.
 - Está bem. Molly fará aquele doce de abóbora de que você gosta para vender numa das barracas - disse o xerife, falando de sua esposa.
 Fale para um de seus meninos buscar um pote e não leve dinheiro.
 - Oi, xerife - disseram os filhos de McNolan chegando com outras coisas para colocar na exposição.
 - Olá, meninos. Ei, ei, ei! - disse o homem da lei e agarrou Jerryl pelo paletó, dando solavancos no pano, batendo o pó nos ombros e arrumando-lhe o chapéu de feltro marrom sobre a cabeça. - Onde esse menino vai todo arrumado assim?
 Jerryl sorriu e Jim deu-lhe três tapinhas no rosto.
 - Ah, não me vá dizer que este menino já está olhando para as moças? - Ele se aproximou do rapaz e lhe disse ao ouvido: - Vá, conte-me quem é a felizarda.
 O jovem corou e os dois irmãos menores recostaram-se no balcão, com olhares curiosos.
 - Conversamos durante a semana, Jim - salvou o sorridente Sr. McNolan. - Inclusive sobre isso, se Jerryl não se importar.
 Brautigan fez uma pequena mesura, tocando a aba do chapéu, e afastou-se, não sem antes dar uma piscadela para Jerryl.
 - Está tão evidente assim? - perguntou o jovem para o pai, que sorriu e deu de ombros.
 A festa foi começando, com pessoas se achegando, andando de um lado para o outro. Havia bolos, tortas, legumes, animais; jogos como testes de força, ou de pontaria; vários objectos expostos, como mantas de crochê, bancos de madeira, ferragens; passeios com pôneis para as crianças e outras diversões. Mas o que eles gostavam mesmo era de pequenos fogos de artifício que estouravam a todo momento de um canto ao outro da feira.
 Porém, a grande atração estava numa tenda ao leste, onde uma máquina de descaroçar algodão era exposta. "Uma maravilha tecnológica!", gritava o apresentador dentro de um terno xadrez, cartola e uma bengala, que ele batia no metal da máquina.
 A conversa em torno dela era justamente sobre novas evoluções tecnológicas e "onde o mundo vai parar com todas essas novidades?"
 Na barraca dos McNolan, estavam as espadas ornamentais (sem fio) e vários pequenos objectos (pratos, panelas, canecos, talheres, etc.). Havia também artesanatos de Jerryl, valendo destacar um homem e uma mulher de ferro negro. O homem usava uma cartola e o vestido de seu par era feito de pequenas tiras de metal. Foi vendido rapidamente, o que fez o jovem ferreiro pensar se realmente queria se desfazer daquele objeto que fizera com tanto carinho.
 Depois das vendas da manhã, Nolan dividiu parte do dinheiro com a esposa e os filhos e todos foram almoçar nas barracas de comida.
 Por volta das duas horas da tarde, Joe chegou ao balcão dos McNolan, e Ralph e Palmer olharam para dentro de um embornal que ele abriu, exclamando um "Uau!"
 - Pai, podemos ir? - pediram em uníssono. Nolan assentiu com a cabeça.
 Os meninos pegaram seus próprios embornais e acompanharam o amigo.
 Antes de sair, Joe olhou furtivamente para Jerryl, que estava mais que afoito para perguntar sobre Allice. O garoto aproveitou que Nolan estava atendendo uma pessoa e passou-lhe rapidamente um papel sobre o balcão.
 Virando-se, o jovem ferreiro abriu a carta e leu em pequenas e desenhadas letras:
 " Obrigada pela rosa. Nunca ganhei algo tão lindo."
 Instintivamente, Jerryl levou o papel até o rosto e o cheirou. Sim, o cheiro de Allice, ou o que ele acreditava ser o aroma da amada, estava ali. Algo como flores do campo; era isso. Tão suave que parecia sentir sua maciez. Passou os dedos no papel cheio de relevo e pensou que as mãos de Allice também o alisaram antes de escrever.
 - Que cara de bobo é essa, Jerry? - perguntou Nolan, tirando o filho de seu transe.
 - Nada, nada - disse o jovem, colocando o papel no bolso, mas sem se despir do rosto de apaixonado. Tentou amarrar o sorriso, mas ele continuou ali, embaixo de olhos brilhantes. - O que foi? - perguntou ao ver a cara de desaprovação do pai.
 - Vá com calma, filho. Não quero que se machuque - aproximou-se de Jerry e colocou a mão em seu ombro.
 - É possível amar verdadeiramente sem correr esse risco? - perguntou o jovem. Então, seu sorriso afroxou.
 - Não. Acho que não.
 Então eu assumo o risco, pois não é algo vago que palpita em meu peito. Não é um sentimento egoísta. Eu a amo de verdade e tenho certeza que não é um engano do meu coração e da minha mente.

