Capítulo 1
As férias de verão estão quase a acabar e a escola quase a começar. Porque estamos perto do fim do Verão, todas as minhas "amigas" foram de viagem com os seus namorados. Aos 18 anos, a idade de começar a namorar, a única coisa que posso fazer é ir para o meu computador. E já fui a quase todos os sites que existem no mundo...por isso também não tenho nada para fazer no computador.
Oh! Um post da escola.
Como não havia mais nada para fazer... cliquei nos posts. Para a maior parte das pessoas,eu vou para uma escola de nerds, por isso não há muitos tópicos ou conversas. Não estava ninguém no chat, por isso cliquei nos tópicos.
Oh sim ~ ! Um tópico ~!
Lá lia-se, " A Escola de Raparigas Doil's ~ Carrega ~!"
E eu carreguei...
Ji Eunsung
Se os meus sentidos estão certos, deve ser um rapaz. HEHEHE..
Espera.. Mas que raio é isto?
" Vocês raparigas ~ Não saiam para a cidade.. Vocês vestem-se como porcaria ~ Percebem?? Já estão chateadas? Respondam ~~ Kekekek"
Okay, está bem, a minha escola é conhecida por ser uma das melhores em Kwachun, por isso a maior parte das raparigas vestem saias horríveis com o cabelo cortado até ao queixo..
70% usam óculos...
Mas mesmo assim!! Isto era muito mau!!! Quanto mais pensava nisso, mais ficava irritada.
E como a minha escola é conhecida por ser uma das melhores e tem muitos nerds, ninguém vai responder a este idiota. Não que tivessem coragem para isso de qualquer das formas...
Então..Eu decidi defender a minha escola...!!!
"Cala-me essa boca!! Fala por ti!! Vai-te lixar, seu estúpido!!!"
A sério? Estava nervosa com esta resposta e então apaguei..
"Viste-nos? Huh??"
Isso era muito fraco.. Provavelmente ele tinha-nos visto. Então voltei a escrever.
"Não estás a ser muito bruto? vestimo-nos melhor do que tu."
Ok, acho que assim está bom. Mas sinto-me imatura..
Desliguei o meu computador e uma hora mais tarde voltei para ver se tinha resposta..
Não... Sem resposta...
O sol começou a pôr-se e eu senti uma sensação familiar no meu estômago..
O meu irmão está na faculdade...
A minha mãe está numa reunião...
Ainda faltava um bocado para o pai chegar...
+RIINGGG RIIINGG+
oh o meu telemóvel está a tocar ~~
Esquecendo o meu molho de soja, corri para ele.
"Estou?"
"Sabes quem eu sou?!"
.. Do que é que esta pessoa está a falar?? É uma voz de rapaz..
"uh..quem fala?"
"Tu sabes quem raio eu sou?"
"Quem é?"
"Eu? Sou o Ji Eunsung da Escola Sang"
Ji Eunsung? O_O A minha resposta...
Ele parece furioso..OMG. o que vou fazer?
"Sim,uh porquê?"
"Hey, tu andas naquela escola de raparigas, não é?"
"..Sim?"
"Fod*-se, estás a brincar comigo? Quem é que conheces na Sang?"
Fod*-se? Ele disse-me isso...? Estou furiosa..
"E se eu disser que não conheço ninguém.."
"Estás a fazer-te de difícil, não estás?"
"..Porque é que telefonaste? Como é que sabes o meu número?"
"Dizia no teu perfil..Não sabes porque telefonei? Tu sabes quem eu sou?"
" Tu é que começaste.. E tu achas que eu me importo com quem és?"
" Hey, hey! Ouve bem isto, 'Tu começaste. Wah Wah!!"
Ele disse isto aos amigos dele e eu conseguia ouvi-los a rirem-se de mim..
"Caraças.. Não interessa, vou desligar."
E foi o que fiz.. Mas estou assustada.. E se ele me bater?
+RRRINNNGS+
Caraças, o meu telemóvel não pára de tocar...
Capítulo 2
Rapidamente tirei a bateria..
Devia contar ao meu irmão?? Não, ele não se importa comigo..
+No dia seguinte+
"Ji Eunsung? Sim, ouvi falar dele."
" O_O Onde?
“Não sei. Mas ouvi.”
“O que é que eu vou fazer? Devia fingir que nunca aconteceu?”
“De qualquer maneira, Han Yehwon, tu é que és o problema. Porque é que tinhas de responder de volta?”
“Não sei!!”
“Não respondas aos telefonemas dele porque provavelmente ele vai matar-te..”
“Sim eu sei..”
“Eu duvido que ele bata em raparigas..”
E foi assim que isto acabou.. até duas semanas e três dias mais tarde-- mesmo no dia antes da escola começar. Eu queria mostrar às raparigas da escola um novo eu, por isso fui esticar o cabelo ao cabeleireiro. Não havia tantas pessoas como eu pensava…talvez porque fosse de manhã...
A Irmã mais velha pôs plástico a cobrir-me a cabeça.
E foi aí que...
+Ring+
A porta abriu ..
“Huk”
Três rapazes entraram.. da minha idade.. e bonitos. Todos eles tinham cabelo loiro -- provavelmente estão aqui para pintá-lo outra vez de preto por causa da escola..
“O que é que vão fazer?”, perguntou a Irmã mais velha.
“Cortar.”
“Não vão descolorar?”
“Não. Só cortar. E curto!”
A rapariga sentou um dos rapazes ao pé de mim e eu estava demasiado envergonhada para olhar. Não consigo olhar para ninguém nesta figura..
“Yehwon! Queres alisar certo?”
Irmã mais velha.. Porque é que disseste o meu nome...?
“Sim..”
M.A.S
Senti o olhar de alguém em cima de mim...
Capítulo 3
Eu fiquei surpreendida. O rapaz ao meu lado era o 3º rapaz mais bonito dos 4 mais bonitos que havia na escola Sang..
O que tinha mostrado interesse na Kyungwon (minha amiga).
Ele parece popular. Ele é ainda mais bonito do que eu... Noutras palavras .. BLAGH. Não gosto de pessoas mais bonitas do que eu. Rapidamente o meu olhar mudou.. Que embaraçoso.. Porquê agora?
“Tu andas naquela escola de raparigas, certo?”
“...Eu?”
“Tu.”
“Porquê?”
" Porque sim”
“...Sim?”
“ Eunsung~~~ É ela!!!”
O estúpido gritou para um dos seus amigos que estava sentado no sofá.
“O que é que ela disse?”, perguntou um dos rapazes..
“Escola de raparigas! Aquela que desligou na tua cara!”
M*rda.. Nem posso correr...
Naquele momento, olhei para o espelho e vi um dos rapazes a aproximar-se. Ele era muito alto com cabelo loiro curto. Eu acho que ele é o Ji Eunsung... -0-
“Hey, miúda, levanta a cabeça.”
Eu continuei a olhar para baixo com o plástico na minha cabeça. Mas ele agarrou no plástico e arrancou-o da minha cabeça e os meus olhos encontraram-se com o seu rosto..
Capítulo 4
O rapaz estava a olhar para mim com um olhar de nojo. Pele branca. Cabelo curto loiro.. Não tem pestanas grandes mas tem olhos grandes. Parecia uma personagem de um livro de banda desenhada japonesa.. Mais bonito do que eu. Espera.. Eu não quero admitir que ele é bonito..
“A sério?? Tu és ela, certo?!”
O rapaz bonito irritante sentou-se ao meu lado..
“Sim.”
Ji Eunsung forçou um sorriso MUITO falso para disfarçar a sua fúria. Ele sorriu para mim..
“ O_O" <-- Eu.
“Lembras-te de mim? Ji Eunsung?
“ O_O”
“O que é que eu devia fazer contigo?? ” A sua cara não mudou.. Que assustador..
O Estúpido Floppy ( vou chamar-lhe assim porque o cabelo dele anda solto de maneira estranha e eu não sei o nome dele) sorriu.
“Não tinhamos acabado com esse assunto? Ganhei coragem e sorri.
“Sabes quanto tempo esperei por este dia..?
“Tu és a primeira pessoa a desligar na cara do Eunsung~~! ^0^"
Cala-te Floppy.. antes que te parta a cara. De repente ganhei um reforço de coragem antes que tudo se estragasse outra vez.. 1 rapariga.. 1 rapaz no sofá.. o Estúpido Floppy.. e o Ji Eunsung... 1: 3. Demasiados para este plano...
“Hey, Estou a alisar o meu cabelo neste momento. Vamos resolver isto quando eu acabar.”
“Sim, também não me apetece bater em alguém com plástico na cabeça.. Despacha-te e acaba isso.. ^0^” Disse ele num tom assustador.. e voltou a sentar-se no sofá.
M.A.S ..
O Estúpido Floppy sorriu para mim..
“O Eunsungizinho bate mesmo em raparigas ..”
“...O_O“
“Despacha-te e corre!!”
“...O_O“
Eu queria dizer à rapariga que estava ao meu lado para os expulsar.. mas com o estúpido do Floppy ao meu lado-- isso estava fora de questão. Passaram-se uns horríveis 30 minutos. As pessoas que já o fizeram devem saber.. mas esticar e pôr madeixas é um teste de paciência. Assim que o seu cabelo foi cortado, o Floppy correu para o Ji Eunsung. E os 3 rapazes no sofá estavam a olhar fixamente para mim…à espera… Eu conseguia ver através do espelho..
5 minutos... depois 10... depois outros 30...
E eles ainda não se tinham ido embora..
“Irmã mais velha, demora isto o máximo que puderes..”
“Sim senhora.”
Claro, que os três rapazes não ouviram.
“Merd*, o que está a demorar tanto tempo?! Já se passaram 2 horas!!!”
O Ji Eunsung disse impacientemente..
Maelong~~ >_<
“Normalmente quando as raparigas esticam o cabelo, demora algum tempo.. Da última vez que vim aqui com a Haewon, pensei que ia morrer à espera..”
“Caraças, falta quanto??!”
“1 hora mais ou menos..”
O Estúpido Floppy disse a primeira coisa que me fez feliz.
“1 hora?!?! O que é que ela está a fazer?!?!”
“A esticar o cabelo..”
“Fod*-se.. Se puseres riscas numa abóbora, ela transforma-se em melão?”
“O_O“
Senti as minhas narinas a arder a impedirem-me de me passar com ele. São 1:3. Não aguento com todos...
Mas de repente...!!
O Ji Eunsung levantou-se.. e seguindo-o os seus amigos fizeram o mesmo.
“Se não estiveres aqui quando eu voltar, os teus 10 calduços vão transformar-se em 100. Percebeste?”
Sim!! Eles estão a ir!!!
“Se te fores embora morres!! Vou perseguir-te até à tua escolaI!!”
Okay okay.. agora VAI..
E finalmente ele foi...
Gajo estúpido... Achas que estou assustada?!?!
Assim que ele saiu eu gritei..
“Irmã mais velha!! Já acabaste?!
“Só preciso de lavar agora.”
“Oh! Eu faço isso em casa. Estou a ir. 50 certo?!”
Larguei o dinheiro e despi o robe. Com o plástico ainda a cobrir a minha cabeça, fugi pela porta de trás.
No dia 21 de Agosto, de 2001, Eu, Han Yehwon, fugi como uma maluca...
+No dia seguinte+
É dia de escola!! O primeiro dia de escola...
Mas eu tenho um mau pressentimento..
international stories
sábado, 27 de outubro de 2012
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Guiyeoni - The Guy Was Muhshesuh
Vocabulary:
Mushesuh: Awesome/Cool/Hot/Brave/Gorgeous
Oppa : Older boy/brother (for girls)
Hyung : Older boy/brother (for boys)
Unni : Older girl/sister (for girls)
Nuna: Older girl/sister (for boys)
Dongseng : Younger brother/sister
Sunbae : Older student (for younger students)
Umma : Mom
Appa : Dad
Ahjumma : Older woman
Ahjjushi : Older man
Ahnyounghasaeyo: Hello (formal)
Chapter 1
Summer break is almost over and school is about to start. Because it’s near the end of summer, all my "friends" have gone away on trips with their boyfriends. At the blossoming age of 18, the only thing I can do is go on my computer. And I’ve gone on almost every site in the world... so I have nothing to do on the computer either.
Oh! A school board.
Since there wasn't anything else to do.. I clicked into the boards. For the most part, I go to a nerdy school, so there weren't that many topics or conversations. Nobody was in the chat room, so I clicked on the comments topic instead.
Oh yeah~! A topic~!
It read, “Doil’s Girl’s school~ Click~!”
So I did..
Ji Eunsung
If my senses are right, this should be a guy. HEHEHE..
Wait... But what the hell is this?
“You girls~ Don’t go out in the city.. You girls dress like crap~ Get that?? Are you pissed yet? Reply~~ Kekekek”
Okay fine, my school is rumored to be one of the best in Kwachun, so most of the girls dressed in ugly plaid skirts with their hair cut up to their chin, and their bangs tucked behind their ears..
70% wear glasses...
But still!! That was too mean!!! The more I thought about it, the more it pissed me off.
And since my school is rumored to be one of the best and we have a lot of nerds, no one will reply to this ass. Not that they’d have the backbone to either..
So.. I decided to stand up for my school…!!!
“Shut your trap!! Speak for yourself!! Fawk off, you bastard!!!”
Truthfully? I was nervous about that so I deleted that..
“Have you seen us? HUH??”
That was too weak.. He probably HAD seen us.
So I rewrote THAT.
“Aren’t you too harsh, we dress better than YOU do.”
Okay, I guess this is good.. But I feel immature..
I turned off my computer and an hour later turned it back on to see if there was a reply..
Nope.. No reply...
The sun had begun to set and I felt a familiar sensation in my stomach..
Oppa is in college...
Mom’s at a meeting..
It’d be a while before dad got back...
+RIINGGG RIIINGG+
Oh my cell phone’s ringing~~
Forgetting about my soy sauce, I ran towards it.
“Hello?”
“Do you know who I am?!”
..What’s this person talking about?? It’s a guy’s voice..
“Uh.. Who is this?”
“Do you know who the HELL I am?”
“Who is this?”
“Me? I’m Sang High School’s Ji Eunsung.”
Ji Eunsung? O_O My reply...
He sounds pissed.. OMG, what do I do ?
“Yeah, uh why?”
“Hey, you go to that girls school, huh?”
“..Yeah?”
“FuQ, are you kidding me? Who do you know at Sang?”
FuQ?? Did he just say that to me...? I’m pissed..
“What if I say I don’t know anyone..”
“You’re coming off hard, aren’t you?”
“..Why’d you call? How’d you know my number?”
“It said it in your profile.. You don’t know why I called? Do you know who I am?”
“You started it.. And do you think I care who you are?”
“Hey hey! Listen to this, 'You started it.. Wah Wah!!'"
He said it to his friends and I can hear them laughing at me..
“Dammit.. Whatever, I’m hanging up.”
So I did.. But I’m scared.. What if he beats me up?
+RRRINNNGS+
Dammit, my phone won’t stop ringing...
Chapter 2
I quickly took out the battery..
Should I tell my brother?? No, he doesn’t care about me...
+Next Day+
“Ji Eunsung? Yeah, I’ve heard of him.”
“O_O Where?”
“I dunno. But I have.”
“What do I do? Should I just act like it never happened?”
“Anyway, Han Yehwon, you’re the problem. Why’d you even reply back?”
“I don’t know!!”
“Just don’t answer his calls because he’s probably out to kill you..”
“Yeah I know..”
“I doubt he’d hit girls..”
And that’s how it ended.. until 2 weeks and 3 days later-- the day right before school started. I wanted to show the girls at my school a new me, so I went to go get my hair straightened at the salon. There wasn't as much people as I thought there’d be…maybe because it’s morning...
The unni placed a plastic head covering on my head.
And it was then...
+Ring+
The door opened ..
“Huk”
Three guys just walked in.. my age.. and GOOD LOOKING. All 3 had blonde hair -- they’re probably here to dye it back to black because of school..
“What are you going to do?”, the unni asked.
“Hair cut.”
“You’re not doing to un-dye it?”
“No. Just a cut. And short!”
The unni set down one of the guys next to me and I was too embarrassed to look up. I can’t look at anyone like this..
“Yehwon! You’re doing magic straight right?”
Unni.. Why’d you say my name...?
“Yeah..”
B.U.T
I felt someone’s gaze on me...
Chapter 3
I was surprised. The guy next to me was Sang High’s #3 of the 4 best looking guys..
The one who showed some interest in Kyungwon (my friend).
He looks popular. He’s even prettier than me... In other words.. BLAGH. I don’t like people better looking than me. I quickly averted my gaze.. How embarrassing.. Why now of all times?
“You go to that girl’s school, right?”
“...Me?”
“You.”
“Why?”
" Just because”
“...Yeah?”
“ Eunsung~~~ It's her!!!”
The crazy bastar* shouted at one of his friends seated on the sofa.
“What’d she say?”, one of the guys asked..
“Girl’s school! The one who hung up on you!”
****.. I can’t even run away...
Right then, I looked in the mirror and saw one of the guys coming nearer. He was very tall with short blonde hair. I think he's Ji Eunsung... -0-
“Hey, kid, lift your head.”
I still looked down with the plastic on my head. But he grabbed the plastic and ripped it off my head so my eyes found his face..
Chapter 4
The guy was staring at me with a loathing look. White skin. Short blonde hair.. No double lids but big eyes. He looked like a Japanese comic book character.. Prettier than me. Wait.. I don’t want to admit that he’s good looking..
“Right?? You’re her, right?!”
The annoying pretty boy said next to me..
“Yeah.”
Ji Eunsung forced a VERY fake smile to cover up his anger. He grinned at me..
“ O_O" <-- me.
“You remember me? Ji Eunsung?
“ O_O”
“What should I do to you?? ” His face hasn’t changed at all.. How scary..
Stupid Floppy (I’ll call him that since his hair flops and I don’t know his name) grinned.
“Weren’t we finished with that whole thing? I gathered my courage and smiled.
“Do you know how long I’ve waited for this day..?
“You’re the first who's ever hung up on Eunsung~~! ^0^"
Shut up Floppy.. before I break your face. Suddenly I got a boost of courage before it was shattered away again.. 1 girl.. 1 guy on the sofa.. Stupid Floppy.. and Ji Eunsung... 1: 3. So much for that plan...
“Hey, I’m straightening my hair right now. Let’s settle this after I’m finished.”
“Yeah, I don’t feel like beating someone with plastic on their head either.. Hurry and finish it.. ^0^” He said in a scary tone.. and sat back down on the sofa.
B.U.T ..
Stupid Floppy grinned at me..
“Eunsungie really hits girls..”
“...O_O“
“Hurry and run!!”
“...O_O“
I wanted to tell the unni next to me to kick them out.. but with stupid Floppy next to me-- that was out of the question. And a horrible 30 minutes passed. People who’ve done it might know.. but magic straight is a test of patience. As soon as his hair was cut, Floppy ran over to Ji Eunsung. And the 3 guys on the sofa just stared at me…waiting… I could see through the mirror..
5 minutes... then 10... then another 30...
And they still haven’t left..
“Unni, just keep it in as long as you can..”
“Yes ma’am.”
Of course, the 3 guys didn’t hear.
“Sh1t, what’s taking so long?! It’s been 2 hours already!!!”
Ji Eunsung said impatiently..
Maelong~~ >_<
“Usually when girls straighten their hair, it takes a while.. Last time when I came here together with Haewon, I thought I was going to die waiting..”
“Damn, how much longer??!”
“About 1 hour..”
Stupid Floppy said the first thing that made me happy.
“1 hour?!?! What’s she doing?!?!”
“Straightening her hair..”
“Fawk.. If you put stripes on a pumpkin, does it become a watermelon?”
“O_O“
I felt my nostrils flare to keep from snapping at him. It’s 1:3. I can’t take them all...
But all of a sudden...!!
Ji Eunsung stood up.. and following him, his friends did too.
“If you're not here when I come back, your 10 hits will become 100. Got that?”
Yes!! They’re leaving!!!
“If you leave you die!! I’ll go hunt you down at your school!!”
Okay okay.. now LEAVE..
And he finally left...
Stupid bastard... You think I’m scared?!?!
As soon as he left I shouted..
“Unnie!! Are you done?!
“I just need to rinse now.”
“Oh! I’ll do it at home. I’m going. 50 right?!”
I slammed down the money and I yanked off the robe. With the plastic covering still on my head, I ran out the back door.
On August 21, 2001, I, Han Yehwon, ran like crazy...
+Next Day+
It’s school!! The first day of school...
But I have a bad feeling..
Chapter 5
I arrived at school. Much to my annoyance, Kyungwon didn’t even acknowledge my new hair.
“So Sang High School’s #3 best looking guy talked to you!?”
“That stupid Floppy. If I see him again..”
“What are you going to do?”
“Kill him... ”
“You poor b***h, I can’t believe you haven’t heard of Ji Eunsung.”
“Shut up! Don’t even say his name in front of me!!”
“KEKEKE! ^0^“
The first day of school we got assigned the last seats in the room so we sneakily and carefully chatted away.
And we also decided....
“Hey, isn’t detention the first day of school a little harsh?”
“Wanna skip?” I asked.
“Skip detention? We’ll be in so much trouble. HEHE.. okay”
“Hey, don’t lie to me, I know you’re afraid Ji Eunsung will come looking for you.”
“.. Shut up..” I muttered
“HAHA! Okay, let’s skip.”
“OKI OKI!!”
So.. the time is 4 o’clock and school has ended and we’re SUPPOSED to be in detention right now.. We crept past the office and into one of the classrooms.
“No one will catch us here. ^0^”
We whispered in the back of the classroom.. We talked about what we would do when we got home and on the weekends.
“Then we’ll- Lee Kyungwon.. Turn around.”
“Huh? Why?”
“Turn around, we’re running on the count of 3..”
“What are you talking about, weirdo?!”
I ignored her and I started to run as fast as I could. I felt a LITTLE bad so I turned my head and yelled, “They’re in Ji Eunsung’s group! RUN!”
“You b***h, you should have told me earlier!!”
Kyungwon was struggling to catch up with me and me???
I ran for my life, even though I didn’t really know if it was him or not. I’m sure it was one of his friends from the salon (not Floppy) the other one.
OH NO. The back door is locked..
In that case, I might as well go to the south side and go out the door and hop over a fence and into the street.. Kyungwon finally caught up with me.. panting for breath.
“You psychotic b***h. You leave your friend to save your own pathetic life!?”
“Sorry.. T_T .. I’ll pay you back, but right now is REALLY not the time to fight. Ji Eunsung’s friend saw me.”
“Then what do we do?”
“Let’s hop over the fence.”
“Crazy b***h...”
“Well do you have a better idea?”
“But it’s dangerous.”
“It’s not as scary as getting beaten to death!”
“Of all the girls at school, I decided to become friends with you.”
“O_O”
Athletic Kyungwon climbed the fence first.
“Catch me okay?”
“Shut up..”
Kyungwon smirked and jumped over..
”AHK.”
“What is it?!”
No answer...
“Lee Kyungwon! What’s wrong!!?”
“No-- nothing, Yehwon...”
“Huh?? WHAT??”
No reply..
“Why aren’t you talking? Are you hurt?”
“No..”
“Okay then, I’m going!!”
If I have ever made a big mistake, it was on August 23, 2001.
And if I have ever been careless, it was on August 23, 2001. I jumped without even checking to see if anyone was there. I jumped with closed eyes, thinking I’d chicken out if I actually saw where I was jumping.
“AAAHHHKK!!””
+Smack...+
Smack?????
Oh lord!!