Capítulo 7 - Fogos

 O dia foi-se despedindo manhoso, enquanto o sol lançava seus últimos tons alaranjados no imenso céu, outrora pintado de azul.
 As pessoas do Condado Novo, aos poucos, se juntaram próximas ao palco principal, onde fizeram o culto que era celebrado na igreja. Cantaram hinos e depois o pastor Anatoli expôs a Palavra. Falou de gratidão.
 No fim, o momento mais esperado da noite: os fogos de artifício. Cada um achou seu lugar, assentando-se em cadeiras ou na encosta da relva próxima de onde se tinha uma ótima visão.
 - Venha, Jerry - disse Joe puxando-o pelo braço. - Tenho um ótimo lugar.
 Jerryl foi praticamente arrastado, até o garoto o soltar e dizer:
 - Sente-se aqui, volto já - e saiu para o outro lado.
 O jovem sentou-se e, quando o fez, percebeu que não estava sozinho. A moça ao seu lado, com vestido de rendas discretas e no tom pérola, afastou a penumbra de seu rosto com um sorriso.
 - Allice? - perguntou ele, espantado e com o coração palpitando. - O...o...oi.
 - Oi - disse ela, também surpresa. Encabulada, arrumou o chapéu de tela e uma pluma na cabeça. - Joe disse que tinha uma surpresa para mim. Eu não esperava que fosse você.
 - Ele só me disse que tinha um bom lugar para vermos os fogos - Jerryl tentou sorrir; não conseguiu.
 - É. Aqui é um ótimo lugar.
 - Sim. É o melhor lugar do mundo.
 Fizeram silêncio e o primeiro fogo explodiu no céu estrelado, trazendo ao rosto dos dois um brilho vermelho e depois verde. No segundo fogo, a pele alva de Allice refletiu um tom róseo.
 - Você não vai olhar os fogos? - perguntou ela, olhando para o alto. Mais algumas bombas brilhantes estouraram lá em cima.
 - Estou vendo. Dentro de seus olhos e desenhados em seu rosto.
 A donzela sorriu timidamente, sob a luz de incontáveis cores.
 - Caso seu pai permita, você aceitaria que eu a corteje?
 - Será que o céu que Jesus está preparando é mais lindo do que o que vemos agora? - disse ela sem responder, olhando os fogos.
 Jerryl, pela primeira vez, também olhou. Disse:
 - Será mais lindo. Eu tenho certeza. E o brilho, essas faíscas maravilhosas, será casa um de nós, ao lado dEle.
 Allice sorriu mais uma vez e seus traços alvos foram desenhados pela luz vinda do céu. Azul, vermelho, verde, rosa.
 - Se eu pudesse, e se você aceitasse minha condição, eu aceitaria sua corte, Jerryl McNolan - ela olhou para seu amado e ele viu naquele sorriso todos os seus sonhos realizados. - Eu amei a rosa.
 - Jerry, você precisa ir! - interrompeu Joe afobado, assentando-se ao lado deles.
 O ferreiro levantou-se sem jeito, perdido. Queria ficar e parecia não ter aonde ir. Subiu a encosta com as costas alvejadas por luzes. Olhou para o alto. Olhou para o céu e, naquela noite, não dormiria, pois Allice, em seus sonhos acordados, não deixaria.

-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

 - Está tarde, meninos e meninas - disse o velho Sr. Jordan, que contava a história. - Podemos continuar na próxima semana.
 A resposta de Sam, Matheus, Jill e Vane foi um sonoro e longo "nãããããooo!"
 - Por favor, Sr. Jordan - disse Sam, o porta-voz da turma. - Pelo menos conte por que ela não pode ser cortejada.
 - Vou contar... Vou contar... Mas não hoje, pois já está tarde.
 - Não vamos aguentar esperar mais uma semana para ouvir o resto da história - Vane falou num suspiro.
 - Ajudem-me a levantar - Jordan esticou os braços e os adolescentes o ajudaram, pondo-o de pé. - Obrigado! Obrigado! - respirou cansado - Então cheguem mais cedo amanhã. Venham de barriga vazia, pois faremos o lanche da tarde debaixo da macieira e aí conto mais sobre a história.
 - Eles vão-se casar? - perguntou Jill.
 - Zachary vai fazer algum mal aos McNolan? - perguntou o pequeno Matheus.
 - Crianças, nessa histórias há coisas que vocês não vão gostar de ouvir e que eu não gostaria de contar. Mas é como aconteceu e, se vocês estiverem aqui amanhã, poderemos continuar.
 Quatro cebecinhas balançaram afirmativamente. A curiosidade - e a imaginação - inundou aquelas mentes. Sim, certamente estariam ali no dia seguinte.

 Quando o Sr. Jordan entrou em sua casa vazia, olhou para uma espada pendurada sobre a lareira. Andou até ela e alisou a assinatura na lâmina, próxima ao cabo. "McNolan".
 - Saudades - ele disse e seus olhos mergulharam em lágrimas que não caíram.
 Na tarde do dia seguinte, quando os garotos chegaram eufóricos, havia uma mesa posta embaixo da macieira, no fundo da casa, com frutas, incluindo maçãs, e bolos, servidos com chá. A mesa impressionava não só pela grossura de sua tábua, mas por parecer estar fundida ao chão e à macieira de flores cheirosas.
 - Alguém traga a minha cadeira - pediu o velho homem. Os meninos a trouxeram.
 Ele se acomodou na cadeira e Jill leu "Palmer", entalhado na madeira da mesa. Cutucou Vane e mostrou o nome do irmão de Jerryl escrito ali.
 - Vamos, sirvam-se - disse o Sr. Jordan. Serviu-se de um chá e sentou-se na cadeira. - Terminei falando sobre os sonhos de Jerryl com Allice. Eu não disse que naquela noite ele a amou ainda mais. Em seus sonhos, a viu como esposa, mãe de seus filhos. Viu-se envelhecendo ao lado dela ou, quem sabe, subindo aos Céus de mãos dadas com a amada, para encontrarem Jesus em Sua vinda. Nem todos... - suspirou. - Mas a esperança sempre foi o que motivou aqueles jovens. Ah, sim, isso sim... A esperança...
  Os quatro à mesa olhavam para o homem e ele fez silêncio, como se submergisse na memória de alguém ou nas páginas de um livro. E, então, continuou a história:
 - A semana seguinte foi igualmente tumultuada.