When I opened my eyes, I was in Ji Eunsung’s arms with his lips on mine. I can see 3 others from Sang, including Floppy. Kyungwon’s shocked face next to me.. She was staring as if I’d lost an arm.
Wh- wha- what the hell is this??
Ji Eunsung looked even more shocked. His eyes were as round as saucers.
WAAAAAH!! I’m dead...
“Sorry!! I didn’t mean to!!”
“O_O”
“Sorry!!”
I said, drawing away and getting ready to run.
The guy finally came back to his senses.
“Where. Are. You. Going,” he asked, grabbing my arm.
“Sorry! I didn’t do it on purpose!!”
“Take responsibility for your actions..”
“Huh??”
“You’re the first b***h I’ve smacked lips with. Take. Responsibility.”
“You think I'd believe you?! BWAHAHA!!”
A guy who looks like that has never kissed?? That’s like saying my mom does the dishes (she makes me do them..)
“Eunsung wouldn’t hold a girl’s hand unless he’s getting married,” someone said. It was stupid Floppy.
“Take responsibility for your actions...”
Chapter 6
He’ll only hold hands if he’s getting married?? With THAT personality?!
“Sorry Yehwon, I was going to tell you, but that ass over there covered my mouth..” she said, pointing to Floppy.
Don’t worry Kyungwon, I’ll kill Floppy.. it’s only a matter of time...
But right now, we have a bigger fish to fry..
“How are you going to take responsibility?”
“...”
“We. Have. To. Get. Married.”
“Hey Kyungwon.. What’d he just say?!” I asked startled.. Am I hearing him correctly..
“He said he’s going to marry you.”
“Eunsung!! You’re crazy!! Look at her face!!”
I swear I’ll kill you if it’s the last thing I do, Floppy...
“Dammit!! Why’d you jump over the fence?!?!?!” Ji Eunsung yelled.
“You’re the one stupid enough to hide there!!!”
“You wanna die?! Do you have a death wish?!”
“...” He’s still scary...
“Dammit, if only we hadn’t smashed lips.. Why HER of all people?!”
“Are you going to hit me..?”
“Fawk jibber jabber... jibber jabber..” He muttered to himself.
“Hey, do you want me to call the others over?” One of his friends asked, looking at me as if I were lower than poop.
“Yeah. Call them.” Floppy said, “Eunsung!!! Let’s go, I’m hot!!”
“Shut your trap!! 001-553-297. Press talk.” Ji Eunsung yelled
“Me?”
“Yeah you!!”
“Why?”
“Because you jumped on me!!”
“I did not jump on you!!”
“Well you hugged me!~”
“You came to beat me!!!”
“Well, do you want me to finish what I came for?!”
“No..”
“Then call!! If you don’t, I’ll kill you!!”
“Are you really going to marry me?”
“Crazy b***h..” he muttered..
Tch.. the bastard is changing the topic...
“I’m not taking responsibility of you..” I said..
“Do you think I like you?! You ass face!! If you tell ANYONE we’re going out..” He let the threat hang in the air..
“Who’s going out with you??”
“I guess I’m a little to blame, but it’s all your fault!! 4 people saw you jump into me!!”
“It was a tiny peck!! Besides, I’m already going out with someone.” (white lie.. )
“I don’t care, do you think I like you?!!?
“Then why do we need to go out?!??!!”
“Cause we kissed!! I told you!! If you don’t call, you die... Dammit, why the hell aren’t they here yet?? Is the back door far from here?”
“No.. it’s hella close..” Stupid Floppy answered.
“We’ll go then.”
Kyungwon and I followed behind Floppy and Ji Eunsung slowly. From here, Ji Eunsung is pretty tall, and I could hear their conversation..
“Eunsung, isn’t she a little....”
Guess who said that... image
“Dammit!! I’m pissed too! Sticking to me like a stalker..”
We followed after them a little slower..
“BARFF!!!”
“Hey, that’s Ji Eunsung?"
“Ye- yeah” (I was out of breath cause I was yelling too much earlier.)
“He’s the head of the 4 best lookers. How could you not know?? image“
“Shut up...”
“You’re so stupid.. I told you a billion times in the city that he was the uhljjang.. You totally lucked out you b***h ^0^”
“You can have him..”
“Oh yeah, I forgot that he hated skin-ship. You know touching people and stuff. But I didn’t know he’d go out with someone because of a little kiss..”
“Tch.. Why do you think he’s going out with me anyways??”
“Because you guys kissed..”
“Nope! He’s lying about that. He’s soooo into me~~ He’s WAY into me..”
Kyungwon hit me on the head a couple of times...
“Oww. Sorry...”
Yup, with that unbelievable situation happening at the fence.. I got myself a boyfriend. However.. neither him nor I called each other for a week.. and I just forgot about it all..
+A few Weeks Later+
I got a phone call from Kyungwon.
“Hey! Jungmin wanted you to call him!!”
Jungmin (my only friend of the other gender.. We’re not going out..)
“Why?”
“I dunno. He sounded serious though.”
“He can call me!!”
“Well I told you~ See ya, I’m wasting my minutes..”
I can’t call long distance. It’s because of my stupid brother. My stupid brother always used my phone to call his girlfriend in America and he used all my minutes..
“Oppa~~”
“What..”
“Can I use your phone??
“No.”
“Why?”
“You didn’t make me fried rice yesterday.”
Bastard...
My brother.. His record for being pissed at me because of food is a week. No matter how much I bothered him, he wouldn't let me use his phone..
The time was 11:30 at night..
However, there was no one at home to keep me home.. so no one even tried to tell me it was dangerous to go outside at night. I walked to the phone booth outside .. Muttering to myself, I put in some coins and I heard a greasy voice behind me..
“Want to earn some fast money??”
What the hell is this guy talking about...??
Chapter 7
The guy kept on hitting my shoulder. He looks at least 30. Wow.. It’s my first time seeing someone with a mustache. His eyelids are bigger than his eyes.. Droopy eyebrows.. Long nose hairs. Who is this man...??
“Who are you?”
“Come to my car for a while and we can talk..”
“Why?”
“This oppa has something to say to you.”
“Ahjuhshi, how old are you?”
“I’m not an ahjuhshi, I’m an oppa. I’m not old~”
“No thank you, my boyfriend is waiting for me..”
“Let’s talk, girlie~~”
“I don’t need money, mister..”
The man’s face expression suddenly turned pathetically ugly and he grabbed my wrist..
“I’m lonely, that’s why..”
“Ahjuhshi, get away from me..!!”
My eyes filled with tears as I looked at my surroundings.. Far away, I saw a few people... They seemed to be around my age..
“AHKKKK!!! HELP ME!!!”
“Why you-”
Mustache boy covered by mouth and started dragging me towards his car..
Mommy, your daughter is about to be kidnapped...
The tears I held back were flowing down like crazy and stupid mustache man tried to get me into his car. His car was a truck... T_T
“Ahjuhshi.. Let go of me.. What are you going to do to me...”
“No one’s going to kill you.. ”
The bastard started the car.. WAHHH
“What the hell is that...” The man muttered with a surprised look.
It’s probably your reflection in the window..
“Hey!! It IS Eunsung’s girlfriend~~~!!”
FLOPPY~~~~~~!!!!!!!!
Yup.. Jumping up and down (the car window was high up) trying to look inside the car was Floppy..
My cute little Floppy~~~!
“Hey!! Get away from here!!” Mustache man yelled through the window..
He must have thought Floppy was too weak..
“Eunsung!! Sungjae!!! Come here!!!”
Mustache man froze and then turned the car engine on again.
“Hey! Hey! Mustache man is running away!!” Floppy yelled.
The bastard locked all the doors and started driving away. I smashed my face into the car window and screamed..
+BAM!! SMASH!!!+
The window broke and a rock hit the mustache man on the head.
Oh yeah~~~!!!
“FUQ!! What the-” M.M. (Mustache Man) yelled angrily.
He got out of the car angrily. YES!! I’m alive!! I opened the car lock and jumped out.
+Smack+ +Punch+
What’s that sound? I neared towards the direction where the sounds were coming from...
3 guys wearing casual suits..
4 girls wearing casual clothes...
One of the guys was Floppy. And next over there, I could see M.M. with a double bloody nose.
In front of M.M. was..
...was...
Ji Eunsung.., with his suit sleeves rolled up to his elbow, beating the CRAP of the M.M.
I collapsed onto my butt and cried out loud..
“WAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!”
“Hey ass head, are you alright?”
Floppy asked looking at me with a pitying expression on his face..
“*sniff* Do you want to *sniff* die..??”
“Eunsung!! Your girlfriend’s crying over here!!!”
Crap..
At Floppy’s words, all the guys and girls’ eyes found me. Ji Eunsung spat on the guy’s face and neared towards me.
“T_T Thanks..”
“Retard!!! Why the hell did you get in that car!!!”
“He kidnapped me..”
“Why the hell are you walking around at night by yourself?! Are you a loser?!”
That bastard.. I was actually thinking you had a heart..
“Anyway.. Thanks..”
“Hyunsung, get that guy in his car and have him drive away. I think I’m going to barf looking at his face.”
“’K.”
The guy named Hyunsung said..
Hey, he’s good looking.. The guy named Hyunsung..
..hehhehehe...
Chapter 8
Ji Eunsung stared at me and opened his mouth..
“Hey, do you want to die?”
“Huh?? What??”
“Why are you looking at him like that..”
“I did not!”
“Are you yelling at your savior?!”
I don’t have anything to say back to him...
“Hey!! And why aren’t you calling?! Were you going to run away or something?!”
...What a Retard..
One of the girls, wearing a casual outfit, with the longest hair said..
“Eunsung, let’s go. It’s scary.”
“You guys go ahead.”
“Why?”
“This b***h will run away again..”
“... O_O....”
The long haired girl just turned her head. I think I’ve seen her around before.. She looked similar to To-Ya’s Kim Jihye.
“If it wasn't for me, you’d have been kidnapped.. image kekeke..” Floppy said.. It's not like anyone cares...
... Get lost..
“Eunsung, take all your time.. We’ll be waiting at ‘Saie’” one of the guys wearing a suit said.
The guy named Hyunsung kicked M.M. a few more times and sent him on his way. KEKE.. This guy is my type image
“K, hurry up, I’ll be right there.”
They got a little further away. And if I wasn’t mistaken.. The girl with the long hair kept on looking back..
Floppy grinned, “Be careful, Eunsung~~!” And ran after his friends.
Be careful of what? Me?
“Where’s your house?”
“HUH?”
“WHERE IS YOUR HOUSE!?!?!”
“Why are you yelling.. It’s right behind this alley.”
“Let’s go.”
"Where?”
“Your house, stupid.”
“Are you drunk?”
“Who said I’m going inside??! I’ll take you home!! DAMMIT!! Why do you have to make everything so complicated?!”
“It’s fine..”
“Obey me, little one..”
My house was that close.. but why did it seem like it wasn‘t?
“Call me when you get inside.”
“Why?”
“CALL ME!!!”
“Our phone’s out of order..”
“What do you mean..?”
“We can’t dial..”
“... So you’re poor... I didn’t know.. Sorry..”
“It’s not like that!!”
“Don’t you have a cell phone?!”
“Yeah..”
“Call me with that.”
“You call me..”
“No. If I want your number, I have to go back to that chat room.. It’s annoying..”
“But you called me last time!!”
“I was pissed back then..”
“I don’t have any minutes on my cell phone..”
“You wanna die..?”
“You always say you’ll kill me when you have nothing to say.. image”
“Go in. Don’t walk around at night. Last time I saw you- you had a friend. Go around with her.”
“Okay. Thanks?? See ya..”
“If you don’t call..” He let the threat hang..
“Fine!!”
“K, I’m going.”
I wonder why he’s wearing a suit. I was curious, but I didn’t ask him. Hmm, he dyed his hair back to black.
As he walked away I realized.. He wasn’t that bad..
I walked inside and not ONE person asked where I’d been. I have to call him.. What do I do??
+KNOCK KNOCK+
“Who is it?”
“Oppa, you’re not asleep image”
“Yeah...?”
“I’m coming in.”
“No.”
I opened the door anyway and saw my brother on the internet.
“Oppa, can I use your phone real quick?”
“No.”
“Why?!”
“Because you didn’t make me fried rice..”
“I’ll make it for you 10 times!!”
“....”
“Wanna make a contract?!”
“....”
“I’ll make a contract!!”
“The paper’s in the first drawer.”
That beast... O_O
After writing the contract (I even stamped my print), I got to use his phone.
“Use it here.”
“WHY!?!”
“No.”
“.. T_T..”
It’s ringing..
“Who is it?!?!?!”
OMG, that scared me..
“It’s me, Yehwon..”
“Oh..”
"Do you always answer the phone like that??”
“Yeah.”
“I called.”
“Yeah..”
"Eunsung~~ Open this for me!!” a girl’s voice said over the phone..
“You open it!!”
“Anyway.. Thanks..”
“Yeah..”
And right then....
“Hang up now. It’s been 2 minutes.”
“Oppa, hold on a few more seconds.” My brother didn’t answer and just stared at me..
“Hello..”
“Why’d you stop talking?!?!”
“Oh, my brother..”
+PEEPE PEEEEEP PEEEEP..+
“What the hell is that??” Ji Eunsung asked with a surprised tone.
Whenever I use the phone for too long, my brother always plays his stupid recorder..
“S-sorry. I’ll call you back.”
“12 sharp tomorrow.”
“But I have class.”
“Don’t make me laugh, it’s lunch!”
“My school and your school are different.”
“Then 1.”
“K, I’m hanging up.”
"beep....beep... beep..."
He hung up.. O_O.. without saying bye.. meanie..
I slammed the phone shut and turned around to glare at my brother..
but him playing his little recorder so casually pissed me off even more..
“Sheesh, impatient loser!!”
“Make me rice..”
“Right now...?”
“I’m hungry.”
Crap.. WHY MUST ALL THE GUYS I KNOW BE LIKE THIS???
Oh yeah.. Jungmin, I haven’t called him..
Chapter 9
If I ask that human if I can use his phone again, he’ll probably start singing the opera or something.. I guess I’ll just have to use Kyungwon’s tomorrow. image That night.. I made fried rice for my brother, and my mom started b***hing at me for cooking at 3 AM.
The next day...
Kyungwon and I .. were supposed to be in class.. but we were in the bathroom.. Why..??
Because the teachers found out that we ran away yesterday..
“Damn, why do these b***hes make the bathroom so dirty?!”
“Is that really all you have to worry about..? So really, are you going out with him..?”
“I dunno. It seems like a joke.. Anyway.. it was a nightmare yesterday.”
“Didn’t you say he wanted to call you at 1?”
“What time is it?”
“1:30.”
“Why didn’t you tell me..?”
“Did you give me a chance to talk?”
“...****... Kyungwon, lemme see your phone.”
“5 minutes.”
“..Just don’t blow a recorder..”
“Nevermind.”
While the phone was ringing, Kyungwon was muttering to herself ..
“You’re starting to like him.. jibber jabber..”
“DI~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~E!!!”
“Who the hell are you?!”
“Hello.. It’s Yehwon..”
Isn’t my timing great? Why did he have to answer right when I was yelling at Kyungwon? Over on his side, I could hear another person’s voice.
“Ji Eunsung, come here.” It seems to be his teacher.
HEHEHE ^^ ..
“Dammit, I’m going to get my phone confiscated!!”
“Sorry.. (but it was your fault you answered)..”
“Get up here!!! (<-- teacher) I’M COMING!! I’M COMING!! Meet me there at 7.”
“How dare you talk like that to your teacher!!!! (<-- teacher) OW OW OWW!! DON’T HIT ME THERE!!! I HAVE A PIMPLE RIGHT THERE!!”
... ... ... ... ...
I can never have a normal conversation with this boy..
“What’d he say?”
“I don’t know. He said, 'Meet me there'... Where is there..?”
“How would I know?”
“I don’t know..”
“Kyungwon!! Come with me~~!”
“Is that the wind..?”
“You.. bad person!!”
Kyungwon just continued to scrub the toilets.. Betrayer.. Girl version of Han Seungpyo (my brother). Hmm.. right about now, Ji Eunsung is getting hit where his pimple is.. I feel a little bad..
But where is ‘there.’...?
Is he talking about there from yesterday?? I guess the only place is in front of my house.. Hmm.. Maybe he really does like me.. EHEHE.. Of course, that’s impossible.
“Hey Kyungwon, come to my house today.”
“Why?? What are you trying to do..?”
“Just that my brother is coming home early today (she used to like him).”
“Let’s go.”
“..........Okay.... (you boy crazy... tsk tsk.. how can you see my brother as a guy)..”
I couldn’t actually tell her that Ji Eunsung was going to be there. If I had, she would've punched me.. so I lied image If my brother ever comes home before 12, it would be a miracle.. you know that. Hmm.. Ji Eunsung will probably come by himself, then what do I do with Kyungwon?
So we both went to my house and I realized I guessed right image
Dammit!! Why did he bring Floppy?! If he was going to bring a friend, he could have a least brought along that one good looking one.
“Hey!! You brought your friend!!” Floppy yelled running towards us.
“Hi image”
“Whatcha do with Eunsung yesterday?? image”
“Kim Seungpyo, die..”
Ji Eunsung, what did you just say..? Kim Seungpyo? Yeah, it just happened that Floppy’s name was Seungpyo.. The same as my brother.. The more I get to know Floppy, the more reasons I have to hate him..
“Dammit!! I got my SKY phone taken away because of you!! I told you to call at 1!!”
“I never asked what kind of phone you had. image“
“.. Aish.. Let’s go..”
“Oh yeah!! 2:2 perfect!!!”
Chapter 10
“Where are we going?”
“Someplace where we get some nice cool alcohol..”
“Why?”
“Because I saved you yesterday.”
That was random..
“I‘m not getting drunk.”
“If you get drunk, I’m leaving you.”
That.. PERSON!! Can’t you at least lose to me once?!
“I’m not going.” Kyungwon said firmly.
“I’m not going.” Floppy mimicked the tone of her voice and actions..
“ image“ <-- Kyungwon
“KEKEKE. Eunsung, look at her face~~! Isn’t it funny?”
“Your voice is funnier,” Kyungwon said, crossing her arms.
“What’s wrong with my voice?!”
“You should record it and listen to it. It’s really funny.”
“Why?!”
“You sound nasally.”
“Hey, let’s leave them,” I said, tugging at Ji Eunsung’s arm.
BUT...
“Let go and tell me.”
He said, tugging his arm away from me.
“Sorry... Do you not like people touching you..?”
“Yeah.”
“Are you mad?”
“No. Even if you want to touch me.. Don’t.”
O_O
Floppy’s rubbing off on you.. Don’t hang out with Floppy! Hang out with your friend Hyunsung!! Behind us, we could hear Floppy and Kyungwon still arguing.
“NASALLY?! HOW do I sound nasally?! TELL ME!!”
“You sound like your nostrils are plugged up..”
Kyungwon.. He may be annoying and he may be Floppy.. but he is STILL good looking as 1 of the 4 kings at Sang High. Ji Eunsung led us into one of the most expensive bars. I turned around to see Kyungwon rubbing it in Floppy’s face that she won an argument and Floppy was pouting like mad.
“The usual!!” Ji Eunsung yelled..
I guess he comes here often.
“There are only 4 of you.. Do you think you can drink it all..?”
“Yeah.”
Silence..
“Hey, say something.” He said tapping me on the shoulder with his lighter.
You might not want to touch me, but still.. you don’t have to hit me with your lighter..
“Something.”
“You think that’s funny?!”
“Yeah.”
“Oh yeah!! Have you called Jungmin?!”
Kyungwon asked suddenly. I guess Floppy’s glares were making her uncomfortable.
“OH!! Right!!”
“Good job, genius. You forgot, huh?”
“Lemme see your phone.”
“5 Minutes.”
“K.”
“How can you even think of calling a guy in front of your boyfriend?!” Floppy gasped.
Oh yeah, I have a boyfriend. I looked over and he didn’t seem to care. He was playing with his lighter. I forced a smile at Floppy and dialed Jungmin’s number.
“Hello ?” (<-- actual English. He’s studying in America)
“Hi.. Jungmin…Me ” .. I suck at English. (actual English)
“Tch.” (<-- He’s also like Floppy)
“I said sorry!”
“Hey, I’m coming to KOREA!!”
“Really?!”
“YEAH YEA!!”
“OMG.. How many years has it been!?”
“2 minutes long distance..” Kyungwon muttered
“Jungmin, I’ll call you later~~”
“K! You better!!”
“BYE BYE !!” (actual English)
... ... ... ...
He’s coming!! He's been one of my best friends ever since I was a kid!!
I wonder how much he’s changed.
“BYE BYE”
Someone mimicked and I was sure that it would be Floppy.. But it was Ji Eunsung..
“What..?” I frowned..
_________________________________________!
Ah, I'm hungry.
sábado, 20 de outubro de 2012
Deniz Cruz: O Livro Amargo
Um
homem chamado Guilherme Miller disse que Jesus voltaria em 1844. Muitas
pessoas acreditaram nele, inclusive um jovem chamado Jerryl McNolan. O
Livro Amargo conta justamente a história de Jerryl.
Apaixonado pela jovem Allice, ele não consegue entender os motivos de os pais dela não lhe permitirem a corte. Apenas depois de conhecer a mensagem milerita, finalmente os pais de Allice permitem o namoro.
No entanto, o jovem casal enfrenta uma amarga decepção. O que era doce torna-se uma dura batalha na vida de Jerryl e Allice. Será que a sua fé poderia resistir a esse acontecimento? Porém, há mais, muito mais, na história deles.
Experimente o suspense e a emoção deste livro. Você também vai descobrir que sempre há o mais pelo que viver.
Apaixonado pela jovem Allice, ele não consegue entender os motivos de os pais dela não lhe permitirem a corte. Apenas depois de conhecer a mensagem milerita, finalmente os pais de Allice permitem o namoro.
No entanto, o jovem casal enfrenta uma amarga decepção. O que era doce torna-se uma dura batalha na vida de Jerryl e Allice. Será que a sua fé poderia resistir a esse acontecimento? Porém, há mais, muito mais, na história deles.
Experimente o suspense e a emoção deste livro. Você também vai descobrir que sempre há o mais pelo que viver.
Capítulo 1 - Olhando Para O Alto
O velho homem olhava para o céu e o seu coração era agraciado com um sentimento reconfortante: a esperança.
Sentado na cadeira de balanço da varanda na rústica casa de madeira sem pintura, ele olhou para o portão, por onde quatro jovens entravam.
- Boa tarde, Sr. Jordan - disse o rapaz de camisa xadrez e calça jeans, que se chamava Sam.
- Boa tarde, amigos - respondeu o homem, alargando um sorriso.
- Vamos, entrem.
- Meu pai mandou batatas - disse uma das moças que acompanhava os jovens.
- Que ótimo! Adoro batatas.- O velho esticou-se, pegou o saco com os tubérculos e o colocou ao seu lado. Olhou para os quatro jovens à sua frente, com estampado ar de inquietude (um olhava para o outro, como se dissessem: " Vamos, fale!", " Não, fale você!"). Como ninguém iria dizer nada, ele mesmo puxou o assunto:
- Mas vocês não vieram trazer apenas as batatas, não é?
- Não senhor! - falou Sam - Viemos pelas histórias.
O homem deu uma grande risada. Recostou-se na cadeira e balançou duas vezes.
- Está bem. Sentem-se.
Os quatro sorriram satisfeitos, olhando uns para os outros. Sam puxou um banco. Vane e Jill assentaram-se no chão com o garoto mais novo, Matheus (este tinha os cabelos vermelhos e o rosto cheio de sardas; as duas moças usavam vestidos de algodão, longos e de um azul bem discreto, comuns nas pequenas cidades daquele início do século 19).