Capítulo 8 - Confrontos

 O pastor Ulric continuou atendendo quem tinha dúvidas, mas retornou para sua cidade na quarta-feira, prometendo voltar para conversarem mais.
 Nolan McNolan teve uma conversa franca com o xerife Brautigan, colocando-o a par das ameaças de Zachary. Jim prometeu que iria tentar apaziguar a situação.
 O ferreiro saiu da cadeia local e foi até o armazém do mal-humorado Fearnot, onde, no balcão, conversaram sobre uma encomenda de canecos.
 - McNolan - gritou Zachary passando pelo umbral da porta do armazém, com seus capangas. - Pague meu appaloosa.
 Nolan virou-se num sobressalto; não esperava encontrar aquele burguês tão logo. Porém, antes de esboçar outra reação, outra voz veio da sacada do estabelecimento:
 - Preciso falar com você, Sr. Brat - disse o xerife Jim Brautigan. - E é justamente sobre o Sr. McNolan.
 Zachary virou-se, ficando de frente para o xerife que estava a uns dez passos. Disse:
 - Meus negócios com McNolan não envolvem o senhor, xerife.
 - Seus negócios com McNolan envolvem a lei quando você não busca tentar resolvê-los por meio da lei - retrucou Jim.
 - Vou resolver do jeito antigo, xerife. Na forma que os cavaleiros do Oeste resolviam e alguns ainda resolvem seus negócios - insistiu Brat.
 - Você sabe o caminho legal para solucionar sua pendência com McNolan. Sabe onde dirão se você tem direito a alguma coisa; se ele lhe deve e quanto deve. - Ao dizer isto, o xerife Brautigan soltou as duas tiras de couro que seguravam os cabos de marfim das pistolas que pendiam em seu cinto. Estufou o peito de urso e completou: - Agora, se você quer to jeito antigo, também sei agir como um xerife precisa agir. Infrinja a lei, Brat, e você e seus capangas sairão arrastados daqui, direto para a loja de caixas de madeira do Kin.
 Enquanto o homem ainda falava, tanto Zachary como seus homens também debruçaram as mãos em suas armas. Ficaram ali, trocando olhares num silencioso tempo que pareceu durar uma eternidade. Quando o xerife percebeu que Brat o avaliava, como se medisse a circunferência de sua barriga, disse:
 - E não se iluda com a protuberância do meu bucho. É a velocidade das minhas mãos que você deve avaliar. E, Zachary, eu juro que elas continuam tão ágeis como no dia em que sua mãe lhe colocava calças curtas.
 Brat avaliou mais uma vez. A fama do xerife Jim Brautigan sempre o precedia. "O gatilho mais rápido do Estado de Nova York", anunciou o prefeito quando o nomeara havia alguns anos. Sem sombra de dúvida, se Zachary ou seus capangas fizessem o mínimo movimento de saque, morreriam ali, os três, baleados pelo lendário "Dedo de Fogo".
 - Vou pensar sobre o assunto - disse Brat, e todos aliviaram a tensão sobre as armas.
 Ao sair do armazém, o astuto burguês ainda lançou um olhar de ódio para McNolan.
 Depois de passar o breve tumulto - que seria assunto para dias no pequeno condado, - o xerife e seu amigo se sentaram em volta de uma mesa no canto do armazém.
 - Não quero parecer ingrato, Jim - disse Nolan, enquanto bebia um copo de água. - Mas não quero tomar qualquer atitude que o force a quebrar seu voto.
 - Ninguém precisa saber do meu voto, Mac, e eu não iria quebrá-lo hoje.
 - Então... você iria deixar que o alvejassem? Isso é ainda pior para mim. Não quero ter sua morte na minha consciência.
 Brautigan sorriu e meneou a cabeça, dizendo:
 - Você não entende a dívida que tenho com você, não é? Você não entende que devo minha vida a você, McNolan? Você é o responsável por eu estar aqui hoje, por ter minha família junto comigo e, além de tudo, ter a esperança de uma vida eterna. Entenda isso e não diga que seria demais eu me sacrificar por alguém que me deu tudo o que tenho.
 - Só cumpri minha obrigação de cristão.
 - Mas tem cristão que nem a obrigação cumpre.
 A história passada desses dois homens daria um livro, mas, em brevíssima síntese, Jim "Dedo de Fogo" Brautigan era um matador. Intolerante, "pavio curto", tinha como resposta para cada desavença uma bala e um cano fumegante. Embrenhou-se no vício do álcool e, quando a esposa disse que o deixaria, juntamente com os filhos, ele tomou uma decisão: iria matar todo mundo e depois enfiar uma bala na própria cabeça.
 Quando chegou em casa, bêbado, um jovem ferreiro chamado Nolan e sua esposa Marta estavam na sala, com uma Bíblia aberta sob a luz da lamparina.
 "Dedo de Fogo" colocou a mão na cinta e ali apertou o velho companheiro que cuspia fogo. Iria matar todo mundo, mas, antes que sacasse, foi atingido por palavras:
 - Jesus está nesta casa - disse McNolan num tom fraternal e, ao mesmo tempo, com autoridade que só uma pessoa que vive em íntima comunhão com Deus pode ter. - E em nome dEle peço que não se apresente aqui nesse estado.
 Algo sobrenatural aconteceu e a sobriedade retornou imediatamente à mente de Brautigan, a despeito da garrafa de conhaque que havia ingerido. Naquele dia, os McNolan salvaram a família de Jim, que começou a estudar a Bíblia e conheceu Jesus. Não só O conheceu, mas O aceitou como salvador pessoal.
 Certa noite, num dos estudos, ele fez um voto de nunca mais atirar contra uma pessoa e, desde então, nunca mais o fez.
 - Obrigado - disse Nolan, sentado em frente ao amigo no armazém de Fearnot.
 - Você quer registrar alguma coisa quanto às ameaças de Brat?
 - Não. Vamos esperar. Creio que ele não irá mais incomodar.
 No meio da semana, Joe veio para a cidade, trazendo um recado para Nolan. Gerald queria saber se podiam conversar sobre o assunto da semana anterior. Combinaram e, naquela mesma noite, uma hora após o sol se pôr, Norton e a esposa Lea estavam chegando de charrete. Tomaram um chá e comeram torta. Depois, as mulheres ficaram conversando na varanda da casa e os homens foram para cadeiras de madeira, no pátio.
 - Diga, Gerald, o que você e sua esposa decidiram sobre a corte do nosso filho à sua Allice?
 Norton se recostou na cadeira, sem dar resposta. Olhou para o céu, pintado com várias estrelas. Fez, então, a pergunta mais repetida naquele condado na última semana:
 - Você acha que Jesus voltará até 21 de março de 1844?
 - Depois de tudo o que estudamos na semana que passou, não tenho dúvidas a esse respeito. Minha única dúvida é sobre minha postura daqui para frente. O que devo fazer a respeito dessa consciência de que Jesus em breve voltará?
 - Sim, Nolan. Essa pergunta tem me afligido muito e, confesso, ela me ajudou a decidir a respeito de permitir, ou não, a corte de Jerryl a Allice.

Capítulo 9 - Guilherme Miller

 McNolan acomodou-se na cadeira e suas mãos se apoiaram nos braços dela. A lua cheia iluminava todo o pátio da pequena propriedade, quase tornando inútil a fraca luz amarela do lampião.
 - Conversamos com Allice - disse Gerald. - Ela tem interesse em conhecer melhor seu filho e nós consentiremos que ele a visite ou que converse com ela na cidade, quando aqui viermos.
 - Você não imagina o quanto fico feliz com isso - disse Nolan com um franco sorriso de satisfação. - Aprecio muito a forma de você e sua esposa conduzirem a educação de suas filhas e não tenho dúvida de que, se tudo der certo entre eles, formarão um ótimo casal.
 Ficaram ali durante algum tempo, tratando de outros assuntos. O ferreiro notou uma expressão preocupada em Gerald e, embora tenha tentado atrair o assunto sobre o que lhe afligia, o homem foi sempre evasivo nas respostas. O mais próximo que chegou de revelar qualquer coisa foi quando disse "em breve nossas famílias estarão bem próximas e poderemos compartilhar tudo o que há em nosso coração".
 Depois dessa fala, Nolan não insistiu e retomaram o assunto sobre a mensagem milerita e as profecias de Daniel. Algum tempo depois, estavam se despedindo daquela família.
 Quando os Norton partiram na charrete, o ferreiro e a esposa voltaram para dentro de casa, vendo seus filhos saírem dos quartos onde estavam.
 - Qual foi a resposta? - perguntou Jerry, afoito. O pai mostrou o melhor semblante fúnebre que tinha, sem dar resposta imediata.
 Marta, que igualmente não sabia o teor da conversa entre os patriarcas, também ficou aflita com a expressão do marido.
 - Você realmente quer saber? - perguntou Nolan, com um tom de solene pesar.
 Jerry abaixou a cabeça e os dois irmãos voltaram para o quarto. Marta aproximou-se do filho e deu-lhe um beijo seco no rosto, até que o mestre ferreiro disse naquele mesmo tom de voz:
 - É difícil quando vemos o primeiro filho saindo de casa para fazer a corte a uma donzela. A gente se sente mais velho.
 Jerryl levantou a cabeça, Marta olhou para Nolan e os dois menores voltaram correndo do quarto.
 - Ele deixou? Fale, pai! - o jovem quase gritava.
 Deixou, garoto... O velho Norton permitiu que você corteje a filha dele.
 Foi a vez de Jerry beijar o rosto da mãe, amassando-lhe a bochecha.
 A noite trouxe um sono tranquilo. O jovem ferreiro não se lembrava de outro dia em que tivesse acordado tão feliz. No fim daquela semana, no domingo, poderia visitar Allice. Mas, quem sabe, ela não apareceria antes na cidade. Poderiam conversar por alguns minutos, "mas não  exagere no tempo", alertou Nolan, como se não soubesse que quando se está com a pessoa amada o tempo é algo que simplesmente não existe.
 No dia seguinte, quase na hora de encerrarem as atividades da manhã, Ted gritou em frente ao arco do portão de madeira do estabelecimento:
 - McNolan, vim buscar alguns utensílios de metal para vender. Estou saindo de viagem agora.
 Jerryl coçou a cabeça. O estômago estava roncando e esperar Ted escolher sua carga de canecos, panelas, talheres, bandejas e diversas quinquilharias seria algo demorado.
 - Faremos isso depois do almoço - disse Nolan, como se tivesse ouvido o clamor do estômago do filho (na verdade, ele mesmo já estava exausto e faminto). - Vamos, Ted, traga a carruagem para o fundo do quintal e almoce connosco.
 A cerraba barba branca do vendedor ambulante desenhou um sorriso e, mais que depressa, conduziu seu cavalo pela lateral do galpão, puxando a carruagem de três arcos de ferro cobertos com tecido que um dia fora branco, mas agora era marrom, de tanta poeira que já havia absorvido.
 Quando os homens chegaram à casa nos fundos, Marta colocou mais um prato na mesa de madeira e, em seguida, deu um pequeno tapa na nuca de Palmer, pois ele, com uma faca, estava entalhando o nome na tábua.
 - Ai - resmungou o garoto.
 - Quando seu pai vir isso, você vai levar um cascudo - disse Marta, com uma nuvem trovejante sobre os olhos. O filho arrastou o prato metálico para cima do entalhe (mais tarde retomaria sua "obra de arte").