- Jill, coloque as batatas para cozinhar. Será uma longa história; por isso, é bom termos algo para comer mais tarde - falou o homem.
- Eu sei fazer purê - disse Vane.
- Seus pais sabem que vocês poderão demorar aqui? - perguntou o Sr. Jordan.
- Sim - respondeu Sam. - Avisamos que iríamos pedir que o senhor contasse uma história. Se demorarmos, saberão que estamos aqui.
- As batatas estão cozinhando - disse Jill. - Coloquei mais dois pedaços de madeira no fogo, e, por falar nisso, sua lenha cortada está no fim.
- Eu posso cortar a lenha mais tarde, ou amanhã, se o senhor quiser - disse Sam.
- Falaremos disso depois - respondeu o homem. - Mas já adianto que seria de grande ajuda. Podemos começar?
A resposta estava no olhar dos quatro jovens, que se ajeitaram da melhor forma possível. Então, o Sr. Jordan iniciou:
- Um homem chamado Guilherme Miller disse que Jesus voltaria em 1844. Muitas pessoas acreditaram nele, entre elas, um jovem chamado Jerryl McNolan. É a história dele que vou contar para vocês agora...
-----------------------------------------------------------------------------------
Jerry McNolan saiu da ferraria. Olhou para o alto e viu o sol do Verão de 1842. Sentia um calor intenso, pois acabara de sair da frente da fornalha, onde batia uma barra de ferro para seu pai, o Sr. Nolan McNolan.
Enxugou o suor com o punho da camisa e alisou o avental de couro surrado. Por mais quente que fosse a roupa, ela era uma proteção contra o fogo e suas faíscas.
- Ei, filho! - gritou o Sr. Nolan de dentro do galpão da ferraria. - Está com calor hoje? - Deu uma risada com seu gracejo.
- Aqui fora está mais fresco - sorriu o filho. - Quer água? Acho que vou buscar um balde no poço.
- Quero. Aproveite e jogue um na cabeça, para esfriar a cuca. Temos três arados para terminar.
Jerryl encaminhou-se para os fundos. Jogou o balde no poço e o puxou com a manivela de madeira, com seu peculiar e rítmico "clanc, clanc". Bebeu a água fresca em uma caneca de metal, feita pelo próprio pai.
Quando entrou no galpão, viu Nolan parado na grande porta dupla. À frente dele estava um homem bem vestido, que dizia:
- Você me deve um cavalo, McNolan.
Jerryl o reconheceu imediatamente. Era Zachary Brat, um dos burgueses do Condado Novo, no estado de Nova York. Um encrenqueiro com roupas finas e um sobrenome desejado pela maioria das moças das outras famílias.
- Não devo nada para você, Sr. Brat - disse o senhor McNolan enquanto Jerryl se aproximava deles.
- Meu cavalo quebrou uma das patas depois que você colocou ferraduras nele, ferreiro - disse Zachary, com tom arrogante. Arrumou o chapéu fino na cabeça e alisou o bigode sobre um sorriso cínico. - Tive que sacrificar o animal por sua culpa.
- Se seu cavalo quebrou a pata, não foi em razão das ferraduras novas que coloquei.
- Cuidado com o tom, ferreiro. - Ao dizer isto, dois capangas se colocaram ao lado de Zachary e as mãos de ambos se apoiaram no cabo de revólveres que traziam à cintura.
Jerryl repetiu o gesto, ficando ao lado do pai, mas não tinha arma para impor presença maior que os comparsas de Brat.
- Vá para casa, Jerryl - disse Nolan. Mas o filho não obedeceu.
- Pague o que me deve, McNolan, ou vou quebrar uma das suas pernas - ameaçou o burguês.
- Não me venha com ameaças, Sr. Brat - disse o ferreiro com um tom de indignação- , ou levo nosso caso para o xerife Brautigan.
O homem deu um passo em direção a Nolan, ficando a menos de um palmo de seu nariz. Falou com o mesmo tom ameaçador:
- Nada aqui será resolvido na presença do xerife. Vamos fazer da maneira antiga, McNolan. Como homens de verdade.
Como covardes de verdade, pensou Jerryl, olhando para os homens armados, mas preferiu não falar nada, ou iria piorar a cena.
- Seu avô jamais aprovaria isto! - argumentou Nolan.
- Meu falecido avô não tem nada a ver com nossos negócios - disse o burguês apoiando a mão direita no trabalhado cabo de um florete que trazia na cinta. A espada fora feita pelo próprio McNolan e dada de presente a um de seus melhores amigos do Condado Novo, o Sr. Gustaph Brat, o patriarca daquela família. - Trinta dias, ferreiro. Esse é o prazo que eu dou para você me indenizar meu prejuízo. - Ele se virou e saiu para a rua poeirenta do condado, com seus dois homens mal encarados no encalço.
O ferreiro tirou o chapéu surrado e coçou o calvo cocuruto, um gesto que sempre repetia quando estava preocupado com algo. Jerryl bem sabia.
- O que foi isso, pai?
- Maluquice desse homem, Jerryl. Ele culpa minhas ferraduras novas pela queda de seu cavalo e quer que eu o indenize pela perda do animal.
- E o senhor vai pagar?
- E como eu poderia pagar o valor do appaloosa do Brat?
Sem perceber, Jerryl repetiu o gesto nervoso do pai, coçando a própria cabeça.
- Vamos voltar ao trabalho - disse o Sr. McNolan.
O jovem atravessou a bagunçada ferraria, cheia de metais pendurados e peças escoradas por todos os lados. Foi até à fornalha e remexeu numa placa de metal mergulhada na brasa. Com um fole, soprou as brasas que ficaram ainda mais vermelhas. Puxou com um alicate o metal e o colocou sobre a bigorna, modelando sua forma com pancadas de martelo. A cada batida, uma miríade de faíscas cintilava e morria no chão terroso.
O velho homem olhava para o céu e o seu coração era agraciado com um sentimento reconfortante: a esperança.
Sentado na cadeira de balanço da varanda na rústica casa de madeira sem pintura, ele olhou para o portão, por onde quatro jovens entravam.
- Boa tarde, Sr. Jordan - disse o rapaz de camisa xadrez e calça jeans, que se chamava Sam.
- Boa tarde, amigos - respondeu o homem, alargando um sorriso.
- Vamos, entrem.
- Meu pai mandou batatas - disse uma das moças que acompanhava os jovens.
- Que ótimo! Adoro batatas.- O velho esticou-se, pegou o saco com os tubérculos e o colocou ao seu lado. Olhou para os quatro jovens à sua frente, com estampado ar de inquietude (um olhava para o outro, como se dissessem: " Vamos, fale!", " Não, fale você!"). Como ninguém iria dizer nada, ele mesmo puxou o assunto:
- Mas vocês não vieram trazer apenas as batatas, não é?
- Não senhor! - falou Sam - Viemos pelas histórias.
O homem deu uma grande risada. Recostou-se na cadeira e balançou duas vezes.
- Está bem. Sentem-se.
Os quatro sorriram satisfeitos, olhando uns para os outros. Sam puxou um banco. Vane e Jill assentaram-se no chão com o garoto mais novo, Matheus (este tinha os cabelos vermelhos e o rosto cheio de sardas; as duas moças usavam vestidos de algodão, longos e de um azul bem discreto, comuns nas pequenas cidades daquele início do século 19).
- Jill, coloque as batatas para cozinhar. Será uma longa história; por isso, é bom termos algo para comer mais tarde - falou o homem.
- Eu sei fazer purê - disse Vane.
- Seus pais sabem que vocês poderão demorar aqui? - perguntou o Sr. Jordan.
- Sim - respondeu Sam. - Avisamos que iríamos pedir que o senhor contasse uma história. Se demorarmos, saberão que estamos aqui.
- As batatas estão cozinhando - disse Jill. - Coloquei mais dois pedaços de madeira no fogo, e, por falar nisso, sua lenha cortada está no fim.
- Eu posso cortar a lenha mais tarde, ou amanhã, se o senhor quiser - disse Sam.
- Falaremos disso depois - respondeu o homem. - Mas já adianto que seria de grande ajuda. Podemos começar?
A resposta estava no olhar dos quatro jovens, que se ajeitaram da melhor forma possível. Então, o Sr. Jordan iniciou:
- Um homem chamado Guilherme Miller disse que Jesus voltaria em 1844. Muitas pessoas acreditaram nele, entre elas, um jovem chamado Jerryl McNolan. É a história dele que vou contar para vocês agora...
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Jerry McNolan saiu da ferraria. Olhou para o alto e viu o sol do Verão de 1842. Sentia um calor intenso, pois acabara de sair da frente da fornalha, onde batia uma barra de ferro para seu pai, o Sr. Nolan McNolan.
Enxugou o suor com o punho da camisa e alisou o avental de couro surrado. Por mais quente que fosse a roupa, ela era uma proteção contra o fogo e suas faíscas.
- Ei, filho! - gritou o Sr. Nolan de dentro do galpão da ferraria. - Está com calor hoje? - Deu uma risada com seu gracejo.
- Aqui fora está mais fresco - sorriu o filho. - Quer água? Acho que vou buscar um balde no poço.
- Quero. Aproveite e jogue um na cabeça, para esfriar a cuca. Temos três arados para terminar.
Jerryl encaminhou-se para os fundos. Jogou o balde no poço e o puxou com a manivela de madeira, com seu peculiar e rítmico "clanc, clanc". Bebeu a água fresca em uma caneca de metal, feita pelo próprio pai.
Quando entrou no galpão, viu Nolan parado na grande porta dupla. À frente dele estava um homem bem vestido, que dizia:
- Você me deve um cavalo, McNolan.
Jerryl o reconheceu imediatamente. Era Zachary Brat, um dos burgueses do Condado Novo, no estado de Nova York. Um encrenqueiro com roupas finas e um sobrenome desejado pela maioria das moças das outras famílias.
- Não devo nada para você, Sr. Brat - disse o senhor McNolan enquanto Jerryl se aproximava deles.
- Meu cavalo quebrou uma das patas depois que você colocou ferraduras nele, ferreiro - disse Zachary, com tom arrogante. Arrumou o chapéu fino na cabeça e alisou o bigode sobre um sorriso cínico. - Tive que sacrificar o animal por sua culpa.
- Se seu cavalo quebrou a pata, não foi em razão das ferraduras novas que coloquei.
- Cuidado com o tom, ferreiro. - Ao dizer isto, dois capangas se colocaram ao lado de Zachary e as mãos de ambos se apoiaram no cabo de revólveres que traziam à cintura.
Jerryl repetiu o gesto, ficando ao lado do pai, mas não tinha arma para impor presença maior que os comparsas de Brat.
- Vá para casa, Jerryl - disse Nolan. Mas o filho não obedeceu.
- Pague o que me deve, McNolan, ou vou quebrar uma das suas pernas - ameaçou o burguês.
- Não me venha com ameaças, Sr. Brat - disse o ferreiro com um tom de indignação- , ou levo nosso caso para o xerife Brautigan.
O homem deu um passo em direção a Nolan, ficando a menos de um palmo de seu nariz. Falou com o mesmo tom ameaçador:
- Nada aqui será resolvido na presença do xerife. Vamos fazer da maneira antiga, McNolan. Como homens de verdade.
Como covardes de verdade, pensou Jerryl, olhando para os homens armados, mas preferiu não falar nada, ou iria piorar a cena.
- Seu avô jamais aprovaria isto! - argumentou Nolan.
- Meu falecido avô não tem nada a ver com nossos negócios - disse o burguês apoiando a mão direita no trabalhado cabo de um florete que trazia na cinta. A espada fora feita pelo próprio McNolan e dada de presente a um de seus melhores amigos do Condado Novo, o Sr. Gustaph Brat, o patriarca daquela família. - Trinta dias, ferreiro. Esse é o prazo que eu dou para você me indenizar meu prejuízo. - Ele se virou e saiu para a rua poeirenta do condado, com seus dois homens mal encarados no encalço.
O ferreiro tirou o chapéu surrado e coçou o calvo cocuruto, um gesto que sempre repetia quando estava preocupado com algo. Jerryl bem sabia.
- O que foi isso, pai?
- Maluquice desse homem, Jerryl. Ele culpa minhas ferraduras novas pela queda de seu cavalo e quer que eu o indenize pela perda do animal.
- E o senhor vai pagar?
- E como eu poderia pagar o valor do appaloosa do Brat?
Sem perceber, Jerryl repetiu o gesto nervoso do pai, coçando a própria cabeça.
- Vamos voltar ao trabalho - disse o Sr. McNolan.
O jovem atravessou a bagunçada ferraria, cheia de metais pendurados e peças escoradas por todos os lados. Foi até à fornalha e remexeu numa placa de metal mergulhada na brasa. Com um fole, soprou as brasas que ficaram ainda mais vermelhas. Puxou com um alicate o metal e o colocou sobre a bigorna, modelando sua forma com pancadas de martelo. A cada batida, uma miríade de faíscas cintilava e morria no chão terroso.
Appaloosa é uma raça de cavalo também conhecida como cavalo-pintado.
Capítulo 2 - O Viajante
No dia seguinte, a pedido da mãe, Jerryl foi até o armazém do Sr. Fearnot comprar alguns mantimentos. A meio caminho de seu destino, o jovem viu um garoto em frente a um outro armazém que vendia guloseimas.
- Joe! - chamou ele. O menino respondeu com um imenso sorriso.
- Jerryl! - disse o garoto depois de atravessar a rua. - Tudo bem com você?
-Sim. Estou ótimo! - disse Jerryl, mas olhava por sobre os ombros de Joe, como se procurasse mais alguma coisa. - Você está sozinho?
- Não. Vim com meu pai e com minhas irmã. Olhe! - ele tirou do bolso uma pequena faca, com cabo metálico. - Eu a trouxe comigo. Tem sido muito útil.
Jerryl pegou a faca na mão e conferiu o fio, vendo que estava bem afiada.
- É otima para descascar frutas e realizar outras tarefas emergenciais na fazenda - disse Joe.
Um mês antes, o jovem ferreiro, aproveitando a visita do pai daquele garoto na ferraria para fazer a encomenda de um arado, o presenteou com uma faca ( ferramenta muito útil para uma pessoa da área rural). A partir daí, Joe o considerava um grande amigo.
- E não é melhor você estar junto de seu pai? - disse Jerryl, sem tentar mostrar muito interesse.
- Ele está no armazém do Sr. Fearnot - disse o garoto. - Já estou indo lá.
Jerryl estremeceu e começou a caminhar ao lado de Joe, conversando aleatoriamente até chegarem à venda. Subiram os três degraus de madeira e atravessaram a portinhola.
Duas pessoas estavam sendo atendidas no balcão de madeira amarronzada pela poeira e outras duas andavam por entre rústicas prateleiras. Os cheiros do ambiente se misturavam, mas o aroma de carnes ressecadas e defumadas predominava.
Entre uma das prateleiras, Jerryl viu uma moça com vestido longo e discreto, num tom pérola, olhando uma peça de tecido. Era Allice, irmã de Joe. A pele branca combinava perfeitamente com o tom loiro de seus cabelos lisos.
- Oi, Allice - disse ele aproximando-se e tentando controlar o descompasso emocional ao ver a garota.
- Oi Jerryl - respondeu ela com um sorriso. Joe se aproximou, alternando o olhar entre os dois. - Eu vi a faca que você fez para meu irmão. Ele gostou muito.
- Eu...eu... - gaguejou McNolan. - Eu fiz algo para você também. Ele enfiou a mão no bolso interno do paletó surrado. Mas, antes de tirar, o Sr. Gerald Norton gritou do outro lado do armazém:
- Allice!? Já encontrou o que procurava?
- Não, pai - respondeu a moça, afastando-se, inconscientemente, um passo de Jerryl.
- Então deixe para outra vez - gritou o homem num tom severo, batendo impacientemente a ponta da botina negra ao ver que a filha não foi até ele. Entendendo o gesto, Allice abaixou a cabeça, pegou Joe pela mão e saiu pela porta. O menino disse apenas: - Tchau, Jerryl!
- Sr. Norton - chamou o jovem ferreiro quando o homem também se virou para ir embora.
Gerald parou sob o umbral da porta. Jerryl se aproximou e disse:
- Acho que o senhor me conhece, sou...
- O filho de McNolan, o ferreiro. Sim, eu o conheço.
- Senhor, caso não se importe, eu gostaria de ir até sua fazenda para...
- Não quero você na minha fazenda - interrompeu Norton, secamente.
- Mas...
- Olha garoto, sei muito bem quais são suas intenções. Saiba que não estamos procurando um namorado para nossa Allice. Não aprovo sua corte e não me faça ser mais claro do que isto. - Ele se virou sem dar oportunidade para qualquer outra palavra.
Jerryl ficou ali, engasgado com o complexo conjunto de argumentos previamente ensaiados. " Sou de uma família conhecida na cidade", " já tenho uma profissão e minhas próprias ferramentas para exercê-la", "frequentamos a mesma igreja aos domingos", e aí por diante.
Recostou-se no balcão e empurrou a lista de compra para o Sr. Fearnot, que a pegou com sua carranca mal-humorada de sempre.
- Não se preocupe com essas coisas pequenas, garoto - disse um homem de barba branca e espessa recostando-se ao seu lado. - Jesus vai voltar muito em breve.
O olhar que Jerryl direcionou para o homem foi de franca surpresa. Não pela frase que ele usou, mas por ter visto e compreendido toda a cena que se desenrolou entre ele e o Sr. Norton. Outras pessoas também perceberam?, pensou o jovem.
- Lá vem você, Ted, com essa história de Jesus voltando - disse Fearnot, colocando uma pilha de sacos no balcão.
- Você acredita na Bíblia, Fearnot? - perguntou Ted.
- Claro, sou metodista, como você.
- Então, meu caro. A Bíblia diz que Jesus vai voltar até 21 de março de 1844.
- Onde está escrito isso, Ted? - desafiou o dono do armazém.
- Não está escrito em nenhum lugar, velho maluco. Tem que interpretar.
- Maluco é você - disse Fearnot, fazendo um gesto com a mão. Parecia que estava espantando uma mosca, e voltou para pegar outros itens da lista dos McNolan.
- Como é isso? - interessou-se Jerryl.
- Já ouviu falar de Guilherme Miller?
- Acho que sim.
- Eu o conheci, há uns dez anos, num barco, enquanto viajava pelo rio Hudson - disse Ted. - Quer ouvir minha história?
Jerryl olhou para o dono do armazém e viu que demoraria um pouco para completar a lista. Meneou afirmativamente a cabeça e Ted começou:
- Bem, garoto, sou um viajante. Ando por aí vendendo minhas tralhas desde que me entendo por gente. Em 1833, eu estava num barco, viajando pelo rio Hudson. Eu discutia com outros viajantes sobre os avanços que vemos ultimamente. Essas maravilhas todas, você sabe bem: luzes de gás, máquinas de extrair caroços de algodão, comidas em latas, fotografia, colheitadeiras, trens a vapor, essas coisas. O próprio barco em que estávamos era a vapor, soltando sua fumaça negra sobre nossas cabeças e deslizando numa velocidade sem igual. Num certo momento da conversa, um dos homens chegou a dizer que as coisas não podiam continuar daquele jeito, ou em trinta anos o homem se tornaria mais que humano.
Ted fez uma pausa e continuou:
- Nesse momento, outro homem se aproximou de nós. Disse que seu nome era Guilherme Miller e citou com suas palavras Daniel 12:4: " Nos últimos dias, muitos correrão de um lado para o outro e a ciência se multiplicará." Achamos interessante a visão daquele homem e esperamos que ele continuasse a falar. E continuou. Miller começou a contar sobre as profecias do livro de Daniel, exatamente nos capítulos 11 e 12, dando uma síntese sobre a história do mundo. Ficamos todos boquiabertos com o que ele falava, até que finalmente ele se desculpou, dizendo que não queria ter tomado tanto do nosso tempo. Na verdade, nem notamos que havia passado tanto tempo assim. Durante a viagem, continuamos no encalço dele e ouvimos coisas interessantíssimas sobre o livro de Daniel, incluindo uma profecia sobre 2.300 tardes e manhãs que, segundo Miller, prediz o retorno de Jesus para muito em breve, aproximadamente em 1843.*
- E como é essa profecia? - perguntou Jerryl.
- Ah, garoto. Eu tinha alguns panfletos que, na época, peguei com Miller. Também achei outros impressos por aí, falando do assunto, mas já distribuí tudo.
- É tudo balela - disse Fearnot. - Esses mileritas são todos uns desocupados. Estão é torcendo para que o mundo acabe. Sinceramente, espero que não apareçam aqui na nossa cidade com essa história.
- Lamento desapontá-lo - disse Ted com um sorriso. - Mas o pastor Anatoli convidou um pregador milerita para explicar a tese das 2.300 tardes e manhãs, na sua congregação, meu caro amigo.
Fearnot soltou os sacos sobre o balcão com violência. Fechou ainda mais a carranca e voltou para outra seção de produtos.
* Dados extraídos de C. Mervyn Maxwell, História do Adventíssimo ( Santo André, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1982), p. 22, 23.
Capítulo 3 - A Rosa
Jerryl voltou para casa pensando tanto na postura do Sr.Norton em não permitir sua aproximação de Allice quanto nas palavras de Ted.
Andava pelas ruas do Condado Novo puxando uma carrocinha cheia de provisões para o mês e, quando chegou a casa, situada mais aos fundos da ferraria,
na extremidade norte da pequena vila, ajudou a mãe, Sra. Marta, a descarregar e guardar a compra.
- Está preocupado com alguma coisa, jerryl? - perguntou a mãe, motando a expressão do filho.
O jovem sorriu desconcertado, pois não esperava deixar marcada nas feições sua atual condição.
- Ainda não sei se é algo para preocupação - disse ele, evasivo. - Mas prometo que contarei se realmente merecer atenção.
Nesse momento, chegaram à despensa os dois irmãos mais novos, Ralph e Palmer, evitando a continuidade da cena.
- Trouxe doces? - perguntou Palmer do vão da porta.
- Não! - respondeu Marta. - Seu pai mandou que comprasse na mercearia do Sr. Fearnot.
- Se ele vendesse doces, tenho certeza de que teria uma cara menos amarga - resmungou Ralph, enquanto Jerryl lhe despenteava o cabelo.
- Papai vai me dar uma parte dos lucros de algumas ferramentas que fiz. Prometo levar vocês na Azul Celeste e comprar balas - disse Jerryl.
A resposta veio num sonoro "Ebaaaa!" dos irmãos, que foi ouvido lá dentro da ferraria onde, logo depois, o jovem McNolan entrou para começar suas atividades de ajudante.
- Por favor, aqueça a fornalha, Jerryl! - gritou Nolan, carregando algumas peças de metal.
O filho obedeceu imediatamente, indo para a boca incandescente do grande forno. Jogou madeira dentro dele e, com o fole, o abrasou ainda mais. Alguns minutos depois, a fornalha estava no ponto.
- Tudo certo com Fearnot? - perguntou o pai, parando ao lado de Jerryl e assistindo a revitalização do fogo.
- Sim. Ele tinha tudo da lista, mas os meninos reclamaram por eu não ter trazido doce.
Ambos riram e ficaram em silêncio, ouvindo o estalar da madeira queimando.
- Pai, o senhor tem alguma inimizade com o Sr. Norton? - perguntou Jerryl, quebrando o silêncio.
- Não. Pelo contrário, sempre nos demos muito bem. Já fiz muito serviço para ele, em troca de boa madeira que sua fazenda nos fornece. Mas, por que a pergunta?
- Coisa boba, acho - disse o jovem encabulado. - Creio que ele não gostou de eu estar conversando com a filha dele, a Allice.
- Ah, Jerry, você está querendo cortejá-la? - perguntou Nolan. A resposta foi apenas o coçar de cabeça do filho. O homem riu e deu um tapa no ombro do garoto. - Às vezes, esqueço que meu pequeno McNolan já é um homem. Venha, vamos nos afastar da fornalha. Não precisamos ficar aqui queimando os pelos se não estivermos trabalhando nela.
Foram para o outro lado do galpão e, enquanto Jerryl vestia o avental de couro, Nolan serviu-se de um copo de água. Então, disse:
- Gerald tem uma superprotecção com essa filha. Foi sempre assim e já teve épocas de ficarmos meses sem vê-la na cidade ou na igreja do condado.
- E o senhor sabe o motivo?
- Não exatamente. Mas há boatos a respeito. Dizem que ela é dedicada a Deus, com voto de castidade. Se este for o caso, não poderá se casar; portanto, pode desistir da corte.
Mais uma vez, Jerryl repetiu o gesto de preocupação e o pai emendou dizendo:
- Agora vamos ao trabalho. Temos encomendas para terminar.
E voltaram à lida.
Jerryl ficou os dias seguintes cuidando do movimento da rua, esperando ver alguém da família Norton na cidade. Nenhum deles passou por ali.
No domingo, logo que a noite caiu, os McNolan arrumaram-se com as melhores roupas e foram caminhando juntos para a Igreja Metodista, situada no centro do condado.
Havia um considerável movimento de pessoas chegando, a pé, a cavalo ou famílias inteiras em charretes. Entravam no pátio da igreja, cercada com balaústres pintados em branco. A própria igreja, toda de madeira, era branca, e, sobre o hall de entrada, havia uma pequena tirre da qual pendia um sino e sobre a qual havia uma cruz.
Os moradores da cidade e das fazendas ao redor vinham para assistir ao culto de domingo.
Quando Jerryl estava para entrar, Joe o puxou pelo braço e o conduziu para a lateral da igreja.
- Tenho um recado da minha irmã - disse o garoto, num tom baixinho. - Ela pediu que eu perguntasse o que você fabricou para ela.
De imediato, Jerryl se lembrou de que, no armazém do Sr. Fearnot, tentou entregar o presente para Allice, mas o Sr. Norton o interrompeu. Colocou a mão dentro do paletó enquanto pensava se queria entregar o objecto para Joe ou preferia fazê-lo pessoalmente. Na verdade, ensaiou uma série de vezes a cena; a maioria delas era encerrada, em seus sonhos, com um beijo de agradecimento da amada.
Porém, ele não contava com a oposição do Sr. Norton. E, se de fato queria entregar o objecto, teria que usar o pequeno mensageiro à sua frente.
- É isto - disse Jerryl, tirando do bolso uma rosa com haste, uma folha e pétalas de metal prateado e polido. - Eu mesmo fiz.
- Uau! - exclamou Joe, olhando para o objecto que media cerca de um palmo - É perfeita. Vou levar para ela.
- Espere, Joe - disse McNolan, segurando o garoto pelo ombro assim que ele se virou. - Por que seu pai não gostou quando me viu falando com Allice?
O menino não respondeu e apenas abaixou a cabeça.
- Ela não pode ser cortejada? - insistiu Jerryl.
- Não tenho permissão para falar sobre esse assunto - disse Joe, sem levantar o rosto.
Por um momento Jerryl ficou olhando para o garoto à sua frente. Achava que tinha mais ou menos a idade de Joe quando se apaixonou pela menina Allice. Conversou pucas vezes com sua amada, mas foi suficiente para aumentar ainda mais o que sentia. Seu sonho adolescente se tornou, com o tempo, a determinação de um homem. Mas agora tinha essa novidade. A proibição em cortejar a moça poderia destruir todos os seus planos de um futuro em comum.
- Não tem problema, amiguinho - disse Jerryl, colocando a mão sobre o ombro do garoto. - Apenas entregue a rosa para Allice e você já estará fazendo o que está ao seu alcance.
Joe levantou o semblante com um sorriso encabulado. Virou-se, entrou na igreja e foi logo seguido pelo amigo ferreiro.
Como estava sentado nos últimos bancos, Jerryl pôde ver quando o menino entregou furtivamente o artesanato para a irmã. Sorriu, quando viu o fino traço dos lábios alegres de Allice; porém, o que ele queria contemplar eram os olhos azuis da jovem.
- Boa-noite, irmãos! - disse o pastor Anatoli, assumindo o púlpito e dando início à liturgia metodista.
Os membros daquela igreja cantaram e depois oraram juntos. Em seguida, o pastor apresentou o pregador:
- Este é o pastor Ulric. Ele irá nos esclarecer melhor o que temos lido em panfletos e revistas assinadas por Guilherme Miller, sobre a breve vinda de Jesus.
Ulric, um sujeito magro e de sorriso carismático, que trajava um terno cinza e discreta camisa branca, adornada com uma gravata no mesmo tom do terno, levantou-se, cumprimentou a todos e deu início à mensagem:
- Até o dia 21 de março de 1844, Jesus voltará para buscar Seus fiéis neste planeta. É o que a Bíblia diz e eu vou mostrar para vocês nesta noite.
No dia seguinte, a pedido da mãe, Jerryl foi até o armazém do Sr. Fearnot comprar alguns mantimentos. A meio caminho de seu destino, o jovem viu um garoto em frente a um outro armazém que vendia guloseimas.
- Joe! - chamou ele. O menino respondeu com um imenso sorriso.
- Jerryl! - disse o garoto depois de atravessar a rua. - Tudo bem com você?
-Sim. Estou ótimo! - disse Jerryl, mas olhava por sobre os ombros de Joe, como se procurasse mais alguma coisa. - Você está sozinho?
- Não. Vim com meu pai e com minhas irmã. Olhe! - ele tirou do bolso uma pequena faca, com cabo metálico. - Eu a trouxe comigo. Tem sido muito útil.
Jerryl pegou a faca na mão e conferiu o fio, vendo que estava bem afiada.
- É otima para descascar frutas e realizar outras tarefas emergenciais na fazenda - disse Joe.
Um mês antes, o jovem ferreiro, aproveitando a visita do pai daquele garoto na ferraria para fazer a encomenda de um arado, o presenteou com uma faca ( ferramenta muito útil para uma pessoa da área rural). A partir daí, Joe o considerava um grande amigo.
- E não é melhor você estar junto de seu pai? - disse Jerryl, sem tentar mostrar muito interesse.
- Ele está no armazém do Sr. Fearnot - disse o garoto. - Já estou indo lá.
Jerryl estremeceu e começou a caminhar ao lado de Joe, conversando aleatoriamente até chegarem à venda. Subiram os três degraus de madeira e atravessaram a portinhola.
Duas pessoas estavam sendo atendidas no balcão de madeira amarronzada pela poeira e outras duas andavam por entre rústicas prateleiras. Os cheiros do ambiente se misturavam, mas o aroma de carnes ressecadas e defumadas predominava.
Entre uma das prateleiras, Jerryl viu uma moça com vestido longo e discreto, num tom pérola, olhando uma peça de tecido. Era Allice, irmã de Joe. A pele branca combinava perfeitamente com o tom loiro de seus cabelos lisos.
- Oi, Allice - disse ele aproximando-se e tentando controlar o descompasso emocional ao ver a garota.
- Oi Jerryl - respondeu ela com um sorriso. Joe se aproximou, alternando o olhar entre os dois. - Eu vi a faca que você fez para meu irmão. Ele gostou muito.
- Eu...eu... - gaguejou McNolan. - Eu fiz algo para você também. Ele enfiou a mão no bolso interno do paletó surrado. Mas, antes de tirar, o Sr. Gerald Norton gritou do outro lado do armazém:
- Allice!? Já encontrou o que procurava?
- Não, pai - respondeu a moça, afastando-se, inconscientemente, um passo de Jerryl.
- Então deixe para outra vez - gritou o homem num tom severo, batendo impacientemente a ponta da botina negra ao ver que a filha não foi até ele. Entendendo o gesto, Allice abaixou a cabeça, pegou Joe pela mão e saiu pela porta. O menino disse apenas: - Tchau, Jerryl!
- Sr. Norton - chamou o jovem ferreiro quando o homem também se virou para ir embora.
Gerald parou sob o umbral da porta. Jerryl se aproximou e disse:
- Acho que o senhor me conhece, sou...
- O filho de McNolan, o ferreiro. Sim, eu o conheço.
- Senhor, caso não se importe, eu gostaria de ir até sua fazenda para...
- Não quero você na minha fazenda - interrompeu Norton, secamente.
- Mas...
- Olha garoto, sei muito bem quais são suas intenções. Saiba que não estamos procurando um namorado para nossa Allice. Não aprovo sua corte e não me faça ser mais claro do que isto. - Ele se virou sem dar oportunidade para qualquer outra palavra.
Jerryl ficou ali, engasgado com o complexo conjunto de argumentos previamente ensaiados. " Sou de uma família conhecida na cidade", " já tenho uma profissão e minhas próprias ferramentas para exercê-la", "frequentamos a mesma igreja aos domingos", e aí por diante.
Recostou-se no balcão e empurrou a lista de compra para o Sr. Fearnot, que a pegou com sua carranca mal-humorada de sempre.
- Não se preocupe com essas coisas pequenas, garoto - disse um homem de barba branca e espessa recostando-se ao seu lado. - Jesus vai voltar muito em breve.
O olhar que Jerryl direcionou para o homem foi de franca surpresa. Não pela frase que ele usou, mas por ter visto e compreendido toda a cena que se desenrolou entre ele e o Sr. Norton. Outras pessoas também perceberam?, pensou o jovem.
- Lá vem você, Ted, com essa história de Jesus voltando - disse Fearnot, colocando uma pilha de sacos no balcão.
- Você acredita na Bíblia, Fearnot? - perguntou Ted.
- Claro, sou metodista, como você.
- Então, meu caro. A Bíblia diz que Jesus vai voltar até 21 de março de 1844.
- Onde está escrito isso, Ted? - desafiou o dono do armazém.
- Não está escrito em nenhum lugar, velho maluco. Tem que interpretar.
- Maluco é você - disse Fearnot, fazendo um gesto com a mão. Parecia que estava espantando uma mosca, e voltou para pegar outros itens da lista dos McNolan.
- Como é isso? - interessou-se Jerryl.
- Já ouviu falar de Guilherme Miller?
- Acho que sim.
- Eu o conheci, há uns dez anos, num barco, enquanto viajava pelo rio Hudson - disse Ted. - Quer ouvir minha história?
Jerryl olhou para o dono do armazém e viu que demoraria um pouco para completar a lista. Meneou afirmativamente a cabeça e Ted começou:
- Bem, garoto, sou um viajante. Ando por aí vendendo minhas tralhas desde que me entendo por gente. Em 1833, eu estava num barco, viajando pelo rio Hudson. Eu discutia com outros viajantes sobre os avanços que vemos ultimamente. Essas maravilhas todas, você sabe bem: luzes de gás, máquinas de extrair caroços de algodão, comidas em latas, fotografia, colheitadeiras, trens a vapor, essas coisas. O próprio barco em que estávamos era a vapor, soltando sua fumaça negra sobre nossas cabeças e deslizando numa velocidade sem igual. Num certo momento da conversa, um dos homens chegou a dizer que as coisas não podiam continuar daquele jeito, ou em trinta anos o homem se tornaria mais que humano.
Ted fez uma pausa e continuou:
- Nesse momento, outro homem se aproximou de nós. Disse que seu nome era Guilherme Miller e citou com suas palavras Daniel 12:4: " Nos últimos dias, muitos correrão de um lado para o outro e a ciência se multiplicará." Achamos interessante a visão daquele homem e esperamos que ele continuasse a falar. E continuou. Miller começou a contar sobre as profecias do livro de Daniel, exatamente nos capítulos 11 e 12, dando uma síntese sobre a história do mundo. Ficamos todos boquiabertos com o que ele falava, até que finalmente ele se desculpou, dizendo que não queria ter tomado tanto do nosso tempo. Na verdade, nem notamos que havia passado tanto tempo assim. Durante a viagem, continuamos no encalço dele e ouvimos coisas interessantíssimas sobre o livro de Daniel, incluindo uma profecia sobre 2.300 tardes e manhãs que, segundo Miller, prediz o retorno de Jesus para muito em breve, aproximadamente em 1843.*
- E como é essa profecia? - perguntou Jerryl.
- Ah, garoto. Eu tinha alguns panfletos que, na época, peguei com Miller. Também achei outros impressos por aí, falando do assunto, mas já distribuí tudo.
- É tudo balela - disse Fearnot. - Esses mileritas são todos uns desocupados. Estão é torcendo para que o mundo acabe. Sinceramente, espero que não apareçam aqui na nossa cidade com essa história.
- Lamento desapontá-lo - disse Ted com um sorriso. - Mas o pastor Anatoli convidou um pregador milerita para explicar a tese das 2.300 tardes e manhãs, na sua congregação, meu caro amigo.
Fearnot soltou os sacos sobre o balcão com violência. Fechou ainda mais a carranca e voltou para outra seção de produtos.
* Dados extraídos de C. Mervyn Maxwell, História do Adventíssimo ( Santo André, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1982), p. 22, 23.
Capítulo 3 - A Rosa
Jerryl voltou para casa pensando tanto na postura do Sr.Norton em não permitir sua aproximação de Allice quanto nas palavras de Ted.
Andava pelas ruas do Condado Novo puxando uma carrocinha cheia de provisões para o mês e, quando chegou a casa, situada mais aos fundos da ferraria,
na extremidade norte da pequena vila, ajudou a mãe, Sra. Marta, a descarregar e guardar a compra.
- Está preocupado com alguma coisa, jerryl? - perguntou a mãe, motando a expressão do filho.
O jovem sorriu desconcertado, pois não esperava deixar marcada nas feições sua atual condição.
- Ainda não sei se é algo para preocupação - disse ele, evasivo. - Mas prometo que contarei se realmente merecer atenção.
Nesse momento, chegaram à despensa os dois irmãos mais novos, Ralph e Palmer, evitando a continuidade da cena.
- Trouxe doces? - perguntou Palmer do vão da porta.
- Não! - respondeu Marta. - Seu pai mandou que comprasse na mercearia do Sr. Fearnot.
- Se ele vendesse doces, tenho certeza de que teria uma cara menos amarga - resmungou Ralph, enquanto Jerryl lhe despenteava o cabelo.
- Papai vai me dar uma parte dos lucros de algumas ferramentas que fiz. Prometo levar vocês na Azul Celeste e comprar balas - disse Jerryl.
A resposta veio num sonoro "Ebaaaa!" dos irmãos, que foi ouvido lá dentro da ferraria onde, logo depois, o jovem McNolan entrou para começar suas atividades de ajudante.
- Por favor, aqueça a fornalha, Jerryl! - gritou Nolan, carregando algumas peças de metal.
O filho obedeceu imediatamente, indo para a boca incandescente do grande forno. Jogou madeira dentro dele e, com o fole, o abrasou ainda mais. Alguns minutos depois, a fornalha estava no ponto.
- Tudo certo com Fearnot? - perguntou o pai, parando ao lado de Jerryl e assistindo a revitalização do fogo.
- Sim. Ele tinha tudo da lista, mas os meninos reclamaram por eu não ter trazido doce.
Ambos riram e ficaram em silêncio, ouvindo o estalar da madeira queimando.
- Pai, o senhor tem alguma inimizade com o Sr. Norton? - perguntou Jerryl, quebrando o silêncio.
- Não. Pelo contrário, sempre nos demos muito bem. Já fiz muito serviço para ele, em troca de boa madeira que sua fazenda nos fornece. Mas, por que a pergunta?
- Coisa boba, acho - disse o jovem encabulado. - Creio que ele não gostou de eu estar conversando com a filha dele, a Allice.
- Ah, Jerry, você está querendo cortejá-la? - perguntou Nolan. A resposta foi apenas o coçar de cabeça do filho. O homem riu e deu um tapa no ombro do garoto. - Às vezes, esqueço que meu pequeno McNolan já é um homem. Venha, vamos nos afastar da fornalha. Não precisamos ficar aqui queimando os pelos se não estivermos trabalhando nela.
Foram para o outro lado do galpão e, enquanto Jerryl vestia o avental de couro, Nolan serviu-se de um copo de água. Então, disse:
- Gerald tem uma superprotecção com essa filha. Foi sempre assim e já teve épocas de ficarmos meses sem vê-la na cidade ou na igreja do condado.
- E o senhor sabe o motivo?
- Não exatamente. Mas há boatos a respeito. Dizem que ela é dedicada a Deus, com voto de castidade. Se este for o caso, não poderá se casar; portanto, pode desistir da corte.
Mais uma vez, Jerryl repetiu o gesto de preocupação e o pai emendou dizendo:
- Agora vamos ao trabalho. Temos encomendas para terminar.
E voltaram à lida.
Jerryl ficou os dias seguintes cuidando do movimento da rua, esperando ver alguém da família Norton na cidade. Nenhum deles passou por ali.
No domingo, logo que a noite caiu, os McNolan arrumaram-se com as melhores roupas e foram caminhando juntos para a Igreja Metodista, situada no centro do condado.
Havia um considerável movimento de pessoas chegando, a pé, a cavalo ou famílias inteiras em charretes. Entravam no pátio da igreja, cercada com balaústres pintados em branco. A própria igreja, toda de madeira, era branca, e, sobre o hall de entrada, havia uma pequena tirre da qual pendia um sino e sobre a qual havia uma cruz.
Os moradores da cidade e das fazendas ao redor vinham para assistir ao culto de domingo.
Quando Jerryl estava para entrar, Joe o puxou pelo braço e o conduziu para a lateral da igreja.
- Tenho um recado da minha irmã - disse o garoto, num tom baixinho. - Ela pediu que eu perguntasse o que você fabricou para ela.
De imediato, Jerryl se lembrou de que, no armazém do Sr. Fearnot, tentou entregar o presente para Allice, mas o Sr. Norton o interrompeu. Colocou a mão dentro do paletó enquanto pensava se queria entregar o objecto para Joe ou preferia fazê-lo pessoalmente. Na verdade, ensaiou uma série de vezes a cena; a maioria delas era encerrada, em seus sonhos, com um beijo de agradecimento da amada.
Porém, ele não contava com a oposição do Sr. Norton. E, se de fato queria entregar o objecto, teria que usar o pequeno mensageiro à sua frente.
- É isto - disse Jerryl, tirando do bolso uma rosa com haste, uma folha e pétalas de metal prateado e polido. - Eu mesmo fiz.
- Uau! - exclamou Joe, olhando para o objecto que media cerca de um palmo - É perfeita. Vou levar para ela.
- Espere, Joe - disse McNolan, segurando o garoto pelo ombro assim que ele se virou. - Por que seu pai não gostou quando me viu falando com Allice?
O menino não respondeu e apenas abaixou a cabeça.
- Ela não pode ser cortejada? - insistiu Jerryl.
- Não tenho permissão para falar sobre esse assunto - disse Joe, sem levantar o rosto.
Por um momento Jerryl ficou olhando para o garoto à sua frente. Achava que tinha mais ou menos a idade de Joe quando se apaixonou pela menina Allice. Conversou pucas vezes com sua amada, mas foi suficiente para aumentar ainda mais o que sentia. Seu sonho adolescente se tornou, com o tempo, a determinação de um homem. Mas agora tinha essa novidade. A proibição em cortejar a moça poderia destruir todos os seus planos de um futuro em comum.
- Não tem problema, amiguinho - disse Jerryl, colocando a mão sobre o ombro do garoto. - Apenas entregue a rosa para Allice e você já estará fazendo o que está ao seu alcance.
Joe levantou o semblante com um sorriso encabulado. Virou-se, entrou na igreja e foi logo seguido pelo amigo ferreiro.
Como estava sentado nos últimos bancos, Jerryl pôde ver quando o menino entregou furtivamente o artesanato para a irmã. Sorriu, quando viu o fino traço dos lábios alegres de Allice; porém, o que ele queria contemplar eram os olhos azuis da jovem.
- Boa-noite, irmãos! - disse o pastor Anatoli, assumindo o púlpito e dando início à liturgia metodista.
Os membros daquela igreja cantaram e depois oraram juntos. Em seguida, o pastor apresentou o pregador:
- Este é o pastor Ulric. Ele irá nos esclarecer melhor o que temos lido em panfletos e revistas assinadas por Guilherme Miller, sobre a breve vinda de Jesus.
Ulric, um sujeito magro e de sorriso carismático, que trajava um terno cinza e discreta camisa branca, adornada com uma gravata no mesmo tom do terno, levantou-se, cumprimentou a todos e deu início à mensagem:
- Até o dia 21 de março de 1844, Jesus voltará para buscar Seus fiéis neste planeta. É o que a Bíblia diz e eu vou mostrar para vocês nesta noite.
Capítulo 4 - A Profecia
A congregação de irmãos metodistas entreolhou-se. Do púlpito, o pastor Ulric disse claramente uma data de previsão para o retorno de Jesus e mencionou que iria provar.
- No livro de Daniel, capítulo 8, versículo 14, está escrito: "Ele me disse: Isso tudo levará duas mil e trezentas tardes e manhãs; então o santuário será reconsagrado [purificado]. " Esse verso encerra uma visão que Daniel teve e que está descrita no capítulo 8. A explicação parcial da visão está no verso 20 em diante. Mas o que interessa para nós são esses 2.300 dias, que ocorrerão, segundo a própria Bíblia, no fim da história do mundo (Dn 8:17). Esse santuário a ser reconsagrado (purificado) é a própria Terra. Jesus voltará e purificará nosso mundo, dando a verdadeira vitória para os crentes no fim das 2.300 tardes e manhãs. Mas como calcular essa data? Como entender essa profecia?
A congregação murmurou. Do meio dela, levantou Fearnot e vociferou:
- Guilherme Miller é um charlatão e o senhor é um de seus arautos de mentira.
Uma onda de indignação pela interrupção inundou a pequena e lotada igreja. Fearnot encarou cada um que o olhava.
- Não sejam tolos! - gritou ele - Esse homem é um enganador.
No púlpito, o pastor Anatoli levantou-se e disse amavelmente:
- Irmão, haverá o momento oportuno para perguntas e discordâncias. Por enquanto, vamos ouvir o que o pastor Ulric tem a dizer e, depois, cada um poderá tirar suas próprias conclusões.
Fearnot fechou o cenho, inundando-o com uma expressão comum aos intolerantes. Pegou sua Bíblia sobre o banco e saiu com sonoras batidas de pé no chão de madeira.
Ao sinal de Anatoli, Ulric pigarreou e retomou a exposição como se não tivesse sido interrompido:
- Guilherme Miller passou dias e noites em oração e estudos para chegar à conclusão que vou expor aqui hoje, meus irmãos. Ele não queria sair para pregar, pois sabia que iria receber críticas de tal natureza. Mas quando se tem a visão dessa magnitude, não se pode calar. Não se pode ficar inerte diante de tamanha revelação e não alertar pessoas que estejam dispostas a fazer uma real entrega ao nosso Deus. Antes de mais nada, precisamos entender que, em profecias, um dia equivale a um ano, conforme está no livro de Números 14:34* e Ezequiel 4:6, 7.** Então, para traçarmos quando termina a profecia, temos que entender quando ela começa. Observem que quando Daniel recebeu a profecia também lhe foi dada uma advertência.