 Ted tirou o velho chapéu e o pendurou num prego próximo à porta, revelando um cabelo grisalho e desgrenhado. Bateu o pó da roupa e os pés no capacho da entrada.
 - Entre, Ted - convidou Marta. - Pode se lavar na bacia.
 - Obrigado, Sra. McNolan. Eu ia queimar qualquer coisa por aí, mas seu marido me convidou para almoçar. Não quero incomodar.
 - Não é incômodo, Ted - disse Nolan. - Nesse cocho já comem três cavalos - olhou para os filhos à mesa e desarrumou o cabelo de Ralph. - Mais um não tem problema.
 - Nolan! - reprovou Marta - Perdoe-o, Ted, ele sempre faz essas piadas.
 O vendedor sorriu de forma gostosa e disse:
 - Sra. McNolan, para poder provar o que está trazendo esse cheiro eu me transformaria em um palhaço.
 Marta agradeceu com uma mesura e retirou do forno a lenha uma fôrma com torta salgada de legumes.
 Os homens se assentaram à mesa e Nolan fez uma oração. Enquanto comiam, conversaram:
 - Ted, você conhece Guilherme Miller? - perguntou o ferreiro.
 - Eu contei para Jerryl. Conversei com Miller há uns dez anos, no rio Hudson, e também já ouvi muitas histórias sobre ele - disse Ted enquanto comia da torta salgada e fazia uma expressão de que estava muito boa. - Ele é um fazendeiro, como muitos da região. Morou muito tempo em Vermount Poultney, mas depois se mudou para Low Hampton, aqui mesmo, no estado de Nova York. Vocês sabiam que ele é membro da Igreja Batista? Também ouvi dizer que serviu na guerra da independência de 1812, mas o mais interessante é a forma como ele lutou para pregar a interpretação de Daniel.
 Ted fez uma pausa, comeu mais um bocado da comida, que incluía fartos legumes e queijo, e disse:
 - Sra. McNolan, se me permite, gostaria de mais um pedaço dessa torta. Está maravilhosa.
 - Obrigada, Ted - disse ela, servindo-lhe um pedaço dobrado, não só pelo elogio, mas por imaginar quão difícil era a vida daquele viajante. Sem morada fixa, sem uma cama para dormir à noite (Ted dormia em sua carroça). Pensou em perguntar-lhe se tinha família em algum lugar. Se havia uma esposa ou filhos aguardando sua chegada. Preferiu não interromper o assunto, e serviu-lhe, também, rabanetes.
 Então, o viajante continuou:
 - Miller é um intelectual. Um estudioso da Palavra de Deus, embora tenha lutado muito com sua consciência até finalmente levar adiante a interpretação de Daniel 8:14. Pelo que sei, foi em 1816 que ele começou seus estudos mais aprofundados da Bíblia e, em 1818, teve a primeira interpretação sobre as 2.300 tardes e manhãs. Ele lutou contra a consciência, com receio de que viesse confundir alguém.
 - Ouvi um de seus colaboradores fazer um sermão sobre essa luta inicial de Miller - prossegui Ted. - Em agosto de 1831, segundo o pregador, e treze anos após ter interpretado a profecia, Guilherme sentia o peso insuportável de sua missão. Podia ouvir a voz de Deus que lhe dizia: "Vá, anuncie ao mundo. Designei-o como atalaia. Anuncie isto ao mundo." Mas Miller ainda relutou. Ele não sabia pregar e deixava isso bem claro para Deus quando Sua voz o confrontava. Mas naquele dia foi diferente. Guilherme Miller desafiou Deus e, em oração, disse que iria fazer um acordo com Ele. Se fosse da vontade de Deus, que Ele enviasse um convite para que pregasse. Então, se recebesse o convite, Miller iria pregar sobre a profecia de Daniel.
 Os McNolans ouviam atentos a história de Ted. Jerry até passou a comer apenas quando o viajante parava de falar, enchia a boca de comida e mastigava.
 - Miller sentou-se tranquilo em sua cadeira, pois quem iria convidar um velho fazendeiro de cinquenta anos para pregar sobre a volta de Jesus? Mas, trinta minutos depois, em uma manhã de sábado, alguém bateu à porta de sua retirada casa na fazenda. Era Irving, seu sobrinho. O garoto disse que vinha da casa do pai, pois o pastor de Dresden não poderia dirigir o culto do domingo seguinte. Segundo o garoto, o pai lhe havia pedido que viesse até a fazenda do tio Miller e apelasse para que, no culto do domingo seguinte, pregasse a respeito da segunda vinda de Cristo, conforme estava estudando na Bíblia. *