Ele abriu a Bíblia e leu partes de Daniel 8:26,27:
- "A visão das tardes e das manhãs, que você recebeu, é verdadeira; sele, porém, a visão, pois refere-se ao futuro distante. Eu, Daniel, fiquei exausto e doente por vários dias. [...] Fiquei assustado com a visão; estava além da compreensão humana."
Então prosseguiu:
- Daniel continuou em oração, clamando para que Deus lhe revelasse o significado dessa profecia, até que um anjo lhe apareceu e disse o que podemos ler no capítulo 9, versos 23-27: " Assim que você começou a orar, houve uma resposta, que eu lhe trouxe porque você é muito amado. Por isso, preste atenção à mensagem para entender a visão: ' [...] Saiba e entenda que, a partir da promulgação do decreto que manda restaurar e reconstruir Jerusalém até que o Ungido, o Líder, venha, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas. [...] Com muitos Ele fará uma aliança que durará uma semana. No meio da semana Ele dará fim ao sacrifício e à oferta. '''
Enquanto os irmãos daquela igreja conferiam os textos na Bíblia, Anatoli e Ulric arrastaram um quadro de giz para o centro da plataforma. Ali o orador fez as primeiras anotações do que seria um diagrama:
I
Início
457 a. C.
Então, o pastor Ulric continuou:
- Nos textos de Daniel 9:25, *** Esdras 7:7, 11, 21, 22 **** está claro que o período profético dos 2.300 anos começa a partir da ordem para restaurar e edificar Jerusalém. Isso aconteceu em 457 a.C. Portanto, essa é a data de início do período que estamos estudando. Reparem que a profecia relata que, do ano 457 a.C. "até que o Ungido, o Líder", e isso quer dizer o batismo de Jesus, haveria "sete semanas e sessenta e duas semanas". Somando, isso dá um total de 69 semanas, ***** o que, em linguagém profética, equivale a 483 anos, pois cada semana tem sete dias.****** Agora, observem de novo.
Ulric virou-se para o quadro de giz e traçou as seguintes anotações:
69 semanas
485 anos
7 semanas 62 semanas
49 anos 434 anos
Início 408 a. C 27 d.C
457 a. C Ungido
princípe
Batismo de Jesus
Olhem. Chegamos ao momento em que o Príncipe foi ungido pelo batismo, o que, historicamente, aconteceu em 27 d.C. Vale lembrar que no ano 408 a.C. ocorreu a reconstrução de Jerusalém e a restauração do estado judeu. Portanto, até aqui a profecia cumpriu-se fielmente. Pois bem, depois de ungido o Príncipe, ou seja, após o batismo ocorrido em 27 d.C., a profecia fala de mais uma semana, o que significa sete dias, ou seja, sete anos. Isso nos conduz ao ano de 34 d.C.******* Foi justamente nesse ano que o apóstolo Estêvão foi apedrejado pelo povo judeu, cumprindo a profecia de Daniel 9:24: "Sessenta semanas estão decretadas para o seu povo." Observem que foram sete semanas no primeiro período - ele apontou no quadro a linha que ia até o ano de 408 a.C. - Depois de 62 semanas até o Ungido e, depois, mais uma semana para acabar com o tempo de Israel após o apedrejamento do primeiro mártir.********
Mais uma vez o pastor Ulric completou seu diagrama, anotando as 70 semanas completas e a semana (sete anos) adicionada após o ano 27 d.C., o que culminava em 34 d.C. com a morte de Estêvão.
Então, Ulric também desenhou uma cruz no meio da última semana e colocou um 3 1/2 em cada lado dessa cruz. O diagrama agora ficou assim:
70 semanas
490 anos
69 semanas
485 anos
7 semanas 62 semanas 1 semana
49 anos 434 anos 3 1/2 3 1/2
Início 408 a.C. 27 d.C. 34 d.C.
457 a.C.
Ungido Apedrejamento
príncipe de Estêvão
Batismo
de Jesus
- Continuando, irmãos, a profecia diz que na metade desta última semana, compreendida entre os anos 27 e 34 d.C., "fará cessar o sacrifício". Isto quer dizer que Jesus morreria na metade entre esses anos, ou seja, no ano 31 d.C., o que historicamente ocorreu. No plano espiritual, a partir do sacríficio do Messias, não eram mais necessários os sacrifícios simbólicos de animais que Israel realizava. Notaram como tudo se cumpriu com exactidão? Viram quando iniciam as profecias das setenta semanas (490 anos) e das 2.300 tardes e manhãs? Até aqui a Bíblia disse a verdade. Até aqui tudo se cumpriu, desde a restauração de Jerusalém até o batismo e morte de Jesus, incluindo o assassinato do primeiro mártir, Estêvão, dando um basta na era de Israel. Agora vem o mais importante e algo tão verdadeiro quanto as profecias que acabei de mostrar.
Ulric traçou uma grande linha no quadro, anotou 2.300 anos e, no fim, 21/3/1844.
2300 anos
70 semanas
490 anos
69 semanas
485 anos
7 semanas 62 semanas 1 semana 1.810 anos
49 anos 434 anos 3 1/2 3 1/2
Início 408 a.C. 27 d.C. 34 d.C. 21/03/1844
457 a.C.
Ungido Apedrejamento Volta de Jesus
príncipe de Estêvão
Batismo
de Jesus
- Este mundo não passará de 21 de março de 1844. Até essa data, Jesus voltará para purificar a Terra.
* Números 14:34: " Durante quarenta anos vocês sofrerão a consequência dos seus pecados e experiementarão a Minha rejeição; cada ano corresponderá a cada um dos quarenta dias em que vocês observaram a terra."
** Ezequiel 4:6, 7: "Terminado esse prazo, deite-se sobre o seu lado direito, e carregue a iniquidade da nação de Judá, durante quarenta dias, tempo que Eu determinei para você, um dia para cada ano. Olhe para o cerco de Jerusalém e, com o braço desnudo, profetize contra ela."
*** Daniel 9:25: "Saiba e entenda que, a partir da promulgação do decreto que manda restaurar e reconstruir Jerusalém até que o Ungido, o Líder, venha, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas. Ela será reconstruída com ruas e muros, mas em tempos difíceis."
**** Esdras 7:7, 11, 21, 22 : "Alguns dos israelitas, inclusive sacerdotes, levitas, cantores, porteiros e servidores do templo, também foram para Jerusalém no sétimo ano do reinado de Artaxerxes. [...] Esta é uma cópia da carta que o rei Artaxerxes entregou ao sacerdote e escriba Esdras, conhecedor dos mandamentos e decretos do Senhor para Israel: [...] 'Agora eu, o rei Artaxexes, ordeno a todos os tesoureiros do território situado a oeste do Eufrates que forneçam tudo o que lhes solicitar o sacerdote Esdras, escriba da Lei do Deus dos Céus, até três toneladas e meia de prata, cem tóneis de trigo, dez barris de vinho, dez barris de azeite de oliva, e sal à vontade.'''
***** 62 + 70 = 69 semanas
****** 69 x 7 dias = 483 dias. E se cada dia é igual a um ano, isso quer dizer 483 anos.
******* 27 + 7 = 34
******** Atos 7:59: "Enquanto apedrejavam Estêvão, este orava: "Senhor Jesus, recebe o meu espírito'."
Capítulo 5 - Pensando no Assunto
Jerryl olhou para seu pai sentado ao lado. O mestre ferreiro olhava para a Bíblia e fazia anotações.
- É incrível - sussurrou Nolan.
Do púlpito, o pastor Ulric fazia o fechamento.
- Segundo Miller, o ano bíblico de 457 a.C., ou seja, o ano de início de contagem da profecia, começa na primavera, o que equivale a 21 de março de 457 a.C. Assim, somados 2.300 anos, chegamos à data de 21 de março de 1844. Essa é a data para a purificação deste santuário, a Terra. Nós, os mileritas, acreditamos que Jesus voltará entre 21 de março de 1843 e 21 de março de 1844. E nosso coração se enche de esperança com esse pensamento. Amém, amém e amém! - Ele foi dando passos para trás, a cada "amém" que pronunciava, até assentar-se novamente em sua poltrona, ao lado do pastor Anatoli.
Murmúrios de comentários encheram imediatamente a igreja. Os membros conversavam uns com os outros. Uns perguntando alguns detalhes, outros explicando. Para alguns, era tudo muito claro. Mas uma boa parte ainda carecia de mais explicações, pois não conseguiu acompanhar o raciocínio.
- Silêncio, meus irmãos, silêncio - disse Anatoli tomando a tribuna. - O pastor Ulric estará conosco durante uma semana, fazendo estudos e explicando individualmente para quem se interessar. Eu mesmo tenho várias perguntas para ele. Agora vamos encerrar nossa reunião.
Cantaram e oraram. Na saída, os membros se reuniram em grupos e muitos ficaram conversando até altas horas sobre a profecia de Daniel.
No meio da confusão de pessoas, o olhar de Jerryl encontrou o de Allice. Ela sorriu encabulada e seus lábios se movimentaram formando uma palavra: "Obrigada!" Foi o suficiente para encerrar a noite da melhor forma possível.
Já no caminho para casa, andando ao lado de Nolan e da família, Jerryl perguntou para o pai:
- O que o senhor achou da mensagem?
- É surpreendente - respondeu McNolan. - Mas quero estudar mais.
- Posso estudar junto?
- Claro - concordou o pai, e chegaram em casa.
No dia seguinte, pai e filho trabalhavam juntos. Fizeram algumas armações metálicas encomendadas pelo prefeito, para o festival que seria realizado no próximo fim de semana, reunindo produtores da região. Era uma espécie de exposição de produtos e concursos do tipo: maior abóbora, melhor cavalo, melhor galinha e coisas do tipo. Havia vários tipos de competições e diversões para todas as idades.
À noite, foram à igreja, onde um grupo se reuniu com os pastores Anatoli e Ulric, estudando as profecias de Daniel e compreendendo ainda mais a exposição do dia anterior. Entre os presentes, estava o Sr. Gerald Norton e sua esposa, Lea. Jerryl os cumprimentou educadamente.
No fim da reunião, Nolan disse para o filho ir para casa e ficou um pouco mais na igreja.
O mestre ferreiro se sentou no último banco e, quando Norton passou por ele, pediu alguns minutos de sua atenção. O fazendeiro sentou ao lado do amigo e depositou o chapéu no rústico banco de madeira.
- Gerald, quero falar com você sobre nossos filhos - iniciou McNolan. - Jerryl mencionou que está interessado em cortejar sua filha, Allice, mas você, ao que parece, não mostrou interesse em permitir que se encontrassem.
- Sim. Falamos brevemente no armazém de Fearnot, num dia desses.
- Meu garoto é uma boa pessoa e se ele não merecesse qualquer defesa eu não estaria aqui para falar em nome dele. Aliás, Jerryl nem sabe que eu iria conversar com você. Escute, Gerald, ele tem um ofício, tem suas próprias ferramentas e logo poderá sustentar a própria família. Não somos ricos, você sabe, mas nosso ofício garante uma vida digna. Eduquei meus garotos na Palavra de Deus e tanto minha família como a sua O servem na mesma religião. A princípio, não vejo motivos para não permitir que se conheçam melhor.
Gerald pegou o chapéu e o colocou no colo, roçando as abas com as mãos calejadas.
- Sei que Jerryl é um ótimo rapaz, Nolan - disse finalmente. - Não quero que você pense que tenho algo contra ele ou contra sua família. Não é isto. - Ele fez novo silêncio, alisando o couro surrado do chapéu. - Allice ainda não está preparada para se casar.
- Eu sei como deve ser difícil dar em casamento a filha mais nova, meu amigo, mas você deve ter em mente que ela já alcançou a idade em que as donzelas se casam. Não convém segurarmos muito.
- Eu também sei que é difícil entender nossa decisão, Nolan. Mas, por enquanto, é isso.
Foi a vez de o ferreiro fazer silêncio. Mas, quando Gerald se levantou, McNolan disse em tom amável:
- Meu amigo, há algo mais nessa história? Algo que você queira compartilhar comigo? Talvez eu possa ajudar.
O Sr. Norton depositou a mão direita no ombro do amigo e falou:
- Quem sabe outra hora conversamos a respeito. Esta semana será bem tumultuada. Vamos nos concentrar nos estudos do pastor Ulric e no festival anual. Prometo que na próxima semana irei procurar você e dar minha resposta definitiva sobre permitir ou não a corte de Jerryl a Allice.
Nolan retornou para casa e encontrou o filho sentado no fundo do quintal. Ao lado dele, sentados numa cadeira, estavam os jovens Ralph e Palmer. Todos olhavam para as estrelas.
- Não vão dormir, meninos? - perguntou o pai, assentando-se com eles.
- Estávamos falando da volta de Jesus - disse Palmer. - É verdade que Ele voltará?
A pergunta trouxe à baila a conversa que seguiu naquela noite. Conversaram por mais uma hora, falando a respeito das promessas bíblicas feitas por Jesis de que iria voltar. Nolan, iluminado pela luz alaranjada de uma lamparina, abriu sua Bíblia em João 14:3 e leu: "E se Eu for e lhes preparar lugar, voltarei e os levarei para Mim, para que vocês estejam onde Eu estiver."
Depois de refletirem um pouco mais, os dois garotos mais novos foram dormir, ficando apenas o mestre ferreiro e seu aprendiz.
- Falei com Gerald hoje à noite - disse o pai.
- Sobre o que falaram?
- Sobre seu desejo de cortejar Allice.
Jerryl mexeu-se na cadeira, como se tivesse sido ferroado por uma abelha.
- Ele disse que dará uma resposta na próxima semana - concluiu Nolan.
- Pai, obrigado, mas não precisava interferir. Eu...
- Você é um ótimo rapaz e os Norton são excelentes pessoas. Seria bom tê-los como parentes.
Levantou-se com um suspiro cansado. Afagou o ombro do filho e disse:
- Boa noite. E não se demore a dormir. Preciso de todas as suas energias na ferraria amanhã.
No dia seguinte, quando Jerryl entrou na ferraria, Nolan já estava martelando uma haste metálica na bigorna.
- É um florete? - perguntou o jovem.
- Sim - respondeu, dando mais duas marteladas e estendendo o metal diante dos olhos. - É para a exposição do fim de semana. Mais tarde mexo com ela. Agora aproveite o calor da fornalha e mãos à obra.
O trabalho na ferraria era exaustivo. O calor intenso derrubaria qualquer um menos preparado. A luz avermelhada debruçava-se sobre os músculos fortes e pele corada de Jerryl, delineando cada um de seus contornos.
Ao meio-dia, pararam para "abastecer a fornalha", como dizia o Sr. McNolan, referindo-se à hora da refeição. Foram para a casa aos fundos, onde Marta trazia uma panela com guisado de batata e Ralph depositava sobre a mesa uma bacia com hortaliças cruas - cenouras, tomates e folhas verdes - colhidas da horta da família.
- Vamos precisar plantar capim, Marta - disse Nolan, dando um beijo no rosto da esposa. - Só assim vamos conseguir alimentar estes três cavalos.
Capítulo 6- Dia de Festival
A cidade tinha nova vida na semana que antecedia o festival anual. Pessoas do campo vinham em peso para o Condado Novo. Compravam roupas e acessórios vendidos nas lojas dos vilarejo ou alguns ingredientes para os pratos do dia do festival.
Mesmo diante de intensas actividades, muitas pessoas continuaram assistindo às palestras do pastor Ulric. A Igreja Metodista recebeu membros não só de seu credo, mas de outras igrejas protestantes. Até pessoas que sequer eram cristãs, no fim daquela semana, acabaram aceitando a mensagem do advento, tornando-se assíduas frequentadoras da igreja, reavaliando a própria vida, a fim de estarem prontas para a profetizada vinda de Jesus, segundo a interpretação de Guilherme Miller.
No domingo de festival, a cidade estava em polvorosa. Tendas e mais tendas foram montadas na rua principal, indo até sua extremidade, onde havia outros locais de exposição.
Jerryl e os irmãos carregavam várias espadas e as entregaram no balcão improvisado por Nolan, onde, no letreiro, lia-se: "FERREIROS MCNOLAN". Penduradas no mural estavam expostas as espadas ornamentais, a maioria floretes, feitas pelo Sr. McNolan, uma arte herdada de seu pai.
Quando o ferreiro virou-se e pôs a mão no balcão, pegando o cabo de uma das espadas, outra grande e pesada mão debruçou-se sobre a dele.
- Vim pegar um adiantamento do que você me deve, McNolan - disse Zachary Brat com os olhos escondidos na sombra do chapéu de aba negra.
Nolan fechou os dedos no cabo do florete e disse:
- Não lhe devo nada, Sr. Brat.
- Você deve meu appaloosa e esta espada servirá de singelo bônus, por ter matado meu cavalo com sua ferradura mal colocada.
Aos poucos, Nolan afroxou a mão e a tirou do balcão. Zachary empunhou a espada com satisfação e apontou para o coração do ferreiro, à distância de pouco mais de dois palmos.
- Parece excelente - disse o homem.
- E é - concordou McNolan, sem modéstia. - E se você levá-la sem pagar por ela, registrarei ocorrência junto ao xerife.
Brat deu um passo à frente e a espada quase encostou no peito de Nolan, que enrijeceu diante da iminência de um golpe.
- Algum problema por aqui? - disse uma voz grossa vindo do lado esquerdo de Zachary.
Os homens olharam e a figura de barriga protuberante ergueu o cinto onde duas pistolas pendiam. Ali, nas armas niqueladas e com cabos de marfim, onde estava desenhado em relevo um cavalo, descansou as mãos. O homem, que parecia um urso de tão grande, deu um sorriso desenhado pelo bigode farto e um cavanhaque negro e repetiu a pergunta.
- Algum problema?
- Não, xerife Brautigan - respondeu Brat, voltando o passo e afastando a espada do coração de McNolan. - Estamos apenas negociando.
- Já disse que não tenho negócios com você, Sr. Brat - respondeu secamente o ferreiro, tomando a espada das mãos do oponente e colocando-a no mural. - E ainda não coloquei os preços nas minhas peças.
Zachary cuspiu no chão, pois mascava fumo. Tocou a aba do chapéu em cumprimento ao xerife e saiu dali.
- É impressão minha ou você estava com algum problema aqui, meu amigo? - perguntou Brautigan pegando uma das flanelas no balcão que o ferreiro usava para limpar espadas e poliu a estrela de xerife no peito.
- Você continua astuto como uma raposa, Jim - disse Nolan, chamando o velho conhecido pelo primeiro nome. - Vamos aproveitar o festival. Na próxima semana procuro você, pois creio que de outra forma não irei me livrar de Zachary.
- Está bem. Molly fará aquele doce de abóbora de que você gosta para vender numa das barracas - disse o xerife, falando de sua esposa.
Fale para um de seus meninos buscar um pote e não leve dinheiro.
- Oi, xerife - disseram os filhos de McNolan chegando com outras coisas para colocar na exposição.
- Olá, meninos. Ei, ei, ei! - disse o homem da lei e agarrou Jerryl pelo paletó, dando solavancos no pano, batendo o pó nos ombros e arrumando-lhe o chapéu de feltro marrom sobre a cabeça. - Onde esse menino vai todo arrumado assim?
Jerryl sorriu e Jim deu-lhe três tapinhas no rosto.
- Ah, não me vá dizer que este menino já está olhando para as moças? - Ele se aproximou do rapaz e lhe disse ao ouvido: - Vá, conte-me quem é a felizarda.
O jovem corou e os dois irmãos menores recostaram-se no balcão, com olhares curiosos.
- Conversamos durante a semana, Jim - salvou o sorridente Sr. McNolan. - Inclusive sobre isso, se Jerryl não se importar.
Brautigan fez uma pequena mesura, tocando a aba do chapéu, e afastou-se, não sem antes dar uma piscadela para Jerryl.
- Está tão evidente assim? - perguntou o jovem para o pai, que sorriu e deu de ombros.
A festa foi começando, com pessoas se achegando, andando de um lado para o outro. Havia bolos, tortas, legumes, animais; jogos como testes de força, ou de pontaria; vários objectos expostos, como mantas de crochê, bancos de madeira, ferragens; passeios com pôneis para as crianças e outras diversões. Mas o que eles gostavam mesmo era de pequenos fogos de artifício que estouravam a todo momento de um canto ao outro da feira.
Porém, a grande atração estava numa tenda ao leste, onde uma máquina de descaroçar algodão era exposta. "Uma maravilha tecnológica!", gritava o apresentador dentro de um terno xadrez, cartola e uma bengala, que ele batia no metal da máquina.
A conversa em torno dela era justamente sobre novas evoluções tecnológicas e "onde o mundo vai parar com todas essas novidades?"
Na barraca dos McNolan, estavam as espadas ornamentais (sem fio) e vários pequenos objectos (pratos, panelas, canecos, talheres, etc.). Havia também artesanatos de Jerryl, valendo destacar um homem e uma mulher de ferro negro. O homem usava uma cartola e o vestido de seu par era feito de pequenas tiras de metal. Foi vendido rapidamente, o que fez o jovem ferreiro pensar se realmente queria se desfazer daquele objeto que fizera com tanto carinho.
Depois das vendas da manhã, Nolan dividiu parte do dinheiro com a esposa e os filhos e todos foram almoçar nas barracas de comida.
Por volta das duas horas da tarde, Joe chegou ao balcão dos McNolan, e Ralph e Palmer olharam para dentro de um embornal que ele abriu, exclamando um "Uau!"
- Pai, podemos ir? - pediram em uníssono. Nolan assentiu com a cabeça.
Os meninos pegaram seus próprios embornais e acompanharam o amigo.
Antes de sair, Joe olhou furtivamente para Jerryl, que estava mais que afoito para perguntar sobre Allice. O garoto aproveitou que Nolan estava atendendo uma pessoa e passou-lhe rapidamente um papel sobre o balcão.
Virando-se, o jovem ferreiro abriu a carta e leu em pequenas e desenhadas letras:
" Obrigada pela rosa. Nunca ganhei algo tão lindo."
Instintivamente, Jerryl levou o papel até o rosto e o cheirou. Sim, o cheiro de Allice, ou o que ele acreditava ser o aroma da amada, estava ali. Algo como flores do campo; era isso. Tão suave que parecia sentir sua maciez. Passou os dedos no papel cheio de relevo e pensou que as mãos de Allice também o alisaram antes de escrever.
- Que cara de bobo é essa, Jerry? - perguntou Nolan, tirando o filho de seu transe.
- Nada, nada - disse o jovem, colocando o papel no bolso, mas sem se despir do rosto de apaixonado. Tentou amarrar o sorriso, mas ele continuou ali, embaixo de olhos brilhantes. - O que foi? - perguntou ao ver a cara de desaprovação do pai.
- Vá com calma, filho. Não quero que se machuque - aproximou-se de Jerry e colocou a mão em seu ombro.
- É possível amar verdadeiramente sem correr esse risco? - perguntou o jovem. Então, seu sorriso afroxou.
- Não. Acho que não.
Então eu assumo o risco, pois não é algo vago que palpita em meu peito. Não é um sentimento egoísta. Eu a amo de verdade e tenho certeza que não é um engano do meu coração e da minha mente.
Capítulo 7 - Fogos
O dia foi-se despedindo manhoso, enquanto o sol lançava seus últimos tons alaranjados no imenso céu, outrora pintado de azul.
As pessoas do Condado Novo, aos poucos, se juntaram próximas ao palco principal, onde fizeram o culto que era celebrado na igreja. Cantaram hinos e depois o pastor Anatoli expôs a Palavra. Falou de gratidão.
No fim, o momento mais esperado da noite: os fogos de artifício. Cada um achou seu lugar, assentando-se em cadeiras ou na encosta da relva próxima de onde se tinha uma ótima visão.
- Venha, Jerry - disse Joe puxando-o pelo braço. - Tenho um ótimo lugar.
Jerryl foi praticamente arrastado, até o garoto o soltar e dizer:
- Sente-se aqui, volto já - e saiu para o outro lado.
O jovem sentou-se e, quando o fez, percebeu que não estava sozinho. A moça ao seu lado, com vestido de rendas discretas e no tom pérola, afastou a penumbra de seu rosto com um sorriso.
- Allice? - perguntou ele, espantado e com o coração palpitando. - O...o...oi.
- Oi - disse ela, também surpresa. Encabulada, arrumou o chapéu de tela e uma pluma na cabeça. - Joe disse que tinha uma surpresa para mim. Eu não esperava que fosse você.
- Ele só me disse que tinha um bom lugar para vermos os fogos - Jerryl tentou sorrir; não conseguiu.
- É. Aqui é um ótimo lugar.
- Sim. É o melhor lugar do mundo.
Fizeram silêncio e o primeiro fogo explodiu no céu estrelado, trazendo ao rosto dos dois um brilho vermelho e depois verde. No segundo fogo, a pele alva de Allice refletiu um tom róseo.
- Você não vai olhar os fogos? - perguntou ela, olhando para o alto. Mais algumas bombas brilhantes estouraram lá em cima.
- Estou vendo. Dentro de seus olhos e desenhados em seu rosto.
A donzela sorriu timidamente, sob a luz de incontáveis cores.
- Caso seu pai permita, você aceitaria que eu a corteje?
- Será que o céu que Jesus está preparando é mais lindo do que o que vemos agora? - disse ela sem responder, olhando os fogos.
Jerryl, pela primeira vez, também olhou. Disse:
- Será mais lindo. Eu tenho certeza. E o brilho, essas faíscas maravilhosas, será casa um de nós, ao lado dEle.
Allice sorriu mais uma vez e seus traços alvos foram desenhados pela luz vinda do céu. Azul, vermelho, verde, rosa.
- Se eu pudesse, e se você aceitasse minha condição, eu aceitaria sua corte, Jerryl McNolan - ela olhou para seu amado e ele viu naquele sorriso todos os seus sonhos realizados. - Eu amei a rosa.
- Jerry, você precisa ir! - interrompeu Joe afobado, assentando-se ao lado deles.
O ferreiro levantou-se sem jeito, perdido. Queria ficar e parecia não ter aonde ir. Subiu a encosta com as costas alvejadas por luzes. Olhou para o alto. Olhou para o céu e, naquela noite, não dormiria, pois Allice, em seus sonhos acordados, não deixaria.
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- Está tarde, meninos e meninas - disse o velho Sr. Jordan, que contava a história. - Podemos continuar na próxima semana.
A resposta de Sam, Matheus, Jill e Vane foi um sonoro e longo "nãããããooo!"
- Por favor, Sr. Jordan - disse Sam, o porta-voz da turma. - Pelo menos conte por que ela não pode ser cortejada.
- Vou contar... Vou contar... Mas não hoje, pois já está tarde.
- Não vamos aguentar esperar mais uma semana para ouvir o resto da história - Vane falou num suspiro.
- Ajudem-me a levantar - Jordan esticou os braços e os adolescentes o ajudaram, pondo-o de pé. - Obrigado! Obrigado! - respirou cansado - Então cheguem mais cedo amanhã. Venham de barriga vazia, pois faremos o lanche da tarde debaixo da macieira e aí conto mais sobre a história.
- Eles vão-se casar? - perguntou Jill.
- Zachary vai fazer algum mal aos McNolan? - perguntou o pequeno Matheus.
- Crianças, nessa histórias há coisas que vocês não vão gostar de ouvir e que eu não gostaria de contar. Mas é como aconteceu e, se vocês estiverem aqui amanhã, poderemos continuar.
Quatro cebecinhas balançaram afirmativamente. A curiosidade - e a imaginação - inundou aquelas mentes. Sim, certamente estariam ali no dia seguinte.
Quando o Sr. Jordan entrou em sua casa vazia, olhou para uma espada pendurada sobre a lareira. Andou até ela e alisou a assinatura na lâmina, próxima ao cabo. "McNolan".
- Saudades - ele disse e seus olhos mergulharam em lágrimas que não caíram.
Na tarde do dia seguinte, quando os garotos chegaram eufóricos, havia uma mesa posta embaixo da macieira, no fundo da casa, com frutas, incluindo maçãs, e bolos, servidos com chá. A mesa impressionava não só pela grossura de sua tábua, mas por parecer estar fundida ao chão e à macieira de flores cheirosas.
- Alguém traga a minha cadeira - pediu o velho homem. Os meninos a trouxeram.
Ele se acomodou na cadeira e Jill leu "Palmer", entalhado na madeira da mesa. Cutucou Vane e mostrou o nome do irmão de Jerryl escrito ali.
- Vamos, sirvam-se - disse o Sr. Jordan. Serviu-se de um chá e sentou-se na cadeira. - Terminei falando sobre os sonhos de Jerryl com Allice. Eu não disse que naquela noite ele a amou ainda mais. Em seus sonhos, a viu como esposa, mãe de seus filhos. Viu-se envelhecendo ao lado dela ou, quem sabe, subindo aos Céus de mãos dadas com a amada, para encontrarem Jesus em Sua vinda. Nem todos... - suspirou. - Mas a esperança sempre foi o que motivou aqueles jovens. Ah, sim, isso sim... A esperança...
Os quatro à mesa olhavam para o homem e ele fez silêncio, como se submergisse na memória de alguém ou nas páginas de um livro. E, então, continuou a história:
- A semana seguinte foi igualmente tumultuada.
Capítulo 8 - Confrontos
O pastor Ulric continuou atendendo quem tinha dúvidas, mas retornou para sua cidade na quarta-feira, prometendo voltar para conversarem mais.
Nolan McNolan teve uma conversa franca com o xerife Brautigan, colocando-o a par das ameaças de Zachary. Jim prometeu que iria tentar apaziguar a situação.
O ferreiro saiu da cadeia local e foi até o armazém do mal-humorado Fearnot, onde, no balcão, conversaram sobre uma encomenda de canecos.
- McNolan - gritou Zachary passando pelo umbral da porta do armazém, com seus capangas. - Pague meu appaloosa.
Nolan virou-se num sobressalto; não esperava encontrar aquele burguês tão logo. Porém, antes de esboçar outra reação, outra voz veio da sacada do estabelecimento:
- Preciso falar com você, Sr. Brat - disse o xerife Jim Brautigan. - E é justamente sobre o Sr. McNolan.
Zachary virou-se, ficando de frente para o xerife que estava a uns dez passos. Disse:
- Meus negócios com McNolan não envolvem o senhor, xerife.
- Seus negócios com McNolan envolvem a lei quando você não busca tentar resolvê-los por meio da lei - retrucou Jim.
- Vou resolver do jeito antigo, xerife. Na forma que os cavaleiros do Oeste resolviam e alguns ainda resolvem seus negócios - insistiu Brat.
- Você sabe o caminho legal para solucionar sua pendência com McNolan. Sabe onde dirão se você tem direito a alguma coisa; se ele lhe deve e quanto deve. - Ao dizer isto, o xerife Brautigan soltou as duas tiras de couro que seguravam os cabos de marfim das pistolas que pendiam em seu cinto. Estufou o peito de urso e completou: - Agora, se você quer to jeito antigo, também sei agir como um xerife precisa agir. Infrinja a lei, Brat, e você e seus capangas sairão arrastados daqui, direto para a loja de caixas de madeira do Kin.
Enquanto o homem ainda falava, tanto Zachary como seus homens também debruçaram as mãos em suas armas. Ficaram ali, trocando olhares num silencioso tempo que pareceu durar uma eternidade. Quando o xerife percebeu que Brat o avaliava, como se medisse a circunferência de sua barriga, disse:
- E não se iluda com a protuberância do meu bucho. É a velocidade das minhas mãos que você deve avaliar. E, Zachary, eu juro que elas continuam tão ágeis como no dia em que sua mãe lhe colocava calças curtas.
Brat avaliou mais uma vez. A fama do xerife Jim Brautigan sempre o precedia. "O gatilho mais rápido do Estado de Nova York", anunciou o prefeito quando o nomeara havia alguns anos. Sem sombra de dúvida, se Zachary ou seus capangas fizessem o mínimo movimento de saque, morreriam ali, os três, baleados pelo lendário "Dedo de Fogo".
- Vou pensar sobre o assunto - disse Brat, e todos aliviaram a tensão sobre as armas.
Ao sair do armazém, o astuto burguês ainda lançou um olhar de ódio para McNolan.
Depois de passar o breve tumulto - que seria assunto para dias no pequeno condado, - o xerife e seu amigo se sentaram em volta de uma mesa no canto do armazém.
- Não quero parecer ingrato, Jim - disse Nolan, enquanto bebia um copo de água. - Mas não quero tomar qualquer atitude que o force a quebrar seu voto.
- Ninguém precisa saber do meu voto, Mac, e eu não iria quebrá-lo hoje.
- Então... você iria deixar que o alvejassem? Isso é ainda pior para mim. Não quero ter sua morte na minha consciência.
Brautigan sorriu e meneou a cabeça, dizendo:
- Você não entende a dívida que tenho com você, não é? Você não entende que devo minha vida a você, McNolan? Você é o responsável por eu estar aqui hoje, por ter minha família junto comigo e, além de tudo, ter a esperança de uma vida eterna. Entenda isso e não diga que seria demais eu me sacrificar por alguém que me deu tudo o que tenho.
- Só cumpri minha obrigação de cristão.
- Mas tem cristão que nem a obrigação cumpre.
A história passada desses dois homens daria um livro, mas, em brevíssima síntese, Jim "Dedo de Fogo" Brautigan era um matador. Intolerante, "pavio curto", tinha como resposta para cada desavença uma bala e um cano fumegante. Embrenhou-se no vício do álcool e, quando a esposa disse que o deixaria, juntamente com os filhos, ele tomou uma decisão: iria matar todo mundo e depois enfiar uma bala na própria cabeça.
Quando chegou em casa, bêbado, um jovem ferreiro chamado Nolan e sua esposa Marta estavam na sala, com uma Bíblia aberta sob a luz da lamparina.
"Dedo de Fogo" colocou a mão na cinta e ali apertou o velho companheiro que cuspia fogo. Iria matar todo mundo, mas, antes que sacasse, foi atingido por palavras:
- Jesus está nesta casa - disse McNolan num tom fraternal e, ao mesmo tempo, com autoridade que só uma pessoa que vive em íntima comunhão com Deus pode ter. - E em nome dEle peço que não se apresente aqui nesse estado.
Algo sobrenatural aconteceu e a sobriedade retornou imediatamente à mente de Brautigan, a despeito da garrafa de conhaque que havia ingerido. Naquele dia, os McNolan salvaram a família de Jim, que começou a estudar a Bíblia e conheceu Jesus. Não só O conheceu, mas O aceitou como salvador pessoal.
Certa noite, num dos estudos, ele fez um voto de nunca mais atirar contra uma pessoa e, desde então, nunca mais o fez.
- Obrigado - disse Nolan, sentado em frente ao amigo no armazém de Fearnot.
- Você quer registrar alguma coisa quanto às ameaças de Brat?
- Não. Vamos esperar. Creio que ele não irá mais incomodar.
No meio da semana, Joe veio para a cidade, trazendo um recado para Nolan. Gerald queria saber se podiam conversar sobre o assunto da semana anterior. Combinaram e, naquela mesma noite, uma hora após o sol se pôr, Norton e a esposa Lea estavam chegando de charrete. Tomaram um chá e comeram torta. Depois, as mulheres ficaram conversando na varanda da casa e os homens foram para cadeiras de madeira, no pátio.
- Diga, Gerald, o que você e sua esposa decidiram sobre a corte do nosso filho à sua Allice?
Norton se recostou na cadeira, sem dar resposta. Olhou para o céu, pintado com várias estrelas. Fez, então, a pergunta mais repetida naquele condado na última semana:
- Você acha que Jesus voltará até 21 de março de 1844?
- Depois de tudo o que estudamos na semana que passou, não tenho dúvidas a esse respeito. Minha única dúvida é sobre minha postura daqui para frente. O que devo fazer a respeito dessa consciência de que Jesus em breve voltará?
- Sim, Nolan. Essa pergunta tem me afligido muito e, confesso, ela me ajudou a decidir a respeito de permitir, ou não, a corte de Jerryl a Allice.
Capítulo 9 - Guilherme Miller
McNolan acomodou-se na cadeira e suas mãos se apoiaram nos braços dela. A lua cheia iluminava todo o pátio da pequena propriedade, quase tornando inútil a fraca luz amarela do lampião.
- Conversamos com Allice - disse Gerald. - Ela tem interesse em conhecer melhor seu filho e nós consentiremos que ele a visite ou que converse com ela na cidade, quando aqui viermos.
- Você não imagina o quanto fico feliz com isso - disse Nolan com um franco sorriso de satisfação. - Aprecio muito a forma de você e sua esposa conduzirem a educação de suas filhas e não tenho dúvida de que, se tudo der certo entre eles, formarão um ótimo casal.
Ficaram ali durante algum tempo, tratando de outros assuntos. O ferreiro notou uma expressão preocupada em Gerald e, embora tenha tentado atrair o assunto sobre o que lhe afligia, o homem foi sempre evasivo nas respostas. O mais próximo que chegou de revelar qualquer coisa foi quando disse "em breve nossas famílias estarão bem próximas e poderemos compartilhar tudo o que há em nosso coração".
Depois dessa fala, Nolan não insistiu e retomaram o assunto sobre a mensagem milerita e as profecias de Daniel. Algum tempo depois, estavam se despedindo daquela família.
Quando os Norton partiram na charrete, o ferreiro e a esposa voltaram para dentro de casa, vendo seus filhos saírem dos quartos onde estavam.
- Qual foi a resposta? - perguntou Jerry, afoito. O pai mostrou o melhor semblante fúnebre que tinha, sem dar resposta imediata.
Marta, que igualmente não sabia o teor da conversa entre os patriarcas, também ficou aflita com a expressão do marido.
- Você realmente quer saber? - perguntou Nolan, com um tom de solene pesar.
Jerry abaixou a cabeça e os dois irmãos voltaram para o quarto. Marta aproximou-se do filho e deu-lhe um beijo seco no rosto, até que o mestre ferreiro disse naquele mesmo tom de voz:
- É difícil quando vemos o primeiro filho saindo de casa para fazer a corte a uma donzela. A gente se sente mais velho.
Jerryl levantou a cabeça, Marta olhou para Nolan e os dois menores voltaram correndo do quarto.
- Ele deixou? Fale, pai! - o jovem quase gritava.
Deixou, garoto... O velho Norton permitiu que você corteje a filha dele.
Foi a vez de Jerry beijar o rosto da mãe, amassando-lhe a bochecha.
A noite trouxe um sono tranquilo. O jovem ferreiro não se lembrava de outro dia em que tivesse acordado tão feliz. No fim daquela semana, no domingo, poderia visitar Allice. Mas, quem sabe, ela não apareceria antes na cidade. Poderiam conversar por alguns minutos, "mas não exagere no tempo", alertou Nolan, como se não soubesse que quando se está com a pessoa amada o tempo é algo que simplesmente não existe.
No dia seguinte, quase na hora de encerrarem as atividades da manhã, Ted gritou em frente ao arco do portão de madeira do estabelecimento:
- McNolan, vim buscar alguns utensílios de metal para vender. Estou saindo de viagem agora.
Jerryl coçou a cabeça. O estômago estava roncando e esperar Ted escolher sua carga de canecos, panelas, talheres, bandejas e diversas quinquilharias seria algo demorado.
- Faremos isso depois do almoço - disse Nolan, como se tivesse ouvido o clamor do estômago do filho (na verdade, ele mesmo já estava exausto e faminto). - Vamos, Ted, traga a carruagem para o fundo do quintal e almoce connosco.
A cerraba barba branca do vendedor ambulante desenhou um sorriso e, mais que depressa, conduziu seu cavalo pela lateral do galpão, puxando a carruagem de três arcos de ferro cobertos com tecido que um dia fora branco, mas agora era marrom, de tanta poeira que já havia absorvido.
Quando os homens chegaram à casa nos fundos, Marta colocou mais um prato na mesa de madeira e, em seguida, deu um pequeno tapa na nuca de Palmer, pois ele, com uma faca, estava entalhando o nome na tábua.
- Ai - resmungou o garoto.
- Quando seu pai vir isso, você vai levar um cascudo - disse Marta, com uma nuvem trovejante sobre os olhos. O filho arrastou o prato metálico para cima do entalhe (mais tarde retomaria sua "obra de arte").
Ted tirou o velho chapéu e o pendurou num prego próximo à porta, revelando um cabelo grisalho e desgrenhado. Bateu o pó da roupa e os pés no capacho da entrada.
- Entre, Ted - convidou Marta. - Pode se lavar na bacia.
- Obrigado, Sra. McNolan. Eu ia queimar qualquer coisa por aí, mas seu marido me convidou para almoçar. Não quero incomodar.
- Não é incômodo, Ted - disse Nolan. - Nesse cocho já comem três cavalos - olhou para os filhos à mesa e desarrumou o cabelo de Ralph. - Mais um não tem problema.
- Nolan! - reprovou Marta - Perdoe-o, Ted, ele sempre faz essas piadas.
O vendedor sorriu de forma gostosa e disse:
- Sra. McNolan, para poder provar o que está trazendo esse cheiro eu me transformaria em um palhaço.
Marta agradeceu com uma mesura e retirou do forno a lenha uma fôrma com torta salgada de legumes.
Os homens se assentaram à mesa e Nolan fez uma oração. Enquanto comiam, conversaram:
- Ted, você conhece Guilherme Miller? - perguntou o ferreiro.
- Eu contei para Jerryl. Conversei com Miller há uns dez anos, no rio Hudson, e também já ouvi muitas histórias sobre ele - disse Ted enquanto comia da torta salgada e fazia uma expressão de que estava muito boa. - Ele é um fazendeiro, como muitos da região. Morou muito tempo em Vermount Poultney, mas depois se mudou para Low Hampton, aqui mesmo, no estado de Nova York. Vocês sabiam que ele é membro da Igreja Batista? Também ouvi dizer que serviu na guerra da independência de 1812, mas o mais interessante é a forma como ele lutou para pregar a interpretação de Daniel.
Ted fez uma pausa, comeu mais um bocado da comida, que incluía fartos legumes e queijo, e disse:
- Sra. McNolan, se me permite, gostaria de mais um pedaço dessa torta. Está maravilhosa.
- Obrigada, Ted - disse ela, servindo-lhe um pedaço dobrado, não só pelo elogio, mas por imaginar quão difícil era a vida daquele viajante. Sem morada fixa, sem uma cama para dormir à noite (Ted dormia em sua carroça). Pensou em perguntar-lhe se tinha família em algum lugar. Se havia uma esposa ou filhos aguardando sua chegada. Preferiu não interromper o assunto, e serviu-lhe, também, rabanetes.
Então, o viajante continuou:
- Miller é um intelectual. Um estudioso da Palavra de Deus, embora tenha lutado muito com sua consciência até finalmente levar adiante a interpretação de Daniel 8:14. Pelo que sei, foi em 1816 que ele começou seus estudos mais aprofundados da Bíblia e, em 1818, teve a primeira interpretação sobre as 2.300 tardes e manhãs. Ele lutou contra a consciência, com receio de que viesse confundir alguém.
- Ouvi um de seus colaboradores fazer um sermão sobre essa luta inicial de Miller - prossegui Ted. - Em agosto de 1831, segundo o pregador, e treze anos após ter interpretado a profecia, Guilherme sentia o peso insuportável de sua missão. Podia ouvir a voz de Deus que lhe dizia: "Vá, anuncie ao mundo. Designei-o como atalaia. Anuncie isto ao mundo." Mas Miller ainda relutou. Ele não sabia pregar e deixava isso bem claro para Deus quando Sua voz o confrontava. Mas naquele dia foi diferente. Guilherme Miller desafiou Deus e, em oração, disse que iria fazer um acordo com Ele. Se fosse da vontade de Deus, que Ele enviasse um convite para que pregasse. Então, se recebesse o convite, Miller iria pregar sobre a profecia de Daniel.
Os McNolans ouviam atentos a história de Ted. Jerry até passou a comer apenas quando o viajante parava de falar, enchia a boca de comida e mastigava.
- Miller sentou-se tranquilo em sua cadeira, pois quem iria convidar um velho fazendeiro de cinquenta anos para pregar sobre a volta de Jesus? Mas, trinta minutos depois, em uma manhã de sábado, alguém bateu à porta de sua retirada casa na fazenda. Era Irving, seu sobrinho. O garoto disse que vinha da casa do pai, pois o pastor de Dresden não poderia dirigir o culto do domingo seguinte. Segundo o garoto, o pai lhe havia pedido que viesse até a fazenda do tio Miller e apelasse para que, no culto do domingo seguinte, pregasse a respeito da segunda vinda de Cristo, conforme estava estudando na Bíblia. *
A congregação de irmãos metodistas entreolhou-se. Do púlpito, o pastor Ulric disse claramente uma data de previsão para o retorno de Jesus e mencionou que iria provar.
- No livro de Daniel, capítulo 8, versículo 14, está escrito: "Ele me disse: Isso tudo levará duas mil e trezentas tardes e manhãs; então o santuário será reconsagrado [purificado]. " Esse verso encerra uma visão que Daniel teve e que está descrita no capítulo 8. A explicação parcial da visão está no verso 20 em diante. Mas o que interessa para nós são esses 2.300 dias, que ocorrerão, segundo a própria Bíblia, no fim da história do mundo (Dn 8:17). Esse santuário a ser reconsagrado (purificado) é a própria Terra. Jesus voltará e purificará nosso mundo, dando a verdadeira vitória para os crentes no fim das 2.300 tardes e manhãs. Mas como calcular essa data? Como entender essa profecia?
A congregação murmurou. Do meio dela, levantou Fearnot e vociferou:
- Guilherme Miller é um charlatão e o senhor é um de seus arautos de mentira.
Uma onda de indignação pela interrupção inundou a pequena e lotada igreja. Fearnot encarou cada um que o olhava.
- Não sejam tolos! - gritou ele - Esse homem é um enganador.
No púlpito, o pastor Anatoli levantou-se e disse amavelmente:
- Irmão, haverá o momento oportuno para perguntas e discordâncias. Por enquanto, vamos ouvir o que o pastor Ulric tem a dizer e, depois, cada um poderá tirar suas próprias conclusões.
Fearnot fechou o cenho, inundando-o com uma expressão comum aos intolerantes. Pegou sua Bíblia sobre o banco e saiu com sonoras batidas de pé no chão de madeira.
Ao sinal de Anatoli, Ulric pigarreou e retomou a exposição como se não tivesse sido interrompido:
- Guilherme Miller passou dias e noites em oração e estudos para chegar à conclusão que vou expor aqui hoje, meus irmãos. Ele não queria sair para pregar, pois sabia que iria receber críticas de tal natureza. Mas quando se tem a visão dessa magnitude, não se pode calar. Não se pode ficar inerte diante de tamanha revelação e não alertar pessoas que estejam dispostas a fazer uma real entrega ao nosso Deus. Antes de mais nada, precisamos entender que, em profecias, um dia equivale a um ano, conforme está no livro de Números 14:34* e Ezequiel 4:6, 7.** Então, para traçarmos quando termina a profecia, temos que entender quando ela começa. Observem que quando Daniel recebeu a profecia também lhe foi dada uma advertência.
Ele abriu a Bíblia e leu partes de Daniel 8:26,27:
- "A visão das tardes e das manhãs, que você recebeu, é verdadeira; sele, porém, a visão, pois refere-se ao futuro distante. Eu, Daniel, fiquei exausto e doente por vários dias. [...] Fiquei assustado com a visão; estava além da compreensão humana."
Então prosseguiu:
- Daniel continuou em oração, clamando para que Deus lhe revelasse o significado dessa profecia, até que um anjo lhe apareceu e disse o que podemos ler no capítulo 9, versos 23-27: " Assim que você começou a orar, houve uma resposta, que eu lhe trouxe porque você é muito amado. Por isso, preste atenção à mensagem para entender a visão: ' [...] Saiba e entenda que, a partir da promulgação do decreto que manda restaurar e reconstruir Jerusalém até que o Ungido, o Líder, venha, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas. [...] Com muitos Ele fará uma aliança que durará uma semana. No meio da semana Ele dará fim ao sacrifício e à oferta. '''
Enquanto os irmãos daquela igreja conferiam os textos na Bíblia, Anatoli e Ulric arrastaram um quadro de giz para o centro da plataforma. Ali o orador fez as primeiras anotações do que seria um diagrama:
I
Início
457 a. C.
Então, o pastor Ulric continuou:
- Nos textos de Daniel 9:25, *** Esdras 7:7, 11, 21, 22 **** está claro que o período profético dos 2.300 anos começa a partir da ordem para restaurar e edificar Jerusalém. Isso aconteceu em 457 a.C. Portanto, essa é a data de início do período que estamos estudando. Reparem que a profecia relata que, do ano 457 a.C. "até que o Ungido, o Líder", e isso quer dizer o batismo de Jesus, haveria "sete semanas e sessenta e duas semanas". Somando, isso dá um total de 69 semanas, ***** o que, em linguagém profética, equivale a 483 anos, pois cada semana tem sete dias.****** Agora, observem de novo.
Ulric virou-se para o quadro de giz e traçou as seguintes anotações:
69 semanas
485 anos
7 semanas 62 semanas
49 anos 434 anos
Início 408 a. C 27 d.C
457 a. C Ungido
princípe
Batismo de Jesus
Olhem. Chegamos ao momento em que o Príncipe foi ungido pelo batismo, o que, historicamente, aconteceu em 27 d.C. Vale lembrar que no ano 408 a.C. ocorreu a reconstrução de Jerusalém e a restauração do estado judeu. Portanto, até aqui a profecia cumpriu-se fielmente. Pois bem, depois de ungido o Príncipe, ou seja, após o batismo ocorrido em 27 d.C., a profecia fala de mais uma semana, o que significa sete dias, ou seja, sete anos. Isso nos conduz ao ano de 34 d.C.******* Foi justamente nesse ano que o apóstolo Estêvão foi apedrejado pelo povo judeu, cumprindo a profecia de Daniel 9:24: "Sessenta semanas estão decretadas para o seu povo." Observem que foram sete semanas no primeiro período - ele apontou no quadro a linha que ia até o ano de 408 a.C. - Depois de 62 semanas até o Ungido e, depois, mais uma semana para acabar com o tempo de Israel após o apedrejamento do primeiro mártir.********
Mais uma vez o pastor Ulric completou seu diagrama, anotando as 70 semanas completas e a semana (sete anos) adicionada após o ano 27 d.C., o que culminava em 34 d.C. com a morte de Estêvão.
Então, Ulric também desenhou uma cruz no meio da última semana e colocou um 3 1/2 em cada lado dessa cruz. O diagrama agora ficou assim:
70 semanas
490 anos
69 semanas
485 anos
7 semanas 62 semanas 1 semana
49 anos 434 anos 3 1/2 3 1/2
Início 408 a.C. 27 d.C. 34 d.C.
457 a.C.
Ungido Apedrejamento
príncipe de Estêvão
Batismo
de Jesus
- Continuando, irmãos, a profecia diz que na metade desta última semana, compreendida entre os anos 27 e 34 d.C., "fará cessar o sacrifício". Isto quer dizer que Jesus morreria na metade entre esses anos, ou seja, no ano 31 d.C., o que historicamente ocorreu. No plano espiritual, a partir do sacríficio do Messias, não eram mais necessários os sacrifícios simbólicos de animais que Israel realizava. Notaram como tudo se cumpriu com exactidão? Viram quando iniciam as profecias das setenta semanas (490 anos) e das 2.300 tardes e manhãs? Até aqui a Bíblia disse a verdade. Até aqui tudo se cumpriu, desde a restauração de Jerusalém até o batismo e morte de Jesus, incluindo o assassinato do primeiro mártir, Estêvão, dando um basta na era de Israel. Agora vem o mais importante e algo tão verdadeiro quanto as profecias que acabei de mostrar.
Ulric traçou uma grande linha no quadro, anotou 2.300 anos e, no fim, 21/3/1844.
2300 anos
70 semanas
490 anos
69 semanas
485 anos
7 semanas 62 semanas 1 semana 1.810 anos
49 anos 434 anos 3 1/2 3 1/2
Início 408 a.C. 27 d.C. 34 d.C. 21/03/1844
457 a.C.
Ungido Apedrejamento Volta de Jesus
príncipe de Estêvão
Batismo
de Jesus
- Este mundo não passará de 21 de março de 1844. Até essa data, Jesus voltará para purificar a Terra.
* Números 14:34: " Durante quarenta anos vocês sofrerão a consequência dos seus pecados e experiementarão a Minha rejeição; cada ano corresponderá a cada um dos quarenta dias em que vocês observaram a terra."
** Ezequiel 4:6, 7: "Terminado esse prazo, deite-se sobre o seu lado direito, e carregue a iniquidade da nação de Judá, durante quarenta dias, tempo que Eu determinei para você, um dia para cada ano. Olhe para o cerco de Jerusalém e, com o braço desnudo, profetize contra ela."
*** Daniel 9:25: "Saiba e entenda que, a partir da promulgação do decreto que manda restaurar e reconstruir Jerusalém até que o Ungido, o Líder, venha, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas. Ela será reconstruída com ruas e muros, mas em tempos difíceis."
**** Esdras 7:7, 11, 21, 22 : "Alguns dos israelitas, inclusive sacerdotes, levitas, cantores, porteiros e servidores do templo, também foram para Jerusalém no sétimo ano do reinado de Artaxerxes. [...] Esta é uma cópia da carta que o rei Artaxerxes entregou ao sacerdote e escriba Esdras, conhecedor dos mandamentos e decretos do Senhor para Israel: [...] 'Agora eu, o rei Artaxexes, ordeno a todos os tesoureiros do território situado a oeste do Eufrates que forneçam tudo o que lhes solicitar o sacerdote Esdras, escriba da Lei do Deus dos Céus, até três toneladas e meia de prata, cem tóneis de trigo, dez barris de vinho, dez barris de azeite de oliva, e sal à vontade.'''
***** 62 + 70 = 69 semanas
****** 69 x 7 dias = 483 dias. E se cada dia é igual a um ano, isso quer dizer 483 anos.
******* 27 + 7 = 34
******** Atos 7:59: "Enquanto apedrejavam Estêvão, este orava: "Senhor Jesus, recebe o meu espírito'."
Capítulo 5 - Pensando no Assunto
Jerryl olhou para seu pai sentado ao lado. O mestre ferreiro olhava para a Bíblia e fazia anotações.
- É incrível - sussurrou Nolan.
Do púlpito, o pastor Ulric fazia o fechamento.
- Segundo Miller, o ano bíblico de 457 a.C., ou seja, o ano de início de contagem da profecia, começa na primavera, o que equivale a 21 de março de 457 a.C. Assim, somados 2.300 anos, chegamos à data de 21 de março de 1844. Essa é a data para a purificação deste santuário, a Terra. Nós, os mileritas, acreditamos que Jesus voltará entre 21 de março de 1843 e 21 de março de 1844. E nosso coração se enche de esperança com esse pensamento. Amém, amém e amém! - Ele foi dando passos para trás, a cada "amém" que pronunciava, até assentar-se novamente em sua poltrona, ao lado do pastor Anatoli.
Murmúrios de comentários encheram imediatamente a igreja. Os membros conversavam uns com os outros. Uns perguntando alguns detalhes, outros explicando. Para alguns, era tudo muito claro. Mas uma boa parte ainda carecia de mais explicações, pois não conseguiu acompanhar o raciocínio.
- Silêncio, meus irmãos, silêncio - disse Anatoli tomando a tribuna. - O pastor Ulric estará conosco durante uma semana, fazendo estudos e explicando individualmente para quem se interessar. Eu mesmo tenho várias perguntas para ele. Agora vamos encerrar nossa reunião.
Cantaram e oraram. Na saída, os membros se reuniram em grupos e muitos ficaram conversando até altas horas sobre a profecia de Daniel.
No meio da confusão de pessoas, o olhar de Jerryl encontrou o de Allice. Ela sorriu encabulada e seus lábios se movimentaram formando uma palavra: "Obrigada!" Foi o suficiente para encerrar a noite da melhor forma possível.
Já no caminho para casa, andando ao lado de Nolan e da família, Jerryl perguntou para o pai:
- O que o senhor achou da mensagem?
- É surpreendente - respondeu McNolan. - Mas quero estudar mais.
- Posso estudar junto?
- Claro - concordou o pai, e chegaram em casa.
No dia seguinte, pai e filho trabalhavam juntos. Fizeram algumas armações metálicas encomendadas pelo prefeito, para o festival que seria realizado no próximo fim de semana, reunindo produtores da região. Era uma espécie de exposição de produtos e concursos do tipo: maior abóbora, melhor cavalo, melhor galinha e coisas do tipo. Havia vários tipos de competições e diversões para todas as idades.
À noite, foram à igreja, onde um grupo se reuniu com os pastores Anatoli e Ulric, estudando as profecias de Daniel e compreendendo ainda mais a exposição do dia anterior. Entre os presentes, estava o Sr. Gerald Norton e sua esposa, Lea. Jerryl os cumprimentou educadamente.
No fim da reunião, Nolan disse para o filho ir para casa e ficou um pouco mais na igreja.
O mestre ferreiro se sentou no último banco e, quando Norton passou por ele, pediu alguns minutos de sua atenção. O fazendeiro sentou ao lado do amigo e depositou o chapéu no rústico banco de madeira.
- Gerald, quero falar com você sobre nossos filhos - iniciou McNolan. - Jerryl mencionou que está interessado em cortejar sua filha, Allice, mas você, ao que parece, não mostrou interesse em permitir que se encontrassem.
- Sim. Falamos brevemente no armazém de Fearnot, num dia desses.
- Meu garoto é uma boa pessoa e se ele não merecesse qualquer defesa eu não estaria aqui para falar em nome dele. Aliás, Jerryl nem sabe que eu iria conversar com você. Escute, Gerald, ele tem um ofício, tem suas próprias ferramentas e logo poderá sustentar a própria família. Não somos ricos, você sabe, mas nosso ofício garante uma vida digna. Eduquei meus garotos na Palavra de Deus e tanto minha família como a sua O servem na mesma religião. A princípio, não vejo motivos para não permitir que se conheçam melhor.
Gerald pegou o chapéu e o colocou no colo, roçando as abas com as mãos calejadas.
- Sei que Jerryl é um ótimo rapaz, Nolan - disse finalmente. - Não quero que você pense que tenho algo contra ele ou contra sua família. Não é isto. - Ele fez novo silêncio, alisando o couro surrado do chapéu. - Allice ainda não está preparada para se casar.
- Eu sei como deve ser difícil dar em casamento a filha mais nova, meu amigo, mas você deve ter em mente que ela já alcançou a idade em que as donzelas se casam. Não convém segurarmos muito.
- Eu também sei que é difícil entender nossa decisão, Nolan. Mas, por enquanto, é isso.
Foi a vez de o ferreiro fazer silêncio. Mas, quando Gerald se levantou, McNolan disse em tom amável:
- Meu amigo, há algo mais nessa história? Algo que você queira compartilhar comigo? Talvez eu possa ajudar.
O Sr. Norton depositou a mão direita no ombro do amigo e falou:
- Quem sabe outra hora conversamos a respeito. Esta semana será bem tumultuada. Vamos nos concentrar nos estudos do pastor Ulric e no festival anual. Prometo que na próxima semana irei procurar você e dar minha resposta definitiva sobre permitir ou não a corte de Jerryl a Allice.
Nolan retornou para casa e encontrou o filho sentado no fundo do quintal. Ao lado dele, sentados numa cadeira, estavam os jovens Ralph e Palmer. Todos olhavam para as estrelas.
- Não vão dormir, meninos? - perguntou o pai, assentando-se com eles.
- Estávamos falando da volta de Jesus - disse Palmer. - É verdade que Ele voltará?
A pergunta trouxe à baila a conversa que seguiu naquela noite. Conversaram por mais uma hora, falando a respeito das promessas bíblicas feitas por Jesis de que iria voltar. Nolan, iluminado pela luz alaranjada de uma lamparina, abriu sua Bíblia em João 14:3 e leu: "E se Eu for e lhes preparar lugar, voltarei e os levarei para Mim, para que vocês estejam onde Eu estiver."
Depois de refletirem um pouco mais, os dois garotos mais novos foram dormir, ficando apenas o mestre ferreiro e seu aprendiz.
- Falei com Gerald hoje à noite - disse o pai.
- Sobre o que falaram?
- Sobre seu desejo de cortejar Allice.
Jerryl mexeu-se na cadeira, como se tivesse sido ferroado por uma abelha.
- Ele disse que dará uma resposta na próxima semana - concluiu Nolan.
- Pai, obrigado, mas não precisava interferir. Eu...
- Você é um ótimo rapaz e os Norton são excelentes pessoas. Seria bom tê-los como parentes.
Levantou-se com um suspiro cansado. Afagou o ombro do filho e disse:
- Boa noite. E não se demore a dormir. Preciso de todas as suas energias na ferraria amanhã.
No dia seguinte, quando Jerryl entrou na ferraria, Nolan já estava martelando uma haste metálica na bigorna.
- É um florete? - perguntou o jovem.
- Sim - respondeu, dando mais duas marteladas e estendendo o metal diante dos olhos. - É para a exposição do fim de semana. Mais tarde mexo com ela. Agora aproveite o calor da fornalha e mãos à obra.
O trabalho na ferraria era exaustivo. O calor intenso derrubaria qualquer um menos preparado. A luz avermelhada debruçava-se sobre os músculos fortes e pele corada de Jerryl, delineando cada um de seus contornos.
Ao meio-dia, pararam para "abastecer a fornalha", como dizia o Sr. McNolan, referindo-se à hora da refeição. Foram para a casa aos fundos, onde Marta trazia uma panela com guisado de batata e Ralph depositava sobre a mesa uma bacia com hortaliças cruas - cenouras, tomates e folhas verdes - colhidas da horta da família.
- Vamos precisar plantar capim, Marta - disse Nolan, dando um beijo no rosto da esposa. - Só assim vamos conseguir alimentar estes três cavalos.
Capítulo 6- Dia de Festival
A cidade tinha nova vida na semana que antecedia o festival anual. Pessoas do campo vinham em peso para o Condado Novo. Compravam roupas e acessórios vendidos nas lojas dos vilarejo ou alguns ingredientes para os pratos do dia do festival.
Mesmo diante de intensas actividades, muitas pessoas continuaram assistindo às palestras do pastor Ulric. A Igreja Metodista recebeu membros não só de seu credo, mas de outras igrejas protestantes. Até pessoas que sequer eram cristãs, no fim daquela semana, acabaram aceitando a mensagem do advento, tornando-se assíduas frequentadoras da igreja, reavaliando a própria vida, a fim de estarem prontas para a profetizada vinda de Jesus, segundo a interpretação de Guilherme Miller.
No domingo de festival, a cidade estava em polvorosa. Tendas e mais tendas foram montadas na rua principal, indo até sua extremidade, onde havia outros locais de exposição.
Jerryl e os irmãos carregavam várias espadas e as entregaram no balcão improvisado por Nolan, onde, no letreiro, lia-se: "FERREIROS MCNOLAN". Penduradas no mural estavam expostas as espadas ornamentais, a maioria floretes, feitas pelo Sr. McNolan, uma arte herdada de seu pai.
Quando o ferreiro virou-se e pôs a mão no balcão, pegando o cabo de uma das espadas, outra grande e pesada mão debruçou-se sobre a dele.
- Vim pegar um adiantamento do que você me deve, McNolan - disse Zachary Brat com os olhos escondidos na sombra do chapéu de aba negra.
Nolan fechou os dedos no cabo do florete e disse:
- Não lhe devo nada, Sr. Brat.
- Você deve meu appaloosa e esta espada servirá de singelo bônus, por ter matado meu cavalo com sua ferradura mal colocada.
Aos poucos, Nolan afroxou a mão e a tirou do balcão. Zachary empunhou a espada com satisfação e apontou para o coração do ferreiro, à distância de pouco mais de dois palmos.
- Parece excelente - disse o homem.
- E é - concordou McNolan, sem modéstia. - E se você levá-la sem pagar por ela, registrarei ocorrência junto ao xerife.
Brat deu um passo à frente e a espada quase encostou no peito de Nolan, que enrijeceu diante da iminência de um golpe.
- Algum problema por aqui? - disse uma voz grossa vindo do lado esquerdo de Zachary.
Os homens olharam e a figura de barriga protuberante ergueu o cinto onde duas pistolas pendiam. Ali, nas armas niqueladas e com cabos de marfim, onde estava desenhado em relevo um cavalo, descansou as mãos. O homem, que parecia um urso de tão grande, deu um sorriso desenhado pelo bigode farto e um cavanhaque negro e repetiu a pergunta.
- Algum problema?
- Não, xerife Brautigan - respondeu Brat, voltando o passo e afastando a espada do coração de McNolan. - Estamos apenas negociando.
- Já disse que não tenho negócios com você, Sr. Brat - respondeu secamente o ferreiro, tomando a espada das mãos do oponente e colocando-a no mural. - E ainda não coloquei os preços nas minhas peças.
Zachary cuspiu no chão, pois mascava fumo. Tocou a aba do chapéu em cumprimento ao xerife e saiu dali.
- É impressão minha ou você estava com algum problema aqui, meu amigo? - perguntou Brautigan pegando uma das flanelas no balcão que o ferreiro usava para limpar espadas e poliu a estrela de xerife no peito.
- Você continua astuto como uma raposa, Jim - disse Nolan, chamando o velho conhecido pelo primeiro nome. - Vamos aproveitar o festival. Na próxima semana procuro você, pois creio que de outra forma não irei me livrar de Zachary.
- Está bem. Molly fará aquele doce de abóbora de que você gosta para vender numa das barracas - disse o xerife, falando de sua esposa.
Fale para um de seus meninos buscar um pote e não leve dinheiro.
- Oi, xerife - disseram os filhos de McNolan chegando com outras coisas para colocar na exposição.
- Olá, meninos. Ei, ei, ei! - disse o homem da lei e agarrou Jerryl pelo paletó, dando solavancos no pano, batendo o pó nos ombros e arrumando-lhe o chapéu de feltro marrom sobre a cabeça. - Onde esse menino vai todo arrumado assim?
Jerryl sorriu e Jim deu-lhe três tapinhas no rosto.
- Ah, não me vá dizer que este menino já está olhando para as moças? - Ele se aproximou do rapaz e lhe disse ao ouvido: - Vá, conte-me quem é a felizarda.
O jovem corou e os dois irmãos menores recostaram-se no balcão, com olhares curiosos.
- Conversamos durante a semana, Jim - salvou o sorridente Sr. McNolan. - Inclusive sobre isso, se Jerryl não se importar.
Brautigan fez uma pequena mesura, tocando a aba do chapéu, e afastou-se, não sem antes dar uma piscadela para Jerryl.
- Está tão evidente assim? - perguntou o jovem para o pai, que sorriu e deu de ombros.
A festa foi começando, com pessoas se achegando, andando de um lado para o outro. Havia bolos, tortas, legumes, animais; jogos como testes de força, ou de pontaria; vários objectos expostos, como mantas de crochê, bancos de madeira, ferragens; passeios com pôneis para as crianças e outras diversões. Mas o que eles gostavam mesmo era de pequenos fogos de artifício que estouravam a todo momento de um canto ao outro da feira.
Porém, a grande atração estava numa tenda ao leste, onde uma máquina de descaroçar algodão era exposta. "Uma maravilha tecnológica!", gritava o apresentador dentro de um terno xadrez, cartola e uma bengala, que ele batia no metal da máquina.
A conversa em torno dela era justamente sobre novas evoluções tecnológicas e "onde o mundo vai parar com todas essas novidades?"
Na barraca dos McNolan, estavam as espadas ornamentais (sem fio) e vários pequenos objectos (pratos, panelas, canecos, talheres, etc.). Havia também artesanatos de Jerryl, valendo destacar um homem e uma mulher de ferro negro. O homem usava uma cartola e o vestido de seu par era feito de pequenas tiras de metal. Foi vendido rapidamente, o que fez o jovem ferreiro pensar se realmente queria se desfazer daquele objeto que fizera com tanto carinho.
Depois das vendas da manhã, Nolan dividiu parte do dinheiro com a esposa e os filhos e todos foram almoçar nas barracas de comida.
Por volta das duas horas da tarde, Joe chegou ao balcão dos McNolan, e Ralph e Palmer olharam para dentro de um embornal que ele abriu, exclamando um "Uau!"
- Pai, podemos ir? - pediram em uníssono. Nolan assentiu com a cabeça.
Os meninos pegaram seus próprios embornais e acompanharam o amigo.
Antes de sair, Joe olhou furtivamente para Jerryl, que estava mais que afoito para perguntar sobre Allice. O garoto aproveitou que Nolan estava atendendo uma pessoa e passou-lhe rapidamente um papel sobre o balcão.
Virando-se, o jovem ferreiro abriu a carta e leu em pequenas e desenhadas letras:
" Obrigada pela rosa. Nunca ganhei algo tão lindo."
Instintivamente, Jerryl levou o papel até o rosto e o cheirou. Sim, o cheiro de Allice, ou o que ele acreditava ser o aroma da amada, estava ali. Algo como flores do campo; era isso. Tão suave que parecia sentir sua maciez. Passou os dedos no papel cheio de relevo e pensou que as mãos de Allice também o alisaram antes de escrever.
- Que cara de bobo é essa, Jerry? - perguntou Nolan, tirando o filho de seu transe.
- Nada, nada - disse o jovem, colocando o papel no bolso, mas sem se despir do rosto de apaixonado. Tentou amarrar o sorriso, mas ele continuou ali, embaixo de olhos brilhantes. - O que foi? - perguntou ao ver a cara de desaprovação do pai.
- Vá com calma, filho. Não quero que se machuque - aproximou-se de Jerry e colocou a mão em seu ombro.
- É possível amar verdadeiramente sem correr esse risco? - perguntou o jovem. Então, seu sorriso afroxou.
- Não. Acho que não.
Então eu assumo o risco, pois não é algo vago que palpita em meu peito. Não é um sentimento egoísta. Eu a amo de verdade e tenho certeza que não é um engano do meu coração e da minha mente.
Capítulo 7 - Fogos
O dia foi-se despedindo manhoso, enquanto o sol lançava seus últimos tons alaranjados no imenso céu, outrora pintado de azul.
As pessoas do Condado Novo, aos poucos, se juntaram próximas ao palco principal, onde fizeram o culto que era celebrado na igreja. Cantaram hinos e depois o pastor Anatoli expôs a Palavra. Falou de gratidão.
No fim, o momento mais esperado da noite: os fogos de artifício. Cada um achou seu lugar, assentando-se em cadeiras ou na encosta da relva próxima de onde se tinha uma ótima visão.
- Venha, Jerry - disse Joe puxando-o pelo braço. - Tenho um ótimo lugar.
Jerryl foi praticamente arrastado, até o garoto o soltar e dizer:
- Sente-se aqui, volto já - e saiu para o outro lado.
O jovem sentou-se e, quando o fez, percebeu que não estava sozinho. A moça ao seu lado, com vestido de rendas discretas e no tom pérola, afastou a penumbra de seu rosto com um sorriso.
- Allice? - perguntou ele, espantado e com o coração palpitando. - O...o...oi.
- Oi - disse ela, também surpresa. Encabulada, arrumou o chapéu de tela e uma pluma na cabeça. - Joe disse que tinha uma surpresa para mim. Eu não esperava que fosse você.
- Ele só me disse que tinha um bom lugar para vermos os fogos - Jerryl tentou sorrir; não conseguiu.
- É. Aqui é um ótimo lugar.
- Sim. É o melhor lugar do mundo.
Fizeram silêncio e o primeiro fogo explodiu no céu estrelado, trazendo ao rosto dos dois um brilho vermelho e depois verde. No segundo fogo, a pele alva de Allice refletiu um tom róseo.
- Você não vai olhar os fogos? - perguntou ela, olhando para o alto. Mais algumas bombas brilhantes estouraram lá em cima.
- Estou vendo. Dentro de seus olhos e desenhados em seu rosto.
A donzela sorriu timidamente, sob a luz de incontáveis cores.
- Caso seu pai permita, você aceitaria que eu a corteje?
- Será que o céu que Jesus está preparando é mais lindo do que o que vemos agora? - disse ela sem responder, olhando os fogos.
Jerryl, pela primeira vez, também olhou. Disse:
- Será mais lindo. Eu tenho certeza. E o brilho, essas faíscas maravilhosas, será casa um de nós, ao lado dEle.
Allice sorriu mais uma vez e seus traços alvos foram desenhados pela luz vinda do céu. Azul, vermelho, verde, rosa.
- Se eu pudesse, e se você aceitasse minha condição, eu aceitaria sua corte, Jerryl McNolan - ela olhou para seu amado e ele viu naquele sorriso todos os seus sonhos realizados. - Eu amei a rosa.
- Jerry, você precisa ir! - interrompeu Joe afobado, assentando-se ao lado deles.
O ferreiro levantou-se sem jeito, perdido. Queria ficar e parecia não ter aonde ir. Subiu a encosta com as costas alvejadas por luzes. Olhou para o alto. Olhou para o céu e, naquela noite, não dormiria, pois Allice, em seus sonhos acordados, não deixaria.
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- Está tarde, meninos e meninas - disse o velho Sr. Jordan, que contava a história. - Podemos continuar na próxima semana.
A resposta de Sam, Matheus, Jill e Vane foi um sonoro e longo "nãããããooo!"
- Por favor, Sr. Jordan - disse Sam, o porta-voz da turma. - Pelo menos conte por que ela não pode ser cortejada.
- Vou contar... Vou contar... Mas não hoje, pois já está tarde.
- Não vamos aguentar esperar mais uma semana para ouvir o resto da história - Vane falou num suspiro.
- Ajudem-me a levantar - Jordan esticou os braços e os adolescentes o ajudaram, pondo-o de pé. - Obrigado! Obrigado! - respirou cansado - Então cheguem mais cedo amanhã. Venham de barriga vazia, pois faremos o lanche da tarde debaixo da macieira e aí conto mais sobre a história.
- Eles vão-se casar? - perguntou Jill.
- Zachary vai fazer algum mal aos McNolan? - perguntou o pequeno Matheus.
- Crianças, nessa histórias há coisas que vocês não vão gostar de ouvir e que eu não gostaria de contar. Mas é como aconteceu e, se vocês estiverem aqui amanhã, poderemos continuar.
Quatro cebecinhas balançaram afirmativamente. A curiosidade - e a imaginação - inundou aquelas mentes. Sim, certamente estariam ali no dia seguinte.
Quando o Sr. Jordan entrou em sua casa vazia, olhou para uma espada pendurada sobre a lareira. Andou até ela e alisou a assinatura na lâmina, próxima ao cabo. "McNolan".
- Saudades - ele disse e seus olhos mergulharam em lágrimas que não caíram.
Na tarde do dia seguinte, quando os garotos chegaram eufóricos, havia uma mesa posta embaixo da macieira, no fundo da casa, com frutas, incluindo maçãs, e bolos, servidos com chá. A mesa impressionava não só pela grossura de sua tábua, mas por parecer estar fundida ao chão e à macieira de flores cheirosas.
- Alguém traga a minha cadeira - pediu o velho homem. Os meninos a trouxeram.
Ele se acomodou na cadeira e Jill leu "Palmer", entalhado na madeira da mesa. Cutucou Vane e mostrou o nome do irmão de Jerryl escrito ali.
- Vamos, sirvam-se - disse o Sr. Jordan. Serviu-se de um chá e sentou-se na cadeira. - Terminei falando sobre os sonhos de Jerryl com Allice. Eu não disse que naquela noite ele a amou ainda mais. Em seus sonhos, a viu como esposa, mãe de seus filhos. Viu-se envelhecendo ao lado dela ou, quem sabe, subindo aos Céus de mãos dadas com a amada, para encontrarem Jesus em Sua vinda. Nem todos... - suspirou. - Mas a esperança sempre foi o que motivou aqueles jovens. Ah, sim, isso sim... A esperança...
Os quatro à mesa olhavam para o homem e ele fez silêncio, como se submergisse na memória de alguém ou nas páginas de um livro. E, então, continuou a história:
- A semana seguinte foi igualmente tumultuada.
Capítulo 8 - Confrontos
O pastor Ulric continuou atendendo quem tinha dúvidas, mas retornou para sua cidade na quarta-feira, prometendo voltar para conversarem mais.
Nolan McNolan teve uma conversa franca com o xerife Brautigan, colocando-o a par das ameaças de Zachary. Jim prometeu que iria tentar apaziguar a situação.
O ferreiro saiu da cadeia local e foi até o armazém do mal-humorado Fearnot, onde, no balcão, conversaram sobre uma encomenda de canecos.
- McNolan - gritou Zachary passando pelo umbral da porta do armazém, com seus capangas. - Pague meu appaloosa.
Nolan virou-se num sobressalto; não esperava encontrar aquele burguês tão logo. Porém, antes de esboçar outra reação, outra voz veio da sacada do estabelecimento:
- Preciso falar com você, Sr. Brat - disse o xerife Jim Brautigan. - E é justamente sobre o Sr. McNolan.
Zachary virou-se, ficando de frente para o xerife que estava a uns dez passos. Disse:
- Meus negócios com McNolan não envolvem o senhor, xerife.
- Seus negócios com McNolan envolvem a lei quando você não busca tentar resolvê-los por meio da lei - retrucou Jim.
- Vou resolver do jeito antigo, xerife. Na forma que os cavaleiros do Oeste resolviam e alguns ainda resolvem seus negócios - insistiu Brat.
- Você sabe o caminho legal para solucionar sua pendência com McNolan. Sabe onde dirão se você tem direito a alguma coisa; se ele lhe deve e quanto deve. - Ao dizer isto, o xerife Brautigan soltou as duas tiras de couro que seguravam os cabos de marfim das pistolas que pendiam em seu cinto. Estufou o peito de urso e completou: - Agora, se você quer to jeito antigo, também sei agir como um xerife precisa agir. Infrinja a lei, Brat, e você e seus capangas sairão arrastados daqui, direto para a loja de caixas de madeira do Kin.
Enquanto o homem ainda falava, tanto Zachary como seus homens também debruçaram as mãos em suas armas. Ficaram ali, trocando olhares num silencioso tempo que pareceu durar uma eternidade. Quando o xerife percebeu que Brat o avaliava, como se medisse a circunferência de sua barriga, disse:
- E não se iluda com a protuberância do meu bucho. É a velocidade das minhas mãos que você deve avaliar. E, Zachary, eu juro que elas continuam tão ágeis como no dia em que sua mãe lhe colocava calças curtas.
Brat avaliou mais uma vez. A fama do xerife Jim Brautigan sempre o precedia. "O gatilho mais rápido do Estado de Nova York", anunciou o prefeito quando o nomeara havia alguns anos. Sem sombra de dúvida, se Zachary ou seus capangas fizessem o mínimo movimento de saque, morreriam ali, os três, baleados pelo lendário "Dedo de Fogo".
- Vou pensar sobre o assunto - disse Brat, e todos aliviaram a tensão sobre as armas.
Ao sair do armazém, o astuto burguês ainda lançou um olhar de ódio para McNolan.
Depois de passar o breve tumulto - que seria assunto para dias no pequeno condado, - o xerife e seu amigo se sentaram em volta de uma mesa no canto do armazém.
- Não quero parecer ingrato, Jim - disse Nolan, enquanto bebia um copo de água. - Mas não quero tomar qualquer atitude que o force a quebrar seu voto.
- Ninguém precisa saber do meu voto, Mac, e eu não iria quebrá-lo hoje.
- Então... você iria deixar que o alvejassem? Isso é ainda pior para mim. Não quero ter sua morte na minha consciência.
Brautigan sorriu e meneou a cabeça, dizendo:
- Você não entende a dívida que tenho com você, não é? Você não entende que devo minha vida a você, McNolan? Você é o responsável por eu estar aqui hoje, por ter minha família junto comigo e, além de tudo, ter a esperança de uma vida eterna. Entenda isso e não diga que seria demais eu me sacrificar por alguém que me deu tudo o que tenho.
- Só cumpri minha obrigação de cristão.
- Mas tem cristão que nem a obrigação cumpre.
A história passada desses dois homens daria um livro, mas, em brevíssima síntese, Jim "Dedo de Fogo" Brautigan era um matador. Intolerante, "pavio curto", tinha como resposta para cada desavença uma bala e um cano fumegante. Embrenhou-se no vício do álcool e, quando a esposa disse que o deixaria, juntamente com os filhos, ele tomou uma decisão: iria matar todo mundo e depois enfiar uma bala na própria cabeça.
Quando chegou em casa, bêbado, um jovem ferreiro chamado Nolan e sua esposa Marta estavam na sala, com uma Bíblia aberta sob a luz da lamparina.
"Dedo de Fogo" colocou a mão na cinta e ali apertou o velho companheiro que cuspia fogo. Iria matar todo mundo, mas, antes que sacasse, foi atingido por palavras:
- Jesus está nesta casa - disse McNolan num tom fraternal e, ao mesmo tempo, com autoridade que só uma pessoa que vive em íntima comunhão com Deus pode ter. - E em nome dEle peço que não se apresente aqui nesse estado.
Algo sobrenatural aconteceu e a sobriedade retornou imediatamente à mente de Brautigan, a despeito da garrafa de conhaque que havia ingerido. Naquele dia, os McNolan salvaram a família de Jim, que começou a estudar a Bíblia e conheceu Jesus. Não só O conheceu, mas O aceitou como salvador pessoal.
Certa noite, num dos estudos, ele fez um voto de nunca mais atirar contra uma pessoa e, desde então, nunca mais o fez.
- Obrigado - disse Nolan, sentado em frente ao amigo no armazém de Fearnot.
- Você quer registrar alguma coisa quanto às ameaças de Brat?
- Não. Vamos esperar. Creio que ele não irá mais incomodar.
No meio da semana, Joe veio para a cidade, trazendo um recado para Nolan. Gerald queria saber se podiam conversar sobre o assunto da semana anterior. Combinaram e, naquela mesma noite, uma hora após o sol se pôr, Norton e a esposa Lea estavam chegando de charrete. Tomaram um chá e comeram torta. Depois, as mulheres ficaram conversando na varanda da casa e os homens foram para cadeiras de madeira, no pátio.
- Diga, Gerald, o que você e sua esposa decidiram sobre a corte do nosso filho à sua Allice?
Norton se recostou na cadeira, sem dar resposta. Olhou para o céu, pintado com várias estrelas. Fez, então, a pergunta mais repetida naquele condado na última semana:
- Você acha que Jesus voltará até 21 de março de 1844?
- Depois de tudo o que estudamos na semana que passou, não tenho dúvidas a esse respeito. Minha única dúvida é sobre minha postura daqui para frente. O que devo fazer a respeito dessa consciência de que Jesus em breve voltará?
- Sim, Nolan. Essa pergunta tem me afligido muito e, confesso, ela me ajudou a decidir a respeito de permitir, ou não, a corte de Jerryl a Allice.
Capítulo 9 - Guilherme Miller
McNolan acomodou-se na cadeira e suas mãos se apoiaram nos braços dela. A lua cheia iluminava todo o pátio da pequena propriedade, quase tornando inútil a fraca luz amarela do lampião.
- Conversamos com Allice - disse Gerald. - Ela tem interesse em conhecer melhor seu filho e nós consentiremos que ele a visite ou que converse com ela na cidade, quando aqui viermos.
- Você não imagina o quanto fico feliz com isso - disse Nolan com um franco sorriso de satisfação. - Aprecio muito a forma de você e sua esposa conduzirem a educação de suas filhas e não tenho dúvida de que, se tudo der certo entre eles, formarão um ótimo casal.
Ficaram ali durante algum tempo, tratando de outros assuntos. O ferreiro notou uma expressão preocupada em Gerald e, embora tenha tentado atrair o assunto sobre o que lhe afligia, o homem foi sempre evasivo nas respostas. O mais próximo que chegou de revelar qualquer coisa foi quando disse "em breve nossas famílias estarão bem próximas e poderemos compartilhar tudo o que há em nosso coração".
Depois dessa fala, Nolan não insistiu e retomaram o assunto sobre a mensagem milerita e as profecias de Daniel. Algum tempo depois, estavam se despedindo daquela família.
Quando os Norton partiram na charrete, o ferreiro e a esposa voltaram para dentro de casa, vendo seus filhos saírem dos quartos onde estavam.
- Qual foi a resposta? - perguntou Jerry, afoito. O pai mostrou o melhor semblante fúnebre que tinha, sem dar resposta imediata.
Marta, que igualmente não sabia o teor da conversa entre os patriarcas, também ficou aflita com a expressão do marido.
- Você realmente quer saber? - perguntou Nolan, com um tom de solene pesar.
Jerry abaixou a cabeça e os dois irmãos voltaram para o quarto. Marta aproximou-se do filho e deu-lhe um beijo seco no rosto, até que o mestre ferreiro disse naquele mesmo tom de voz:
- É difícil quando vemos o primeiro filho saindo de casa para fazer a corte a uma donzela. A gente se sente mais velho.
Jerryl levantou a cabeça, Marta olhou para Nolan e os dois menores voltaram correndo do quarto.
- Ele deixou? Fale, pai! - o jovem quase gritava.
Deixou, garoto... O velho Norton permitiu que você corteje a filha dele.
Foi a vez de Jerry beijar o rosto da mãe, amassando-lhe a bochecha.
A noite trouxe um sono tranquilo. O jovem ferreiro não se lembrava de outro dia em que tivesse acordado tão feliz. No fim daquela semana, no domingo, poderia visitar Allice. Mas, quem sabe, ela não apareceria antes na cidade. Poderiam conversar por alguns minutos, "mas não exagere no tempo", alertou Nolan, como se não soubesse que quando se está com a pessoa amada o tempo é algo que simplesmente não existe.
No dia seguinte, quase na hora de encerrarem as atividades da manhã, Ted gritou em frente ao arco do portão de madeira do estabelecimento:
- McNolan, vim buscar alguns utensílios de metal para vender. Estou saindo de viagem agora.
Jerryl coçou a cabeça. O estômago estava roncando e esperar Ted escolher sua carga de canecos, panelas, talheres, bandejas e diversas quinquilharias seria algo demorado.
- Faremos isso depois do almoço - disse Nolan, como se tivesse ouvido o clamor do estômago do filho (na verdade, ele mesmo já estava exausto e faminto). - Vamos, Ted, traga a carruagem para o fundo do quintal e almoce connosco.
A cerraba barba branca do vendedor ambulante desenhou um sorriso e, mais que depressa, conduziu seu cavalo pela lateral do galpão, puxando a carruagem de três arcos de ferro cobertos com tecido que um dia fora branco, mas agora era marrom, de tanta poeira que já havia absorvido.
Quando os homens chegaram à casa nos fundos, Marta colocou mais um prato na mesa de madeira e, em seguida, deu um pequeno tapa na nuca de Palmer, pois ele, com uma faca, estava entalhando o nome na tábua.
- Ai - resmungou o garoto.
- Quando seu pai vir isso, você vai levar um cascudo - disse Marta, com uma nuvem trovejante sobre os olhos. O filho arrastou o prato metálico para cima do entalhe (mais tarde retomaria sua "obra de arte").
Ted tirou o velho chapéu e o pendurou num prego próximo à porta, revelando um cabelo grisalho e desgrenhado. Bateu o pó da roupa e os pés no capacho da entrada.
- Entre, Ted - convidou Marta. - Pode se lavar na bacia.
- Obrigado, Sra. McNolan. Eu ia queimar qualquer coisa por aí, mas seu marido me convidou para almoçar. Não quero incomodar.
- Não é incômodo, Ted - disse Nolan. - Nesse cocho já comem três cavalos - olhou para os filhos à mesa e desarrumou o cabelo de Ralph. - Mais um não tem problema.
- Nolan! - reprovou Marta - Perdoe-o, Ted, ele sempre faz essas piadas.
O vendedor sorriu de forma gostosa e disse:
- Sra. McNolan, para poder provar o que está trazendo esse cheiro eu me transformaria em um palhaço.
Marta agradeceu com uma mesura e retirou do forno a lenha uma fôrma com torta salgada de legumes.
Os homens se assentaram à mesa e Nolan fez uma oração. Enquanto comiam, conversaram:
- Ted, você conhece Guilherme Miller? - perguntou o ferreiro.
- Eu contei para Jerryl. Conversei com Miller há uns dez anos, no rio Hudson, e também já ouvi muitas histórias sobre ele - disse Ted enquanto comia da torta salgada e fazia uma expressão de que estava muito boa. - Ele é um fazendeiro, como muitos da região. Morou muito tempo em Vermount Poultney, mas depois se mudou para Low Hampton, aqui mesmo, no estado de Nova York. Vocês sabiam que ele é membro da Igreja Batista? Também ouvi dizer que serviu na guerra da independência de 1812, mas o mais interessante é a forma como ele lutou para pregar a interpretação de Daniel.
Ted fez uma pausa, comeu mais um bocado da comida, que incluía fartos legumes e queijo, e disse:
- Sra. McNolan, se me permite, gostaria de mais um pedaço dessa torta. Está maravilhosa.
- Obrigada, Ted - disse ela, servindo-lhe um pedaço dobrado, não só pelo elogio, mas por imaginar quão difícil era a vida daquele viajante. Sem morada fixa, sem uma cama para dormir à noite (Ted dormia em sua carroça). Pensou em perguntar-lhe se tinha família em algum lugar. Se havia uma esposa ou filhos aguardando sua chegada. Preferiu não interromper o assunto, e serviu-lhe, também, rabanetes.
Então, o viajante continuou:
- Miller é um intelectual. Um estudioso da Palavra de Deus, embora tenha lutado muito com sua consciência até finalmente levar adiante a interpretação de Daniel 8:14. Pelo que sei, foi em 1816 que ele começou seus estudos mais aprofundados da Bíblia e, em 1818, teve a primeira interpretação sobre as 2.300 tardes e manhãs. Ele lutou contra a consciência, com receio de que viesse confundir alguém.
- Ouvi um de seus colaboradores fazer um sermão sobre essa luta inicial de Miller - prossegui Ted. - Em agosto de 1831, segundo o pregador, e treze anos após ter interpretado a profecia, Guilherme sentia o peso insuportável de sua missão. Podia ouvir a voz de Deus que lhe dizia: "Vá, anuncie ao mundo. Designei-o como atalaia. Anuncie isto ao mundo." Mas Miller ainda relutou. Ele não sabia pregar e deixava isso bem claro para Deus quando Sua voz o confrontava. Mas naquele dia foi diferente. Guilherme Miller desafiou Deus e, em oração, disse que iria fazer um acordo com Ele. Se fosse da vontade de Deus, que Ele enviasse um convite para que pregasse. Então, se recebesse o convite, Miller iria pregar sobre a profecia de Daniel.
Os McNolans ouviam atentos a história de Ted. Jerry até passou a comer apenas quando o viajante parava de falar, enchia a boca de comida e mastigava.
- Miller sentou-se tranquilo em sua cadeira, pois quem iria convidar um velho fazendeiro de cinquenta anos para pregar sobre a volta de Jesus? Mas, trinta minutos depois, em uma manhã de sábado, alguém bateu à porta de sua retirada casa na fazenda. Era Irving, seu sobrinho. O garoto disse que vinha da casa do pai, pois o pastor de Dresden não poderia dirigir o culto do domingo seguinte. Segundo o garoto, o pai lhe havia pedido que viesse até a fazenda do tio Miller e apelasse para que, no culto do domingo seguinte, pregasse a respeito da segunda vinda de Cristo, conforme estava estudando na Bíblia. *
* C. Mervyn Maxwell, História do Adventismo (Santo André, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1982), p. 9-14.
Capítulo 10- A Primeira Corte
- E, então, depois disso ele começou a pregar? - perguntou Jerryl, absorvido pela narrativa de Ted.
- Antes ele correu para os fundos de casa e se escondeu no bosque. Revoltado consigo mesmo, pedia que Deus desconsiderasse o voto que fez, implorando que enviasse outro para pregar a mensagem sobre o advento. Porém, em lágrimas, ele se rendeu a Deus. Paz e coragem tomaram conta de seu coração e Miller entendeu que aquilo era um indiscutível sinal do Criador. Depois de treze anos lutando, ele atendeu ao chamado e pregou em Dresden. A partir daquela data, ele não parou mais. Pregava "onde Deus abria caminho", como disse o pregador que contou essa história, e, hoje, muito se fala sobre o breve retorno de Jesus. Miller começou pregando em pequenas igrejas e grupos de cristãos na região, mas já expôs sua tese em igrejas de grandes cidades, Baltimore, Rochester, Filadélfia, Nova York e outras. Tudo com a ajuda de um homem chamado Himes, que não tem medido esforços para anunciar a boa-nova da segunda vinda.*
- De fato, interessante a história dele - conclui Nolan, com todos encerrando o almoço.
Marta separou dois pães para Ted e ele agradeceu. Depois de descansarem, escolheram os utensílios na ferraria (incluindo enxadas e foices) e o viajante se despediu, dizendo que voltaria em alguns meses.
O restante da semana, apesar de intensas atividades, passou devagar para Jerryl. Ele estava ansioso pelo domingo, que parecia não chegar nunca. Olhava constantemente para a rua e, em toda oportunidade que tinha, ia para os comércios da cidade, sempre na esperança de ver sua amada ou de encontrar Joe trazendo notícias.
Apesar do tempo caminhando a passos de tartaruga, o domingo chegou. Jerryl almoçou e só não vestiu a melhor roupa em razão de Marta não permitir, dizendo que aquela camisa era para a igreja. Vestiu outra que estava entre as melhores; uma de xadrez azulado. Colocou o chapéu de feltro e, acompanhado de Palmer e Ralph, que iram para brincar com Joe, foi para a fazenda dos Norton.
Caminharam por quase uma hora, até chegar. Jerry destravou o portão de madeira e o atravessou.
* assim que possível ponho o resto do capítulo *
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