* C. Mervyn Maxwell, História do Adventismo (Santo André, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1982), p. 9-14.

Capítulo 10- A Primeira Corte
- E, então, depois disso ele começou a pregar? - perguntou Jerryl, absorvido pela narrativa de Ted.
 - Antes ele correu para os fundos de casa e se escondeu no bosque. Revoltado consigo mesmo, pedia que Deus desconsiderasse o voto que fez, implorando que enviasse outro para pregar a mensagem sobre o advento. Porém, em lágrimas, ele se rendeu a Deus. Paz e coragem tomaram conta de seu coração e Miller entendeu que aquilo era um indiscutível sinal do Criador. Depois de treze anos lutando, ele atendeu ao chamado e pregou em Dresden. A partir daquela data, ele não parou mais. Pregava "onde Deus abria caminho", como disse o pregador que contou essa história, e, hoje, muito  se fala sobre o breve retorno de Jesus. Miller começou pregando em pequenas igrejas e grupos de cristãos na região, mas já expôs sua tese em igrejas de grandes cidades, Baltimore, Rochester, Filadélfia, Nova York e outras. Tudo com a ajuda de um homem chamado Himes, que não tem medido esforços para anunciar a boa-nova da segunda vinda.*
 - De fato, interessante a história dele - conclui Nolan, com todos encerrando o almoço.
 Marta separou dois pães para Ted e ele agradeceu. Depois de descansarem, escolheram os utensílios na ferraria (incluindo enxadas e foices) e o viajante se despediu, dizendo que voltaria em alguns meses.
 O restante da semana, apesar de intensas atividades, passou devagar para Jerryl. Ele estava ansioso pelo domingo, que parecia não chegar nunca. Olhava constantemente para a rua e, em toda oportunidade que tinha, ia para os comércios da cidade, sempre na esperança de ver sua amada ou de encontrar Joe trazendo notícias.
 Apesar do tempo caminhando a passos de tartaruga, o domingo chegou. Jerryl almoçou e só não vestiu a melhor roupa em razão de Marta não permitir, dizendo que aquela camisa era para a igreja. Vestiu outra que estava entre as melhores; uma de xadrez azulado. Colocou o chapéu de feltro e, acompanhado de Palmer e Ralph, que iram para brincar com Joe, foi para a fazenda dos Norton.
 Caminharam por quase uma hora, até chegar. Jerry destravou o portão de madeira e o atravessou.

 * assim que possível ponho o resto do capítulo *

1 comentário: